Itália cobra informações sobre desaparecido no Araguaia

O governo brasileiro coleta pela primeira vez amostras de sangue no exterior para ajudar a identificação de corpos de pessoas desaparecidas durante o regime militar.Na quarta-feira, 14, o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, foi até a Calábria, na Itália, para coletar sangue e pedaços de unhas de Elena Castiglia, mãe de um ex-guerrilheiro do Araguaia, que servirão para testes de DNA e para facilitar a identificação das vítimas.A família pressionava o governo italiano havia mais de dez anos para intervir no caso. É a primeira vez que um governo europeu cobra ações de Brasília em relação a um de seus cidadãos mortos durante a ditadura.O guerrilheiro era Libero Giancarlo Castiglia, que apesar de lutar no Brasil e viver no País desde os 11 anos de idade, manteve cidadania italiana. Passou mais de cinco anos na região do vale do rio Araguaia, onde teria sido morto no Natal de 1973.Sua família emigrou para o Brasil em 1955. Joca, como passou a ser conhecido no País, virou torneiro mecânico e integrou o PCdoB, onde passou a ter relações estreitas com as lideranças do partido. Após sua morte, sua mãe retornou à Itália. Mas a família nunca desistiu de saber o que tinha ocorrido com um de seus membros. "Nos anos 90, quando foi divulgada a lista dos 68 guerrilheiros mortos no Araguaia, começamos os trabalhos para tentar descobrir onde estavam enterrados", afirmou um membro da família.PressãoDepois de muita insistência, a família conseguiu que o governo italiano aceitasse pressionar o Brasil por respostas em relação ao cidadão italiano. Roma, então, pediu a intervenção do governo brasileiro no caso.O primeiro resultado dessa pressão foi o envio de uma missão brasileira até a cidade de San Lúcido, de apenas 6 mil habitantes. O objetivo era coletar material de Elena para testes de DNA no Brasil com os restos mortais encontrados até agora no Araguaia.O governo conta que estabeleceu contrato com uma empresa para criar um banco de DNA apto a permitir que ossadas encontradas no futuro, mesmo em 50 anos, possam ser testadas e identificadas. "O que estamos fazendo é garantir que os trabalhos possam continuar, mesmo quando esses parentes de desaparecidos morrerem", disse Vanucchi. "Esse é um primeiro passo na nossa esperança de saber a verdade sobre o que ocorreu com essas pessoas. Queremos saber exatamente o que ocorreu e quem o matou. Vamos continuar pedindo para que governo italiano pressione o Brasil. O governo brasileiro tem uma dívida", afirmou Lara Perrota, de 29 anos e sobrinha de Joca. Segundo ela, o desejo da família é de que os restos mortais sejam identificados e devolvidos à Itália. "Minha avó quer ter onde colocar flores a seu filho e com dignidade", disse.

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