Alex Silva/Estadão e Carol Góes/Estadão
Alex Silva/Estadão e Carol Góes/Estadão

Janela partidária se tornou oportunidade contra a polarização?, leia análise

Movimentos de João Doria e Sérgio Moro podem apontar nesta direção

Carlos Pereira, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2022 | 14h17
Atualizado 31 de março de 2022 | 19h28

Mudanças radicais de rumo, na vida pessoal ou profissional, não acontecem a todo instante. Normalmente é preciso de choques exógenos ou mesmo de datas-limite (deadlines) para que inflexões profundas ocorram. Estas “janelas de oportunidade” funcionam como constrangimentos ou restrições externas que forçam as pessoas a parar de procrastinar e a tomar decisões que têm o potencial de mudar radicalmente suas trajetórias. 

No ambiente político-partidário brasileiro, constrangimento equivalente seria a janela partidária, período de 30 dias que antecede o prazo-limite de filiação, em que a fidelidade partidária é relaxada de modo a permitir a migração de partido sem risco de perda de mandato. 

Dia 2 de abril, sábado, é justamente o deadline para que os políticos decidam se continuam em seus partidos ou se migram para outra legenda. É também o prazo-limite para que políticos que exerçam cargos no Executivo se desincompatibilizem dessas posições para concorrer a algum cargo eletivo.

Será que esta janela partidária se traduzirá em uma janela de oportunidade para que a pletora de ofertas de pré-candidaturas alternativas aos polos antagônicos se aglutine em torno de apenas um candidato(a), preenchendo, assim, a demanda de 1/3 dos eleitores que não desejam nem a reeleição de Bolsonaro nem o retorno de Lula?

Dois fatos muito relevantes que ocorreram na política brasileira apontam nesta direção. 

O primeiro foi a decisão do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro de sair do Podemos e migrar para o União Brasil. Moro disse que, para facilitar as negociações das forças políticas do centro democrático em busca de uma candidatura presidencial única, ingressou no novo partido, e abriu mão, neste momento, da sua pré-candidatura presidencial.

O segundo foi a suposta desistência de João Doria de concorrer à Presidência. Pressionado pelo partido e aliados, entretanto, ele desistiu de desistir, renunciou ao mandato de governador e manteve a pré-candidatura à Presidência. Mas não está claro se vai até o fim. 

Diante dos riscos de cristalização da polarização em torno de Lula e Bolsonaro, que se retroalimentam, não resta outra opção para os partidos e candidatos que pretendem ser alternativa aos polos a não ser se coordenar em torno de uma única candidatura que tenha o potencial de furar essas bolhas polares. 

O deadline da janela partidária parece que está abrindo essa oportunidade. É preciso observar se esses movimentos vão, de fato, se confirmar e se os partidos e candidatos vão aproveitá-la. 

* PROFESSOR TITULAR FGV EBAPE E COLUNISTA DO ESTADÃO

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