Jenny lembra ajuda de amigos

Ela conta que pelo menos 2 vezes colegas evitaram que fosse presa

O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Se há algo de que a metalúrgica aposentada Jenny Prado Pereira não pode reclamar é de falta de solidariedade dos companheiros. Em pelo menos duas ocasiões ela, uma simpática senhora de 70 anos que milita na esquerda política desde os 14, se salvou da prisão por conta da ação dos colegas."Uma vez, quando trabalhava na fábrica, a polícia chegou para me prender e os operários fizeram uma escadinha com as mãos e me jogaram sobre um muro, que pulei para escapar. Em outra, um médico, avisado que a repressão estava a caminho, me deu fuga da clínica onde trabalhava", conta, emocionada.A idade permitiu que ela e o marido Carlos, também sindicalista, vivessem duas ditaduras: o Estado Novo, de Getúlio Vargas, e o regime militar. Em 1963, já militante do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Jenny se envolveu com a Ação Popular (AP), organização da esquerda católica.Ela, que chegou a atuar no Sindicato dos Metalúrgicos ao lado do presidente Lula, guardou muito forte na memória a lembrança da noite do dia 31 de março de 1964, quando ocorreu o golpe de Estado. "A gente estava participando, naquele dia, de um encontro no sindicato. Éramos tão ingênuos que fazíamos atas das reuniões. Graças a isso a repressão tinha os nomes de todos os opositores."A marca mais forte que ficou do período, entretanto, foi o histórico comício do 1º de Maio, em 1968, quando os movimentos operários organizaram uma manifestação de protesto na Praça da República. Na ocasião, o então governador Roberto de Abreu Sodré chegou a levar uma pedrada e teve que se refugiar na catedral."Saímos andando, cantando e gritando palavras de ordem. Aquela foi a última vez que vi vivos companheiros como Zequinha Barreto (morto ao lado de Lamarca na Bahia) e o Barbosa, da AP. Depois, todos foram mortos sob tortura ou em combate", conta.Jenny perdeu o emprego na fábrica e, com a foto exposta em vários locais como procurada, foi trabalhar num lugar improvável: como professora do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). "Depois descobri que só tinha militar reformado lá e ninguém acreditaria que a professora era uma subversiva procurada, com o nome ligeiramente mudado. Agüentei um ano no Mobral e não fui descoberta."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.