Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Doria e França voltam a se atacar em debate para o governo de SP

Candidatos ao governo de São Paulo mantêm clima de tensão em encontro na Record e trocam acusações, críticas, ironias e ofensas pessoais

Paulo Beraldo e Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2018 | 14h35

SÃO PAULO - Em empate técnico na última pesquisa de intenção de votos para o governo de São Paulo, os candidatos João Doria (PSDB) e Márcio França (PSB) mantiveram o clima de tensão no segundo debate do segundo turno, promovido pela Rede Record na tarde desta sexta-feira, 19.

Os dois brigaram para ver quem cola em quem a imagem de "petista", já que a estratégia ganhou força no momento em que os paulistas expressam forte rejeição ao PT na eleição presidencial e dão boa vantagem a Jair Bolsonaro (PSL) na disputa com Fernando Haddad (PT) no cenário nacional.

A troca de farpas, que começou nas campanhas dos horários eleitorais em rádio e TV, continuou no encontro realizado na quinta, 18, na TV Bandeirantes, deu o tom do primeiro bloco, com ataques diretos, críticas, ironias, acusações, interrupções e vaias da plateia, tudo isso em meio a uma baixa apresentação de propostas concretas para a população do Estado. 

Entre os momentos mais tensos do debate, no começo do segundo bloco, França citou a rejeição do rival por ter deixado a Prefeitura da capital para ser candidato ao governo do Estado. O candidato do PSB se apresentou como o "anti Doria" e afirmou que "as pessoas votam em mim só para não votar em você. É um anti Doria", disse França. "Vejo teu jeito, teu olhar, parece uma coisa ensaiada, inventada", atacou. Doria lembrou que foi o candidato mais votado na capital e no interior no primeiro turno. "A população quer a mim como governador e não a você, por isso eu passei em primeiro lugar para o segundo turno", rebateu o tucano, declarando estar à frente na disputa em quatro pesquisas eleitorais.

Em outro embate, o tucano acusou Márcio França de usar o helicóptero da Polícia Militar para compromissos particulares, acusação negada pelo adversário. França, por sua vez, disse que o adversário usou o Palácio dos Bandeirantes para fazer uma festa de seu grupo empresarial. "Acha que tudo pode pagar. Quer comprar a rua, comprar as pessoas, sua consciência, porque ele pode pagar", disse o candidato do PSB.

Enquanto Doria classificou França como "carreirista da política", o outro candidato disse que, se o tucano for eleito, não vai visitar o interior assim como teria "abandonado" a capital paulista quando foi prefeito. "Eu sou diferente, eu penso grande", respondeu o candidato do PSDB.

Abaixo, confira como foi o debate bloco a bloco:

Logo na primeira pergunta, França questionou Doria sobre os restaurantes Bom Prato e esperou a réplica para partir ao ataque e afirmar que Doria disse que os pobres teriam que dar "graças a Deus se pudessem se alimentar". "Para quem é muito rico, isso pode parecer bobagem. Mas é a chance que ela tem de se alimentar. São pessoas humildes que dependem disso. Se o Estado pode fazer, é uma chance que nós temos de fazer". Doria se defendeu dizendo que sua fala foi "descontextualizada". 

Depois, em meio a uma pergunta sobre segurança, os candidatos passaram a discutir sobre a farinata, produto que o tucano passou a distribuir quando era prefeito de São Paulo. "A farinata foi apoiada pela Cúria Metropolitana de São Paulo. Eu queria ler uma matéria que saiu na Folha dizendo que você disse o seguinte: o novo formato para a violência é sem a polícia. Dizendo que em briga de casal não se mete a colher. Você disse que a PM não deve atender briga de casal. Eu entendo o contrário. Ela deve agir, sim, para defender a mulher em qualquer circunstância", disse Doria.

Depois, em meio a repentinas mudanças de assunto e ironias, França disse que o senador Major Olímpio (PSL), representante do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) em São Paulo, afirmou não confiar em João Doria. O candidato do PSB disse ainda que o rival "vive em um mundo diferente". "O que tem de gente esparramada no centro de São Paulo é uma indignidade para todo mundo. Caiu um prédio com as pessoas dentro. É só olhar". 

Irritado, o candidato do PSDB passou a falar sobre o berço político e cidade natal de Márcio França,  São Vicente, na Baixada Santista. "São creches imprestáveis, sujas, maltratadas". O tucano aproveitou para mais uma vez associar o rival ao PT ao dizer que a pobreza é um problema do Brasil e não de São Paulo. "É um problema do partido que você adora, do José Dirceu, do qual você foi parceiro. Foram eles que geraram 14 milhões de desempregados e uma parte considerável está nas ruas das pequenas, médias e grandes cidades do Brasil. Não quero mais petismo, quero o Brasil livre dessa gente". 

"Você tem um jeito de arrogante de falar", diz França. "As pessoas que são pobres não são sujas. Eu fui prefeito há 20 anos. Sabe quantos votos eu tive? Quase 70%. Você foi prefeito há um ano. Você teve 20% dos votos. As pessoas de SP te rejeitam. Chamar pessoas pobres de sujas", disse o candidato do PSB, enquanto a plateia vaiava.

França ainda acusou Doria de ter pego dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a compra de um avião particular. "Só queria que você devolssesse os R$ 44 milhões do povo brasileiro com que você comprou esse avião." Doria respondeu afirmando que "o dinheiro é do BNDES. Esse financiamento ajuda a gerar empregos. Diferente de você que gosta de Cuba e da Venezuela, não é o dinheiro que não voltou. Dinheiro que o povo brasileiro perdeu porque foi para lá e não foi para lá. Por que esconde publicamente quando deve assumir esse seu lado vermelho, esquerdista?" 

Segundo bloco

Na segunda parte do programa, Doria pede mais tranquilidade no debate e fala de creches, mas na resposta, França mais uma vez partiu para o embate. "Você quem chamou as creches de sujas, feias, pobres. A casa das pessoas é simples. Gente passando necessidade. Entrei em casa mais limpa que muita casa de milionário. A dignidade delas está de pé. Essas unidades, essas creches, não precisam ser suntuosas, sofisticadas. Mas tudo mais caro custa mais, acabam gerando alguns problemas". 

Na sequência, Doria questiona França sobre Lula. "Você captou mais conselhos do Lula do que deu conselhos. Por que esconde a posição que apoiou o PT,aprovou os projetos do PT no Congresso, que foi contra o impeachment de Dilma?" e na resposta, França diz que acha espantoso como "Doria mente". "Não fui contra o impeachment da Dilma, fui a favor. Nunca fui do PT. Meu adversário sempre foi o PT. Minha principal rivalidade em SP sempre foi contra o PT. Não traio os meus amigos, não apunhalo os meus amigos". 

Na sequência, França foi duro: "Você brincou com a minha saúde, quis humilhar porque eu tinha feito cirurgia, brincou com a família. A troco de quê? É um jeito arrogante. A população acha você arrogante, prepotente. Se você discorda, faça do seu jeito, mas não humilhe as pessoas. Cadê os seus amigos? Todos viraram seus adversários? Cadê seus amigos do PSDB, todo mundo fugindo de você. Até o Bolsonaro fugiu de você".  Doria diz que os amigos são leais e verdadeiros. "Não dependem de mim para oferecer empreguinho e vantagens. Tenho muitos amigos com enorme alegria. Seu mundo é a velha política, exatamente isso que eu não desejo para SP". 

França ironizou o rival e disse que "as pessoas percebem que o Doria não é preparado. Ele fica inseguro. É preparado para pequenos comerciais, produção de eventos. Ele é perfeito. Vai do coquetel da entrada até o cafezinho da saída. Acelera, mas não engata". Na resposta, Doria chamou o rival de "Márcio França, o rei do mimimi". E seguiu: "Você precisa ter compostura. As pessoas esperam que você seja mais governador e menos candidato. Você deixa de cumprir agendas efetivas para fazer agenda política. Em janeiro, quem sabe, você pode desfrutar a praia de São Vicente e nós possamos fazer um governo eficiente".  

Terceiro bloco

Na última parte do debate, os candidatos fizeram suas considerações finais. O primeiro a falar foi Doria, que disse defender São Paulo "para ter melhor qualidade na educação, para que polícia esteja nas ruas e possa defender você. Defendo o acolhimento das pessoas em situação de rua. Defendo que nós possamos respeitar as famílias, estabelecer mecanismos que apoiem a família. Sou contra o aborto e peço que considerem para presidente o voto em Jair Bolsonaro."

Em sua última fala, França diz que São Paulo "precisa de ensino médio com professores animados e bem pagos. "São Paulo sempre conduziu o Brasil."



 

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