Jaburu, o ninho político no meio da crise

Com Temer na Vice-Presidência, palácio foi transformado em clube de articulação de aliados

Christiane Samarco / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2011 | 17h33

A agenda política dos últimos dois meses revelou um novo endereço na rota do poder em Brasília: o Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República.

 

Desde que Michel Temer se mudou para lá, ao final de uma reforma para corrigir goteiras que se multiplicavam na estação das chuvas, o palácio, com ares de casa e jardins de Burle Marx, deixou de ser apenas ponto de passagem da Via Presidencial, rumo ao Alvorada.

 

Foi lá que Temer reuniu os senadores independentes do PMDB, no auge da crise vivida pelo ministro Antonio Palocci, para acertar o discurso partidário antes do almoço da bancada com a presidente Dilma Rousseff, na quarta-feira passada.

 

Também é no Jaburu que ministros e líderes do partido se reúnem semanalmente, fazendo com que o palácio retome uma rotina movimentada – só vista no tempo em que o vice Aureliano Chaves, às turras com o general-presidente João Baptista Figueiredo, se firmou como polo de poder, já nos capítulos finais do regime militar.

 

O Jaburu é um ninho politicamente tão confortável para os peemedebistas que, na semana passada, teve os seus jardins, entre a Lagoa do Jaburu e o Lago Paranoá, transformados em cenário para a gravação do horário eleitoral do partido. Por ali desfilaram os principais líderes do partido, caminhando sobre uma grama de corte impecável e fazendo prognósticos mirabolantes para o futuro do País.

 

O senador Eunício de Oliveira (PMDB-CE), por exemplo, não foi uma única vez ao Jaburu discutir questões de governo nos três anos em que comandou o Ministério das Comunicações, durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

"Agora, vou toda semana, às vezes duas ou três vezes", compara Eunício, ao lembrar que os peemedebistas mantiveram a rotina de conversas que tinham com Temer na residência oficial do presidente da Câmara. "Ele mudou de endereço, mas nós não mudamos de amigo", justifica.

 

Nada do que ocorre hoje no Jaburu produz resultados dignos de nota do Diário Oficial da União. Mas, na falta de uma caneta que lhe confira poder real, o vice amplia seu cacife político coordenando reuniões que ajudem a apagar os incêndios que surgem, cada vez com mais frequência, na base governista.

 

Os frequentadores do palácio dizem que ele é um vice diferente, graças à experiência acumulada na direção partidária e nos três mandatos à frente da Câmara. Procurado por uma legião de parlamentares, ele faz articulação política em meio a um Congresso insatisfeito com a falta de interlocução com o governo.

 

Mas é no Anexo 2 do Palácio do Planalto, e não no Jaburu, que Temer recebe uma romaria de parlamentares. O gabinete funciona, hoje, como um divã da base aliada, para onde são levadas as insatisfações dos vários partidos governistas. "É como se o vice fosse um terapeuta", brinca o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP). "A gente está nervoso, vem aqui e ele nos acalma."

 

O petebista reconhece que boa parte das vezes Temer nem resolve os problemas – até porque muitos dizem respeito ao preenchimento de cargos. "Mas tranquiliza."

 

Aos insatisfeitos do partido, que o procuram para falar de suas aflições, Temer costuma repetir que o PMDB não é da base governista. "Somos governo", corrige. "Temos o vice, já estamos no centro do poder e, aos poucos, vamos conseguindo mais espaço".

 

Nos últimos dias, no entanto, foi para o governo e para Palocci que o vice falou duro em resposta às cobranças por conta da derrota governista na votação do Código Florestal. "Não confundam meu papel. Não sou assessor parlamentar do Planalto para entregar votações bem sucedidas ao governo. Sou o vice da República."

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