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Jequitibá de Vassununga é monumento natural brasileiro

A mais antiga árvore do Brasil de que se tem notícia, com idade atribuída de 3.020 anos, e tronco tão grosso que são necessários 11 homens para abraçá-lo, vive imponente e saudável no último bosque da sua espécie que restou no País. Ela virou ponto turístico cult e até alvo de simpatias e rituais mágicos que a identificam com o falo da terra, numa versão atual do ônfalos, cultuado desde a pré-história. Neste fim de semana, como pôde constatar a reportagem do JT em visita ao parque que fica na terra do compositor Zequinha de Abreu, enquanto um grupo de turistas japoneses da terceira idade meditava e desenhava a árvore, muitos deles sentados no chão, outro grupo de adolescentes estudantes brasileiras disputava como amuleto as sementes secas caídas do grande jequitibá, mortas, escuras e enrugadas, parecendo fezes de cachorro. Uma das garotas tinha ouvido falar que, se uma garota passasse três vezes em volta do tronco, teria seu mais secreto desejo realizado ? principalmente se fosse o de engravidar do homem amado. ?Feitiçaria, cuidado que isso é coisa do diabo?, alertava outra das adolescentes, entre risinhos, antes de todas se afastarem, ao perceberem que estavam sendo ouvidas. Mas todas deram voltas na árvore, talvez contagiadas pela magia do grande jequitibá.Pois é. Segundo os registros, essa árvore mais antiga do Brasil é o jequitibá-rosa (Cariniana legalis) que está no meio da Trilha dos Jequitibás, no Parque Estadual de Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro, a 250 quilômetros de São Paulo, na região de Ribeirão Preto. Junto com ele, lá vivem 329 outros jequitibás adultos, em seis glebas descontínuas de terra encravadas entre usinas, como ilhas de mata virgem num mar de lavouras de cana-de-açúcar. ?Ele é tão impressionante como as sequóias da Califórnia, mas não tem, aqui no Brasil, a divulgação que elas têm nos Estados Unidos, e que lá transformou a preservação ambiental em fonte de renda por causa da indústria turística?, comenta o engenheiro florestal Luiz Rodolfo Keller, que acompanhou a reportagem do JT na visita ao jequitibá de Vassununga.Keller e o diretor do parque, Heverton José Ribeiro, também engenheiro florestal, advertem que os 3.020 anos atribuídos ao jequitibá de Vassununga ainda não foram nem contestados nem confirmados por outra datação independente. Por isso a datação está sendo questionada por vários cientistas, agora que predomina a teoria de que as florestas tropicais são de ciclo rápido e suas árvores seriam no máximo centenárias e muito raramente milenares. ?De qualquer forma, o jequitibá de Vassununga parece mais velho que o de Carangola, em Minas Gerais, ao qual era atribuída a idade de 1.500 anos e que morreu em 1999, depois de ter tido seu tronco incendiado a partir das raízes expostas?, lembra Keller, que também fez visita técnica ao jequitibá de Carangola. ?O jequitibá de Vassununga também está mais saudável do que aquele, certamente porque tem sido bem cuidado pelo parque.?Não é para menos. O grande jequitibá, que tem altura de um prédio de 13 andares (39 metros) e tronco de quase quatro metros de diâmetro a 1,65 metro do solo (diâmetro na altura do peito, conhecido pela sigla DAP), circunferência de quase 12 metros e peso estimado em 264 toneladas, é o xodó do engenheiro Heverton e dos funcionários do parque. Toneladas de terra foram colocadas em volta do tronco, para cobrir as raízes que estavam sendo expostas pelo pisoteamento dos visitantes. Agora a árvore tem uma cerca que protege seu tronco das pisadas e está rodeada de mata nativa fechada. O acesso é feito por uma trilha que já foi estrada de terra, mas não pode mais ser percorrida por veículos, obrigando a uma caminhada de cerca de 20 minutos dentro de um parque temático feito pela própria natureza: a exuberante Mata Atlântica do interior, com altíssimo grau de biodiversidade, onde se podem ver árvores de madeiras nobres como cedro e peroba, além de plantas raras, como cipós rastejantes que dão flores parecidas com as do manacá.?Quando interditamos a estrada para veículos, ficamos com medo que estivéssemos afugentando o público, que agora tem de caminhar um pouco para visitar o jequitibá, e não pode tocar no seu tronco, que estava sendo atacado por fungos por causa do manuseio?, conta Heverton. ?Mas o que aconteceu foi o contrário: agora o público está aumentando a cada mês?, constata o engenheiro. ?Além disso, a causa da preservação ambiental é uma das poucas unanimidades entre os jovens. Hoje todo mundo concorda que todos precisamos fazer algo para proteger o meio ambiente e este parque é um exemplo vivo disso?, diz. ?O jequitibá não é só xodó dos oito funcionários do parque, mas do público também?, frisa o engenheiro florestal que dirige o parque. Tratado com fungicida, o tronco do jequitibá voltou a exibir uma saudável crosta rugosa de cortiça. Além disso, uma grande lasca no alto da árvore, provocada pelo desabamento de um galho em 1997, também foi tratada e cicatrizou. A mata agora começa a cobrir o galho que caiu, de mais de 20 metros, e que parece uma árvore morta tombada. Os animais, ariscos, são mais ouvidos do que vistos. Em geral, o máximo que o caminhante vê são suas pegadas na trilha. As glebas que constituem o Parque Estadual de Vassununga foram milagrosamente poupadas pelas lavouras porque são terrenos de encosta, impróprios para a agricultura mecanizada, o que levou as próprias usinas a preservá-las. Além de serem representativas da Mata Atlântica do interior, elas possuem trechos de Cerrado denso, com extraordinário grau de biodiversidade. O número de plantas medicinais, por exemplo, é quase incalculável. ?Estamos agora estudando a criação de corredores biológicos que interliguem as glebas do parque, para melhorar a diversidade genética das espécies e evitar que futuramente degenerem?, planeja Heverton. ?O que falta são verbas para o meio ambiente?, comenta a professora de História e assistente de fotografia Mercedes Apparecida Fabbri, que também acompanhou a visita do JT ao jequitibá. Ela considera um absurdo um parque como o de Vassununga, composto por seis áreas descontínuas, ter apenas oito funcionários. ?Com mais gente ele desenvolveria muito mais atividades de divulgação que multiplicariam seu público?, acredita. ?Mesmo diante de testemunhos tão importantes quanto esta árvore, que por si só já justificaria a colocação de pára-raios para protegê-la do principal flagelo dessas árvores, o governo ainda não está suficientemente pressionado pela opinião pública a se comprometer com o meio ambiente e a ele destinar verbas e empregos?, considera a professora. Ela apurou que há mais de dez anos não se abrem inscrições para contratar funcionários para o Ibama ou para o Instituto Florestal. ?Precisamos que mais gente ganhe a vida defendendo o meio ambiente.?As árvores mais antigas do mundoA datação do jequitibá-rosa ou jequitibá patriarca de Vassununga foi feita dentro da metodologia científica pelo biólogo Manuel de Godoy, que vive em Pirassununga e organiza excursões para a árvore desde os 16 anos. Suas medições, que começaram em 1970, duraram 18 anos. Ele contou os anéis de três troncos de jequitibás mortos e mediu seus diâmetros. Pôs os dados no computador e, comparando com o diâmetro do jequitibá de Vassununga, chegou à estimativa de 3.020 anos, o que situa a árvore como a mais antiga do Brasil. Hoje em dia, entretanto, pesquisadores como a bióloga Giselda Durigan, do Instituto Florestal, discordam da idade a que chegou Godoy. ?O jequitibá não precisa de 3 mil anos para ficar daquele tamanho?, disse a bióloga. ?Acho muito difícil que ele tenha 3 mil anos porque nada vivo no Brasil tem essa idade. O clima tropical faz as árvores crescerem rápido e morrerem rápido. No máximo elas duram alguns séculos.?Para Giselda, ?existem árvores milenares, mas não no nosso clima. É o caso das cryptomérias do Japão (Cryptomeria japonica, um tipo de conífera), das sequóias da Califórnia, dos carvalhos europeus e de oliveiras no Oriente Médio, dos quais há datações confirmadas, indicando milhares de anos?.A bióloga lembra que, segundo os registros, o ser vivo mais velho do mundo é justamente uma árvore: um pínus da região da Serra Nevada, na Califórnia, ao qual é atribuída a idade de 4.800 anos. Giselda afirma que o solo de Vassununga é muito fértil, o que pode ter acelerado o crescimento do jequitibá. ?Em Assis, temos um jequitibá plantado há 30 anos com quase 80 cm de tronco. Nessa proporção, em 120 anos, ele terá a mesma medida de tronco do jequitibá de Vassununga.? Ela ressalva que o jequitibá de Assis está em condições de cultivo ideais e que o de Vassununga pode ter passado por sucessivas secas, o que estenderia seu crescimento por alguns séculos, mas nunca por milênios.? ?Só pelo seu porte monumental e pelo testemunho de como a Mata Atlântica é majestosa, o jequitibá de Vassununga continua importante, quer ele já tenha comemorado mil anos quando Cristo nasceu, quer ele simplesmente tenha alguns séculos e já estivesse aqui quando Cabral chegou, por exemplo?, pondera o engenheiro florestal Heverton José Ribeiro, diretor do Parque Estadual de Vassununga.ETIMOLOGIAA palavra jequitibá vem da língua guarani e significa ?fruto que é um artefato de pesca?, pois lembra os cones afunilados que as tribos usavam para pescar e que eram chamados jequis. A palavra ibá significa fruto, em guarani. Já a palavra Vassunuga, que faz parte do nome do parque, também vem do guarani ibá (fruto) e sununga (que faz ruído), referindo-se ao barulho que fazem, ao cair, os frutos duros das cabaceiras, outra planta da região.

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