André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Janot defende modernização de investigação contra 'elite do crime'

'O sistema de persecução criminal precisa reagir e assim deve fazer de modo equivalente aos danos sociais que se formaram na sociedade industrial desenvolvida', afirmou o procurador-geral

Beatriz Bulla, O Estado de S. Paulo

17 de agosto de 2015 | 15h43

Brasília - O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, defendeu nesta segunda-feira, 17, uma modernização dos métodos de investigação para alcançar o que chamou de uma criminalidade sofisticada, informatizada, internacional e relacionada a grupos com "elevado viés econômico e político". "A chamada elite do crime", disse, ao defender que métodos e rotinas antigos de investigação se mostram "esgotados". "O sistema de persecução criminal precisa reagir e assim deve fazer de modo equivalente aos danos sociais que se formaram na sociedade industrial desenvolvida", completou.

"Um sistema de investigação contemporâneo precisa preocupar-se com a utilização da propriedade que produz milionários sob determinadas circunstâncias. É necessário mudar o viés, primar por uma investigação que seja eficiente para neutralizar não só o solitário social, mas outrossim o criminoso do colarinho branco", disse o procurador-geral. Ele defendeu investimento em tecnologia para estruturar dados e a facilitação de coleta de informações, além da cooperação entre órgãos públicos para possibilitar a investigação dos crimes.

Em evento na Escola Superior do Ministério Público da União (ESPMU) para divulgar uma pesquisa sobre a investigação de crimes de corrupção e delitos econômicos, Janot afirmou que o inquérito policial é um procedimento que precisa ser revisto, diante da "escalada exponencial de uma criminalidade cada vez mais complexa, informatizada e da necessidade de persecução a sofisticados grupos com elevado viés econômico e político".

"Da mesma forma, nosso procedimento de investigação criminal deve ser remodelado. Hoje a maior parte dos crimes objeto da pesquisa (como corrupção), quando elucidados, dependem da cooperação de pessoas e corporações", afirmou o procurador-geral da República. "O esforço investigativo para desvelamento do crime na sociedade da informação é extremamente complexo."

Janot é responsável pela condução das investigações de políticos por suposta participação na Operação Lava Jato. Após pedir a abertura de inquéritos, em março, deve apresentar nas próximas semanas as primeiras denúncias contra políticos ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando pede a abertura de uma ação penal nos casos em que a investigação já está avançada.

Ele defendeu ainda a cooperação e o fim das disputas entre órgãos de investigações. Na Lava Jato, Polícia Federal e PGR tiveram divergências após a abertura dos inquéritos sobre a condução das investigações, o que paralisou por cerca de uma semana a tomada de depoimentos. "É necessário que deixemos de lado a cultura sectária e individualista, as disputas instrumentais e simbólicas e lutemos para que os diversos órgãos públicos dentro de suas especialidades investigatórias possam contribuir para efetiva neutralização do crime, em especial dos delitos que corroem os alicerces do próprio Estado", defendeu nesta tarde o procurador-geral.

Dez medidas. Janot aproveitou para pedir a procuradores nesta tarde apoio às dez medidas apresentadas pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a corrupção. A intenção é colher 1,5 milhão de assinaturas para encaminhar as propostas ao Congresso Nacional. Entre as propostas está a de tornar a corrupção um crime hediondo. "Peço a vocês que integrem esse movimento e, mais que isso, que repliquem nosso pedido", disse Janot, afirmando que as sugestões aos parlamentares devem servir para auxiliar na profissionalização da investigação de crimes de colarinho branco e corrupção. O coordenador da Força Tarefa da Operação Lava Jato no Paraná, Deltan Dallagnol, também tem feito propaganda da iniciativa do MPF. 

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