Beto Barata/Estadão - 09.06.2011
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Itália pede que governo brasileiro 'não crie obstáculos' para deportação de Battisti

Autoridades do país comemoraram decisão da Justiça Federal; associação de vítimas e polícia veem tentativa de influenciar no caso de Pizzolato

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2015 | 14h02

Atualizado às 18h39

GENEBRA - O governo, vítimas do terrorismo e a polícia da Itália comemoram a decisão da Justiça brasileira de pedir pela deportação de Cesare Battisti e agora esperam que o governo federal "não crie obstáculos" para que a sentença seja cumprida. As famílias das vítimas já indicaram também que vão solicitar uma reabertura do pedido de extradição para garantir que o italiano não seja de enviá-lo a um terceiro país. 

Ao Estado, associações italianas e o alto escalão da polícia também afirmou que a decisão foi recebida em Roma como um esforço do Brasil em fazer um gesto para convencer o governo de Mateo Renzi a aceitar a extradição de Henrique Pizzolato ao País. 

Oficialmente, nem o gabinete de Renzi e nem o Ministério da Justiça da Itália comentaram a decisão brasileira. Mas, na alta cúpula do governo, a decisão foi recebida "com muita satisfação". "Sempre houve uma grande surpresa na Itália em relação à decisão do Brasil de não extraditar Battisti. Agora, acho que as coisas começam a entrar em seu lugar", declarou um alto membro do governo de Renzi, na condição de anonimato. 

A decisão também foi comemorada por todos os partidos no Parlamento. O deputado do Partido Democrático, Paolo Bolognesi aplaudiu a decisão. "É importante que o Brasil não seja um país-escudo para que terroristas fiquem na impunidade", disse. "Há anos as famílias das vítimas esperam por Justiça", declarou o parlamentar Riccardo De Corato. 

"Esperamos que agora Battisti cumpra sua pena", declarou o vice-presidente do Senado, Maurizio Gasparri, do partido Forza Italia. "Vencemos uma importante batalha", comemorou Daniela Santanché, também do partido Forza Italia.

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Para a deputada Elvira Savino, o governo italiano deve "fazer o que estiver a seu alcance para evitar que Battisti volte a fugir". "A extradição é um ato de justiça a todas as vítimas do terrorismo", declarou o líder dos Moderados, Giacomo Portas. "Mais cedo ou mais tarde, a extradição ocorrerá".

Todos os principais jornais italianos repercutiram a informação veiculada pelo Estadão em suas manchetes, citando a reportagem do jornal brasileiro. Para o Reppublica, a decisão "surpreendeu" até mesmo as vítimas do terrorismo na Itália. "O ex-terrorista Battisti será expulso do Brasil, anuncia o site do jornal "Estadao"", apontava o La Stampa, 

No Corriere della Sera, o ex-ministro do Interior, Roberto Maroni, anunciou que estava lançando um hashtag #èlavolta buona. "É uma ótima notícia", declarou. 

Pizzolato. Mas nos corredores em Roma, a decisão também foi tomada com um tom de ironia pela alta cúpula do governo. "Antes, nossa Justiça na Itália não era confiável. Agora que o Brasil quer Pizzolato, a avaliação é outra", declarou o alto funcionário do governo. 

Henrique Pizzolato foi condenado a doze anos e sets meses de prisão no Brasil por conta do caso do Mensalão. O ex-diretor do Banco do Brasil fugiu para a Itália e, depois de um processo que durou um ano e meio, a Corte de Cassação de Roma optou por sua extradição ao Brasil. 

Uma decisão final, porém, cabe ao governo de Renzi e deve ser tomada em abril. Por enquanto, o Ministério da Justiça da Itália sequer recebeu a ordem de extradição do Judiciário. 

Mas uma reviravolta no caso de Battisti terá um impacto, segundo membros do governo, policiais e associações ouvidas pelo Estado. Um dos advogados de Pizzolato, na condição de anonimato, confirmou que seu cliente "não apreciaria" essa mudança no caso de Battisti.  Em fevereiro, a própria defesa de Pizzolato usou o argumento de que o Brasil não extraditou Battisti como forma de tentar convencer os juízes de que a Itália não poderia colaborar com o Brasil se Brasília sequer havia atendido a esse pedido.  

Entre a polícia italiana, a percepção era já em fevereiro de que a decisão da Corte italiana sobre Pizzolato poderia abrir caminho para uma nova postura por parte do Brasil no caso Battisti. "Estamos muito satisfeitos", declarou Francesco Falica, chefe da Direção Central da Polícia Criminal italiana e vice-representante da Interpol no país. "Essa nova postura do Brasil era de fato a nossa esperança", disse. 

Vítimas. Ao Estado, Associação Italiana de Vítimas do Terrorismo também comemorou e indicou que vai reabrir o processo de extradição. "Expressamos nossa satisfação diante desse julgamento", disse Luca Guglielminetti, diretor internacional da entidade. "Agora, esperamos verdadeiramente que o governo brasileiro não crie um obstáculo à decisão da Justiça e esperamos que Battisti possa ser expulso para a Itália para encarar a Justiça por seus crimes", declarou, deixando claro que espera que Battisti não seja enviado a um terceiro país. 

Guglielminetti também defendeu que a entrega de Pizzolato fosse condicionada a uma "troca" com Battisti. "Um ato de reciprocidade na extradição deve ser absolutamente necessário", declarou "O caso Battisti ainda não está encerrado. Não apenas para as vítimas do terrorismo na Itália, mas para toda a opinião pública italiana", disse o diretor. 

Para Alberto Torregiani, filho de uma das vítimas de Battisti, Pierluigi Torregiani, a notícia o pegou de surpresa. Mas indicou que voltará a montar o processo por sua extradição imediatamente. "Precisamos entender qual foi a motivaçäo para ele ser expulso", disse. "Essa pode ser a ocasião de reabrir o caso sobre a extradição", completou. 

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