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Jair sempre será Jair

O cerco se fecha, o Congresso aperta e os palpiteiros querem que Bolsonaro deixe de ser Bolsonaro

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2021 | 03h00

Todo mundo sabia que a reunião de presidentes dos três poderes com governadores era só para tirar foto e reforçar o blablablá da “união nacional”, mas restava uma dúvida: seria uma demonstração de força do presidente Jair Bolsonaro, ou a confirmação de que Legislativo e Judiciário se articulam para cobrir o vácuo de poder – e de competência e bom senso – deixado por Bolsonaro?

A resposta veio rápido: Bolsonaro armou tudo para ser a estrela no palco, cercado por ministros e governadores amigos, mas os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, recusaram o papel de coadjuvantes de um presidente cada vez mais isolado. Horas depois, Lira usou o plenário da Câmara para dizer que “o remédio legislativo (para erros e incompetência) pode ser fatal”. Ou seja: lembrou que tem a caneta do impeachment.

Já o senador Pacheco desistiu de ser diplomático quando o nada diplomático assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, foi filmado, também no mesmo dia da reunião palaciana, fazendo um gesto obsceno durante sua fala na presidência do Senado. Pacheco sentiu na pele a beligerância, a grosseria e o descaso com a institucionalidade da turma que está no poder. E não gostou.

Bolsonaro está acossado por banqueiros, empresários, economistas, investidores, ambientalistas, educadores, médicos, enfermeiros, cientistas, estatísticos, juristas, o mundo da cultura e o ambiente internacional. O Congresso não vai afundar com ele, quando o Brasil atinge 300 mil mortos e as pessoas estão sem UTI, sob risco de falta de oxigênio e medicamentos.

O próprio presidente parece incapaz de entender a gravidade da situação e o quanto ele é responsável por ela, mas o “sinal amarelo”, como disse Arthur Lira, acendeu diante das pesquisas e das evidências de que ele não está agradando... nem mesmo a seus apoiadores. Assim, os filhos, ministros e assessores de Bolsonaro entraram em ação.

Eles, porém, tentam o impossível: que Jair Bolsonaro deixe de ser Jair Bolsonaro e assuma o personagem fake do pronunciamento de terça-feira: o defensor número um das vacinas, que negociou pessoalmente com a Pfizer, comprou a Coronavac, trabalhou incansavelmente no combate à pandemia. Tantas mentiras não resistem à tonelada de vídeos de Bolsonaro defendendo exatamente o oposto, agarrado à cloroquina. Foi ridículo, como os filhos anunciando que “vacina agora é a nossa arma”. Agora?

Sobra o plano B: arranjar bodes expiatórios, fritá-los e servi-los como canapés. Foi fácil triturar o incompetente general Eduardo Pazuello, que sai do Ministério da Saúde, entra na fila da Justiça Federal e dali vai para o ralo da história. Como é facílimo dar a cabeça do chanceler Ernesto Araújo, não aos leões, mas à sociedade brasileira.

Araújo é o homem errado e no lugar errado, mas no governo certo, como Pazuello, os quatro ministros da Educação, o do Meio Ambiente, os sei lá quantos secretários de Cultura, o presidente da Fundação Palmares, o próprio Filipe Martins na Assessoria Internacional.

O que se esperar de um chanceler que era embaixador júnior e foi sabatinado pelo deputado Eduardo Bolsonaro, que fritou muito hambúrguer nos States? Um chanceler que considerava Donald Trump o único Deus capaz de salvar o Ocidente do comunismo? Que bateu de frente com os EUA de Joe Biden? E com a China e a Índia, as maiores produtoras de remédios e vacinas do mundo?

O embaixador disse e fez tudo isso com o mesmo intuito do general Pazuello: agradar a Bolsonaro, aos filhos e aos bolsonaristas de internet – que ditam as decisões do presidente da República. Resta saber se o novo chanceler será do Centrão ou só ao gosto do Centrão. Mas Jair Bolsonaro nunca deixará de ser Jair Bolsonaro.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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