Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

'Jamais cogito renunciar', afirma Dilma em entrevista

Presidente intensifica estratégia que busca afastar hipótese da renúncia e acusa seus adversários de repetirem ‘cultura do golpe’

Lisandra Paraguassu, Rafael Moraes Moura e Elizabeth Lopes, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2015 | 20h37

Brasília  e São Paulo - A presidente Dilma Rousseff intensificou nesta quarta-feira, 12, a estratégia de defender sua gestão como tentativa de esfriar o ímpeto dos protestos programados contra ela para o próximo domingo. A tônica do discurso da presidente é tentar mostrar firmeza diante das adversidades e acusar seus oponentes de “golpistas”.

Em solenidade com ares de palanque político, que reuniu milhares de pessoas no estádio Mané Garrincha, em Brasília, a presidente foi recebida com gritos de “Não vai ter golpe” e “Fora Cunha”, numa demonstração do apoio que o Planalto foi buscar nos movimentos sociais como antídoto às manifestações contra o governo programadas para domingo. Animada pelas mulheres da Marcha das Margaridas, Dilma citou o músico Lenine para garantir: “Eu envergo, mas não quebro”.

À noite, em entrevista ao SBT Brasil, do canal de TV SBT, ela afirmou: “Jamais cogito renunciar”. Ontem, a quatro dias das manifestações previstas em todo o País que terão como um dos motes o pedido de impeachment da presidente, Dilma argumentou que em uma democracia não se afasta um governante eleito “legitimamente pelo voto popular” por causa de divergências de posição política.

A presidente disse que há uma intolerância crescente no Brasil, não da sociedade, mas das elites. Ela afirmou que, apesar das críticas e do clima acirrado, não vê contra si uma movimentação de golpe, mas reconheceu o que chamou de uma “iniciativa incipiente”. “Vejo uma tentativa ainda bastante incipiente e muito artificial de criar um clima desse tipo”, destacou a petista.

Ela fez uma referência à frase de Calos Lacerda (1914-1977) sobre o ditador e presidente Getúlio Vargas (1882-1954): “O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Ao citar a postura de Lacerda contra Vargas, Dilma fez uma construção histórica para afirmar que, no passado recente, “sistematicamente houve tentativa de golpe contra todos os presidentes”, e concluiu: “A cultura do golpe existe ainda, mas não acho que tenha condições materiais de ocorrer”.

Sobre os protestos marcados para domingo, Dilma disse que é necessário “conviver com as diferenças”, mas que é preciso “evitar a intolerância, pois ela divide o País”. Com uma estratégia de se blindar contra a possível escalada de ataques, alertou que é preciso cuidado para evitar que os atos gerem violência.

Em outro momento da entrevista, a presidente ensaiou reconhecer eventuais erros na condução do País, mas recuou: “Não acho que não errei não, acho que sou completa, inteiramente humana. Posso ter cometido vários erros. Mas os erros não são esses que eles falam”. 

Música. No evento em Brasília, Dilma citou uma canção para ilustrar seu momento: “E em noite assim como esta/ Eu cantando numa festa/ Ergo o meu copo e celebro os bons momentos da vida/ E nos maus tempos da lida/ Eu envergo, mas não quebro”. Esse trecho faz parte da canção Envergo, mas não quebro, do cantor e compositor pernambucano Lenine.

Em seu discurso, feito após as manifestações de apoio nas falas de dirigentes da Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Dilma fez questão de lembrar o público – que ocupou a maior parte da arquibancada inferior do estádio Mané Garrincha com cartazes de apoio à petista e ao governo – que seu mandato só termina em 2018.

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