Itamar queria fim da inflação, mas não sabia como, diz Ricupero

Ministro da Fazenda no lançamendo do real diz à BBC que ex-presidente, morto no sábado, planejava congelar preços

Paulo Cabral, BBC

04 de julho de 2011 | 17h03

O ex-presidente Itamar Franco (1992-1994), que morreu no último sábado, tinha certeza que queria o fim da inflação como principal marca de seu governo, embora não soubesse bem como fazer isto, disse à BBC Brasil o diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero.

Ricupero foi titular da Fazenda entre março e setembro de 1994, sob a Presidência de Itamar. Foi na gestão do ex-ministro, em julho de 1994, que o real começou a ser adotado como moeda no Brasil.

"A importância de Itamar Franco para a estabilização da economia foi decisiva porque, naquele momento de transição (após o impeachment de Fernando Collor), ele era o único que acreditava que seria possível dar um golpe definitivo na inflação", disse o ex-ministro.

O diplomata afirma, no entanto, que Itamar não "tinha uma ideia clara" de como fazer isso.

"Na cabeça dele, o (Plano) Real seria de novo um tipo de Plano Cruzado", diz Ricupero. "Inclusive, depois que o real foi introduzido, Itamar ainda queria um congelamento de preços."

Ricupero afirma que, em diversas entrevistas, Itamar Franco o descreveu como o "sacerdote" ou "apóstolo" do real.

"Claro que fico honrado com o reconhecimento, mas tenho a impressão de que ele fazia isso principalmente para retirar um pouco do crédito pelo Plano Real da equipe de Fernando Henrique Cardoso."

'Mágoa'

Fernando Henrique era ministro da Fazenda em fevereiro de 1994, quando fez o lançamento do Plano Real - com a instituição da Unidade Real de Valor (URV). Em março, deixou o governo para lançar sua candidatura à Presidência.

O embaixador diz que percebia uma clara "mágoa" em Itamar em relação a FHC - que se elegeu presidente depois da implantação do plano - por não receber mais crédito pela estabilização da economia.

"Por razões político-partidárias, resolveu-se dar a Fernando Henrique Cardoso todo o crédito e a paternidade pelo real, o que não é correto", diz Ricupero.

"É indiscutível a importância de Fernando Henrique, mas parece que existe em seus aliados uma impressão de que reconhecer os méritos de Itamar representaria alguma diminuição do valor de FHC."

Ricupero disse que, quando Itamar o convidou para substituir Fernando Henrique no Ministério, o presidente lhe "disse que queria alguém que pudesse conduzir a implantação do Plano Real com a equipe de Fernando Henrique Cardoso, mas que não fosse membro da equipe direta de FHC", disse Ricupero.

"Quando perguntei ao presidente por que ele não queria alguém muito próximo de FHC, ele me respondeu ao estilo mineiro, dizendo apenas que todas as possibilidades tinham sido estudadas e que eu seria a única solução. Tenho a impressão de que ele queria alguém que fosse identificado como pessoa dele e não do FHC."

O diplomata afirma ter sido a primeira pessoa convidada por Itamar Franco, logo que este assumiu a Presidência, para ocupar a pasta da Fazenda.

"Eu era embaixador em Washington, e curiosamente foi o Fernando Henrique, na época já escolhido para a pasta das Relações Exteriores, que me ligou para transmitir o convite do presidente Itamar Franco para assumir a pasta da Fazenda", diz Ricupero.

"Eu argumentei que estava afastado havia muito tempo do Brasil e não me sentia pronto a assumir o Ministério. Anos depois, acabei assumindo."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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