Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

União Brasil, com R$ 1 bi de dinheiro público em 2022, privilegia eleição para Câmara e em 5 Estados

Reportagem do 'Estadão' acompanhou encontro que selou o apoio do partido a Rodrigo Garcia em SP; acordo garante PSDB ao lado de ACM Neto na Bahia

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 10h00

Partido que terá a maior fatia de recursos públicos para investir nas eleições de 2022 - quase R$ 1 bilhão dos fundos eleitoral e partidário — o União Brasil fez um jantar discreto na noite desta terça-feira, 21, e recebeu apenas 44 convidados em uma churrascaria no Jardins, bairro nobre da capital paulista, para selar a 1° aliança de peso da sigla: o apoio a candidatura do vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB) ao Palácio dos Bandeirantes.

O evento marcou também a lógica regional que vai nortear os acordos da legenda, resultado da fusão entre PSL e DEM. Diferentemente  de outros partidos, o União Brasil abriu mão de lançar "balões de ensaio" presidenciais para se concentrar nas eleições proporcionais. O objetivo é eleger no próximo ano o maior número de deputados federais e investir em poucas candidaturas estaduais competitivas, sendo a principal delas a de ACM Neto. O ex-prefeito de Salvador costurou o acordo com Garcia e vai receber o apoio do PSDB para a disputa pelo governo baiano.  

A outra prioridade será Ronaldo Caiado, em Goiás. Segundo dirigentes da nova legenda, há planos de capitalizar candidaturas ao Executivo estadual também em Rondônia, Mato Grosso e Ceará, onde o PSL acredita ter nomes com chances de vitória.      

No jantar desta terça-feira à noite, os tucanos eram minoria. O governador João Doria não compareceu — está em período de férias até o dia 2 de janeiro. Garcia foi ao evento na condição de pré-candidato e governador em exercício. Na ampla mesa do encontro, posicionou-se entre Luciano Bivar e ACM Neto, os dois principais caciques do União Brasil. Dos 44 pratos servidos na churrascaria Varandas, 43 foram de bife chorizo e apenas 1 de frango, para o vereador Milton Leite (DEM).

O PSDB, que em períodos pré-eleitorais costuma fazer grandes eventos seguidos de entrevistas coletivas para anunciar seus apoios, dessa foi representado apenas pelo prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, pelo chefe da Casa Civil de São Paulo, Cauê Macris, e pelo presidente estadual da sigla e secretário de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi.

Em nenhum momento do jantar se falou publicamente em eleições presidenciais ou se mencionou o nome de algum pré-candidato ao Palácio do Planalto. Nem nas conversas reservadas.

"A dinâmica das coligações estaduais não é nacional. Não temos verticalização no Brasil. Eu estava aqui ao lado por exemplo do ACM Neto, que é o atual presidente do DEM e futuro secretário-geral do União Brasil. Ele tem lá no seu palanque o apoio do meu partido que é o PSDB. Isso incentivou o União a fazer esse apoio aqui. (ACM Neto) tem apoio do PDT e do Podemos, por exemplo. Essa questão nacional não vai se reproduzir nos Estados. O que tenho deixado claro nas conversas com os partidos é que o meu candidato a presidente é o João Doria", disse Garcia ao Estadão.

ACM Neto, por sua vez, afirmou que não vai deixar de conversar com o PSDB no plano nacional, mas também que "todos" serão ouvidos e considerados.

"Não vamos deixar de conversar com Sérgio Moro. Inclusive alguns diálogos já aconteceram com o Podemos e com ele, mas não há indicativo de apoio a ele nesse momento. Primeiro vamos cumprir nossa formalização em fevereiro. Em seguida vamos organizar os Estados e só depois disso vamos avançar para discutir a aliança nacional", disse o ex-prefeito de Salvador.    

"Estamos conversando em linha nacional não só com o PSDB, mas com o MDB e Podemos. São conversas que temos que fazer para termos uma candidatura exequível e que atenda os anseios da sociedade brasileira. É inegável que o Doria é um bom gestor. Mais adiante podemos conversar sobre um possível alinhamento", disse Luciano Bivar.

O deputado Junior Bozella (SP), que faz parte da direção nacional do PSL e estará na executiva do União Brasil após a formalização da sigla, avalia que o fundo eleitoral turbinado (R$ 4,9 bilhões) vai incentivar que a legenda invista em candidaturas de nomes sem mandato. Entre os presentes no jantar estava o ex-jogador Edmundo, que pode ser candidato a deputado pelo União Brasil em 2022.

"A prioridade sempre foi eleger o maior número de deputados federais. Com mais recursos, será possível investir mais nas candidaturas para governo e em candidatos sem mandato", afirmou. Questionado se teme danos a narrativa eleitoral do partido devido ao alto valor do fundo, Bozella respondeu: "A organização da eleição custa muito caro. O custo da Justiça Eleitoral para organizar eleição é quatro vezes mais do que a própria eleição, que é na ponta produz a democracia."

'Ponto de atenção'

O jantar no domingo organizado pelo grupo Prerrogativas, no qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador Geraldo Alckmin apareceram juntos pela primeira vez publicamente desde que se passou a ser cogitada uma chapa entre os dois, também foi tema das conversas no jantar que selou a aliança entre o União Brasil e os tucanos paulistas.

"Essa foi sem dúvida uma demonstração de que Lula está em uma estratégia de tentar ampliar sua atuação não se limitando apenas ao campo da esquerda. É claro que isso deve servir de ponto de atenção aos demais postulantes ao Palácio do Planalto na definição de suas estratégias", observou ACM Neto ao Estadão.

O ex-prefeito não considerou "adequada" a classificação de Moro, que chamou o evento de domingo de "jantar da impunidade''. "Moro tem o direito de dizer isso, mas eu não chamo isso para mim não."

Os prefeitos paulistas que vieram do interior para o jantar desta terça-feira avaliaram o cenário estadual paulista como favorável ao atual vice-governador e pré-candidato tucano: sem Alckmin, a candidatura de Rodrigo Garcia tem mais chances de vitória.

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