Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Janot diz que posse de Lula não 'muda nada' e que MP tem 'couro grosso'

Mais cedo, ele já havia feito seu alerta ao afirmar que 'ninguém " é imune a investigações, ao ser questionado sobre a possibilidade de pedir a abertura de inquérito contra a presidente Dilma Rousseff

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S. Paulo

17 de março de 2016 | 11h39

BERNA -  O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, garante que a posse de Luiz Inácio Lula da Silva como ministro "não muda  nada" para a Justiça e que o Ministério Público tem "couro grosso". Em Berna para reuniões com o Ministério Público da Suíça, Janot pode anunciar em seu retorno ao Brasil a abertura de inquérito contra Dilma sobre a suspeita de agir para tentar obstruir os avanços das investigações da Operação Lava Jato.  

Questionado se o foro privilegiado de Lula impediria investigações contra o ex-presidente, Janot garantiu que não. "Vou pegar o processo em Curitiba e transferir para o Supremo", disse. Janot também deixou claro que não se sentiu intimidado. "O MP tem couro grosso", insistiu.

Janot se recusou a falar se as escutas ao ex-presidente haviam sido legais. "Não comento". O procurador diz não saber se foi convidado para a posse. Mas questionado sobre o que achava de Lula ser nomeado ministro, apenas respondeu : "eu não acho nada".  

O procurador insiste que seu trabalho "não muda de jeito nenhum".  "O Supremo já deu mostras de que também tem uma atuação republicana. No julgamento da ação penal 470, quem pensava dessa maneira, deixou de pensar. E esse exemplo deve ser seguido para os demais", insistiu. 

Janot declarou que ser ministro "não blinda ninguém". Questionado se o foro privilegiado seria anulado, ele hesitou. "Tenho de avaliar. Preciso ver juridicamente o que há de concreto. Não descarto nenhuma medida", disse.

Mas o procurador declarou que Lula como ministro "não muda nada". "E ai ?", questionou. "Vou pegar os processos que estão em Curitiba, trazer para o Supremo e dar continuidade", garantiu. "Tal qual aconteceu em Curitiba. Sem diferença nenhuma", disse.   

Couro Grosso. Janot também deixou claro que não se sente pressionado, apesar das críticas de Lula. "O MP precisa ter couro grosso. O MP mexe com a liberdade das pessoas, com o patrimônio das pessoas e é normal que reajam. Mas o MP precisa agir com tranquilidade, tecnicamente, mas destemidamente", disse. "Não temos medo de nada", alertou. 

Em uma gravação telefônica, Lula criticou a "ingratidão" de Janot. "Essa é a gratidão. Essa é a gratidão dele por ele ser procurador", disse Lula ao advogado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas no dia 7 de março.  Lula insistia que Janot tinha recusado quatro pedidos de investigação de Aécio Neves. 

O procurador, na Suíça, contra-atacou. "Que gratidão é essa ?", criticou. "Os cargos públicos não são dados de presente. Eu sou muito grato a minha família", insistiu. "Fiz concurso. Estudei pra caramba. Tenho 32 anos de carreira", completou. Janot foi nomeado ao cargo por Dilma Rousseff, em 2013, e reconduzido em 2015.  "Se eu devo meu cargo a alguém, é a minha família. Republicanamente, fiz concurso", disse.

Janot, porém, pediu "calma" ao Brasil. "O MP vai continuar atuando, independentemente de que instância que seja e que o Brasil atravessa um problema e que temos de ter calma para enfrentar o problema. A pauta política não pode contaminar a pauta jurídica", disse. "E eu vou atuar dessa maneira. Tecnicamente, juridicamente e sem contaminação política de um lado ou de outro». Para Janot, o combate à corrupção vai continuar "firme e forte ".  

O procurador também respondeu ao ser questionado o motivo pelo qual o MP ter arquivado um inquérito sobre supostas contas de Aécio Neves em Liechtenstein. 

Mas garante que não vai usar o princípio do "balanço". "Não é por que mexi com uma pessoa que tenho de mexer com a outra. Se houver indício de algum crime, quem quer que seja, será investigado", disse. "Simples assim". 

Dilma. Se vai ou não abrir um inquérito contra a presidente Dilma Rousseff, ele não excluiu. Mas diz que vai primeiro examinar o material. "Temos que analisar o que temos, analisar o que está nas delações premiadas e ai, tecnicamente, vamos tomar uma decisão. Não há uma decisão de instaurar e nem de arquivar. Nós vivemos em uma república e ninguém está nem acima e nem abaixo da lei. Todos devem ser tratados republicanamente", insistiu.   

Janot insiste que sua decisão sobre um eventual inquérito contra Dilma será tomado com bases jurídicas. "O MP não age politicamente. Será algo técnico", disse.

Mais cedo, ele já havia feito seu alerta ao afirmar que "ninguém" é imune a investigações, ao ser questionado sobre a possibilidade de pedir a abertura de inquérito contra a presidente Dilma Rousseff. "Não podemos dizer o que vamos fazer. Mas o nosso trabalho é republicano. Não há pessoa fora de investigação", disse a dois repórteres brasileiros. 

O procurador já havia apontado nessa direção na quarta-feira em Paris diante do conteúdo da delação premiada do senador Delcídio Amaral. Agora, seus assessores indicam que a possibilidade foi reforçada essa com a divulgação dos telefonemas trocados por ela com o ex-presidente e futuro ministro, Luiz Inácio Lula da Silva.

Questionado se ser presidente impediria um inquérito, ele respondeu : "De jeito nenhum, de jeito nenhum".  Diante da insistência dos reporteres, ele disse : "não tem nada decidido". Mas voltou a comentar sobre a imunidade de Dilma. "Ninguém (está imune), ninguém". 

Janot passou parte da madrugada num dos restaurantes do hotel onde está hospedado na Suíça escutando aos trechos das gravações e as reações das ruas. A lado de dois assessores, apenas foi para o quarto perto da 1 da manhã. "Dormi pouco", admitiu essa manhã. 

Questionado se havia escutado às gravações das conversas de Lula, ele ironizou : "qual delas ?". "Eu nem consegui ler os jornais. É muita coisa", disse.

Procuradores da Lava Jato também pediram ao juiz federal Sérgio Moro que encaminhe o caso ao procurador-geral em Brasília e consideraram que existem indícios suficientes para um inquérito. 

 

 

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