Jair Bolsonaro de capa vermelha

Radicalização do discurso do presidente, focado no público interno, causa problemas com outros países; perigo agora é reação de delegações estrangeiras ao pronunciamento na abertura da Assembleia-Geral da ONU

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 21h18

Caro leitor,

O personagem que o presidente Jair Bolsonaro criou para si mesmo na política brasileira - e que lhe deu a vitória em 2018 - cobra agora o seu preço. Aquele extremista de anedota, estereótipo que produz  comentários alicerçados em negacionismo científico, reacionarismo antediluviano e fake news, deixou de ser apenas uma figura bizarra e um pouco cômica. Agora, sua pregação ultrapassa fronteiras e ofende países amigos. O discurso beligerante (ainda que com recuos pontuais e contradições) ataca o  meio ambiente, minorias, direitos humanos - o que chama de “politicamente correto”. Mas não se engane, leitor: é tudo caso pensado. Diferentemente do que afirmavam analistas e eleitores esperançosos, Bolsonaro, estimulado por filhos e seguidores, manteve no mandato o script da campanha e ainda radicalizou no papel. Fez como o sujeito que, de tanto interpretar o Super-Homem, entusiasmou-se pela capa vermelha e pulou do prédio. Buscava o voo perfeito, que infelizmente não veio. Agora, porém, o tombo feio é do Brasil.

Para Bolsonaro, manter o personagem é essencial. É aquele jeitão de milico da reserva que nos atazana na fila de banco, com reclamações contra um vago “sistema” e suspiros pelos bons tempos da ditadura, que mantém fiel os 30% dos eleitores que o apoiam. Mas não é só isso - afinal, seu eleitorado não é totalmente formado por um terço de viúvas de um DOI-Codi que idealizam como benfazejo. Os motivos para o apoio apaixonado é mais profundo: mais que um presidente, os bolsonaristas elegeram um vingador. Esse super-herói é alguém cuja missão, para eles, é desagravar as ofensas que sofreram nos últimos 30 anos de democracia. Essas desfeitas vieram com a ascensão de direitos, controles, cotas, bolsas, multas.  São coisas que aos poucos “roubaram” dessas pessoas o Brasil que conheceram. 

O presidente tem feito esse desagravo desde a posse. Intensificou-o nas paradinhas que dá antes de sair para o expediente no Planalto, quando lança aos repórteres a polêmica do dia, como mostrou o BR Político - e ocupa o noticiário.

A estratégia embute riscos. Uma coisa é insultar a memória de um desaparecido político local, dizer que não há fome no Brasil, chamar governadores nordestinos de “paraíbas”, prometer indultar policiais condenados por massacres. São assuntos de repercussão local.  Nessas ocasiões, seguidores do presidente, reais ou falsos - robôs, ciborgues - trombeteiam apoio nas redes sociais - e que todo bom senso vá para o inferno. Mas o que fazer quando a Amazônia é atacada por madeireiros e incendiários, diante dos olhos de todo o mundo? Pior: a ação criminosa veio após semanas de ataques do presidente e seu governo ao Fundo Amazônia, ao Insituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ao Ibama, a reservas florestais. Foram atos e palavras que deram à fúria antiambiental contra a floresta - inclusive com um insólito “Dia do Fogo” convocado por incendiários e grileiros - o carimbo de política oficial. Pois não foi Bolsonaro que falou em indústria de multas ambientais e declarou ser o “Capitão Motosserra”?

JB - que já se chamou de Johnny Bravo, em alusão ao personagem polêmico e pouco inteligente dos anos 1990 - reagiu dobrando a aposta. Às críticas do presidente francês, Emmanuel Macron,  Bolsonaro - que tinha cancelado uma reunião com um ministro francês e fez uma live no mesmo horário cortando o cabelo - respondeu com uma ofensa à primeira-dama francesa. Também recorreu à surrada cartada nacionalista da soberania nacional sob ameaça. Estaria tudo bem, não fosse o anúncio entusiasmado do próprio presidente de aproximação com os EUA para que os norte-americanos venham explorar minérios nas reservas indígenas brasileiras. E que foi reforçado com o envio aos Estados Unidos, acompanhado do ministro (formal) das Relações Exteriores, do filhão Eduardo Bolsonaro, que o pai quer agraciar com o cargo de embaixador junto a Trump. A bravata patriótica, porém, serviu para reaproximar do governo os militares, em uma estranha manifestação de nacionalismo intermitente: acende-se diante da Europa, mas fenece frente à Casa Branca.

Bolsonaro, porém, não para. Depois de prometer em março, nos mesmos EUA, “desconstruir muita coisa no Brasil”, passou à ação na política externa. Após a fracassada tentativa de apoio à oposição na Venezuela (outra obra do Zero Três Eduardo), semeou tensões com  países árabes, com Cuba, Argentina, Colômbia, Canadá, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Alemanha, França.

O alvo mais recente foi a alta comissária da Organização das Nações Unidas para Direitos Humanos, a ex-presidente chilena  Michelle Bachelet. Depois de criticar as mortes causadas por policiais no Brasil, Bolsonaro a acusou de defender criminosos e exaltou o golpe chileno, que levou à morte sob tortura do pai da ex-mandatária. O ataque causou perplexidade e levou o presidente do Chile, Sebastián Piñera, que tem se empenhado em estreitar laços com os brasileiros, a se pronunciar. Ele assegurou que não compartilha da visão do presidente no assunto.

Como Bolsonaro não parece disposto a moderar o discurso, a preocupação agora é com um eventual protesto contra o Brasil durante o discurso do presidente brasileiro na abertura da Assembleia-Geral da ONU, em 24 de setembro. O Palácio do Planalto avalia informalmente que é real o perigo de representantes de países que têm sido insultados se retirarem durante a fala  do mandatário brasileiro. O incidente exporia o Brasil a inédito desgaste internacional, apontando para um possível isolamento. Preparem suas capas vermelhas.

Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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