Itália pede extradição de acusados da Operação Condor

O governo italiano pediu a extradição de mais de 100 ex-líderes sul-americanos e seus subordinados acusados pelo desaparecimento, tortura e morte de italianos na repressão a opositores políticos durante os anos de 1970 e 1980, informou hoje o promotor Giancarlo Capaldo. As autoridades fizeram o pedido para 139 pessoas envolvidas nas ditaduras militares do Chile, Uruguai, Argentina, Brasil, Bolívia e Paraguai, e suspeitas de rapto e assassinato de 25 italianos. Os suspeitos incluem o ex-líder da junta argentina Jorge Videla e o ex-ditador uruguaio Juan Bordaberry. Capaldo disse que espera resposta aos pedidos de extradição nos próximos meses.   Uma lista oficiosa indica quem são os 13 brasileiros. Entre eles,  estariam oito mortos e quatro, que moravam no Rio Grande do Sul, vivos: João Oswaldo Leivas Job, ex-secretário de Segurança; Átila Rohrsetzer, ex-diretor da Divisão Central de Informações; Carlos Alberto Ponzi, coronel da reserva; e Marco Aurélio da Silva Reis, ex-chefe do Dops gaúcho. Há ainda o general Luiz Henrique, ex-chefe do Estado-Maior do 3º Exército, que não se sabe se está vivo.Segundo o promotor, os procedimentos do julgamento continuarão mesmo que os acusados não sejam extraditados, já que a lei italiana permite que suspeitos sejam julgados "in absentia". "As famílias das vítimas vieram até nós porque nos seus países não houve nenhum julgamento desses fatos", disse Capaldo. "Mesmo depois de tantos anos, é preciso que a justiça seja feita". Outros países europeus tentaram julgar os suspeitos de envolvimento na chamada Guerra Suja, sem sucesso ou resultando em condenações "in absentia".Todos os nomeados no inquérito de Capaldo estão sendo investigados por rapto, e várias das acusações envolvem mortes. Se julgados na Itália, poderiam ser condenados à prisão perpétua."Espero que haja uma colaboração possibilitando que a opinião pública mundial saiba o que aconteceu naqueles anos", disse Capaldo, acrescentando que já manteve contato informal com magistrados da América do Sul e de outros países europeus que tentaram processar os suspeitos. Capaldo começou as investigações em 1998, após receber queixas de famílias das vítimas e conseguir acusar não apenas os diretamente responsáveis pelos crimes, mas também os líderes e funcionários que orquestraram a perseguição política. Sob o plano conhecido como Operação Condor, os governos autoritários que dominaram a América do Sul cooperaram para reprimir, prender e deportar opositores políticos. Freqüentemente, a deportação significou a morte dos presos, que eram assassinados quando chegavam aos países de origem.As vítimas italianas listadas no caso incluem Juan Montiglio, um ex-guarda do presidente chileno Salvador Allende, que foi preso, torturado e morto durante o golpe de Estado de Augusto Pinochet, em 1973. Também estão sendo investigadas a morte de um ex-padre no Chile e o desaparecimento de um guerrilheiro ítalo-argentino capturado em 1980 no aeroporto do Rio de Janeiro.Até agora, o inquérito só resultou em uma prisão, a de Nestor Jorge Fernandez Troccoli, de 60 anos, um ex-oficial da Marinha uruguaia que recentemente se tornou cidadão italiano e foi preso no mês passado perto da cidade de Salerno, no Sul da Itália. Ele é acusado pelo desaparecimento de seis italianos no Uruguai. O advogado de Troccoli diz que seu cliente reconhece ter conduzido interrogatórios durante o regime de Bordaberry, mas não participou de rapto, torturas ou assassinatos. Vários dos suspeitos também enfrentam acusações nos seus países por crimes contra os direitos humanos, entre eles Videla e Bordaberry.

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