Jarbas ataca PMDB e cobra auditoria no Real Grandeza

Da tribuna, senador diz que ?os acontecimentos? no fundo ?são prova clara e inequívoca? da corrupção

Luciana Nunes Leal, Ana Paula Scinocca e Cida Fontes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

04 de março de 2009 | 00h00

O cerco promovido pelo PMDB ao Real Grandeza, fundo de pensão das estatais Furnas e Eletronuclear, virou a tradução prática das denúncias do senador Jarbas Vasconcelos (PE) contra seu próprio partido. Em discurso no plenário, o senador voltou a atacar ontem as práticas da legenda e cobrou uma auditoria oficial nos fundos de pensão. Leia a íntegra do discurso de Jarbas no Senado As declarações polêmicas do senador sobre o PMDB Saiba mais sobre o caso do Fundo de FurnasOuvido por 41 dos 81 senadores, Jarbas disse que "os acontecimentos" no Real Grandeza "são uma prova clara e inequívoca" do que denunciou em entrevista à revista Veja, na qual acusou o PMDB de envolvimento em corrupção. O PMDB tentou emplacar um apadrinhado político no comando do fundo, provocando protestos de funcionários e até a intervenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que barrou a operação.O senador e ex-governador de Pernambuco cobrou de Lula a instalação de uma auditoria independente que "coloque tudo em pratos limpos" em relação aos fundos de pensão.O presidente da Fundação Real Grandeza, Sérgio Wilson Ferraz Fontes, afirmou que Jarbas está "equivocado" ao cobrar de Lula a instalação de uma auditoria independente. "Nós já somos acompanhados por controladores externos que verificam a performance de nossos investimentos", observou.Como forma de barrar a influência dos partidos em diretorias financeiras de estatais, o senador propôs a aprovação de uma lei que proíba o preenchimento desses cargos por indicações políticas. Os nomes dos diretores, pelo projeto, seriam aprovados pelo Senado Federal, seguindo o exemplo do que já ocorre hoje com os dirigentes das agências reguladoras. "A classe política, se tivesse bom senso, deveria ficar a quilômetros de distância de qualquer diretoria financeira", disse.Jarbas também atacou a impunidade de crimes cometidos no poder público. "No Brasil dos dias atuais, a certeza da impunidade dá uma força muito grande a quem não agiu com lisura e correção. As pessoas se agarram aos cargos como um marisco no casco de um navio. Não caem nem nas maiores tempestades."Ao citar a tentativa de parte do PMDB - ligado ao deputado Eduardo Cunha (RJ) e ao ministro de Minas e Energia, Edison Lobão - de mudar o comando do Real Grandeza, Jarbas reiterou a decisão de não citar nomes de colegas de partido envolvidos em corrupção. "Repito: não preciso citar nomes, pois eles vêm à tona, infelizmente, quase que diariamente."O discurso começou com um protesto de Jarbas contra o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), a quem acusou de promover uma "retaliação mesquinha". Na véspera, Renan destituiu o pernambucano da Comissão de Constituição e Justiça, uma das mais importantes do Senado.O senador fez uma crítica ao presidente Lula ao apresentar proposta de criação da uma agência anticorrupção e outra da retomada do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e, em seguida, dizer que tirou as duas ideias do programa de governo do petista, na campanha de 2002.Segundo o peemedebista, sua vida está sendo investigada pelos adversários em razão das denúncias que fez. "Não temo esses investigadores, apesar de considerá-los credenciados para tal função, pois de crimes eles entendem." Logo no início do pronunciamento, o senador pernambucano repetiu que não retiraria "uma vírgula" do que já disse sobre corrupção em seu partido. Sem citar os nomes de Sarney e Renan, discursou: "Não sou mesquinho, não sou pequeno. O que tinha que dizer sobre o presidente desta Casa, já disse. O que tinha que dizer sobre o líder do meu partido, já disse. Seria mesquinho e pequeno se acrescentasse mais detalhes, mais adjetivos".O dia de ontem começou com uma reunião da bancada do PMDB, sem a presença de Jarbas. Colegas do partido, em especial a senadora Roseana Sarney (MA), filha de José Sarney, protestaram contra a maneira tímida como o partido reagiu às acusações feitas pelo ex-governador de Pernambuco. REPERCUSSÃOPedro SimonSenador (PMDB-RS)"As soluções para os fundos de pensão, as diretorias financeiras e a reforma política partirão do pronunciamento de hoje. Vamos retornar o Jarbas (à CCJ), seria muito positivo"José Agripino MaiaSenador (DEM-RN)"O atual governo fatia grupos políticos e recebe as indicações sem fazer filtro. Grupos com compromisso apenas com seus próprios interesses. Aí surge a corrupção" Arthur VirgílioSenador (PSDB-AM)"Vossa Excelência tem o meu lugar para que continue integrando esse colegiado tão importante. Sua entrevista foi o grande momento político do Brasil em 2009"Tasso JereissatiSenador (PSDB-CE) "Desde o período do mensalão, onde não se desmentiu nada, apenas se justificou, as coisas estão aí. As coisas ficam como estão, ninguém se espanta, ninguém investiga"Tião VianaSenador (PT-AC)"O presidente da República é um homem correto. Mas os problemas estão aí e a qualidade da política hoje é pior. O parlamento está enfraquecido, contaminado pela corrupção"Valter PereiraSenador (PMDB-RS)"Vossa Excelência se posta como algoz da corrupção e não do PMDB. Qual é o partido que não teve algum de seus componentes enredado em problemas de corrupção?"Cristovam BuarqueSenador (PDT-DF)"Ou o senhor e eu devemos ser punidos, porque estamos faltando com a verdade, ou os outros devem ser punidos pela situação degradante em que vive o Senado"Jefferson PraiaSenador (PDT-AM)"Estamos refletindo sobre o maior mal deste país, sobre a corrupção do Brasil. O grande salto que temos de dar daqui para a frente é como vamos sair"

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