Itália chama embaixador de volta

Gesto complica relação entre os dois países por conta da concessão de refúgio ao extremista Cesare Battisti

Roma, O Estadao de S.Paulo

28 de janeiro de 2009 | 00h00

A Itália intensificou ontem seus protestos contra a concessão do refúgio político para o extremista Cesare Battisti no Brasil ao convocar seu embaixador em Brasília de volta a Roma - no ritual da diplomacia, o gesto evidencia a insatisfação com a conduta de autoridades brasileiras e a deterioração das relações entre os dois países.O subsecretário de Relações Exteriores da Itália, Alfredo Mantica, se declarou tão "indignado" com o Brasil que chegou a sugerir o cancelamento da partida amistosa entre as seleções brasileira e italiana, no dia 10 de fevereiro, em Londres. Depois, recuou. Mantica também insinuou que a Itália, que atualmente preside o G8, vai dificultar a aproximação do Brasil com a organização que reúne as maiores economias do mundo.A iniciativa de convocar o embaixador Michele Valensise foi tomada após o procurador-geral da República no Brasil, Antonio Fernando de Souza, recomendar ao Supremo Tribunal Federal a extinção do processo de extradição de Battisti. O extremista de 54 anos, preso no Rio de Janeiro em 2007, foi condenado na Itália a prisão perpétua por quatro homicídios quando militava na organização Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), nos anos 70. Ele nega ter cometido os crimes.Para Antonio Fernando, que anteriormente havia se manifestado a favor da extradição, o processo perdeu o sentido com a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de dar a Battisti o status de refugiado político. Tarso considerou que o italiano é alvo de perseguição por sua atuação política e que não teve direito à ampla defesa - o ativista, condenado à revelia, acusou seu advogado na Itália de falsificar uma procuração para representá-lo.Em nota, o governo italiano qualificou como "grave" a decisão do procurador-geral e ressaltou que a convocação do embaixador foi feita após consulta ao primeiro-ministro Silvio Berlusconi.O ministro da Defesa italiano, Ignazio La Russa, disse à agência de notícias Ansa que não aceitará a decisão do governo brasileiro e que seu país deve "tentar todos os caminhos possíveis e imagináveis" para conseguir a extradição. "Neste momento, meu pensamento vai para as famílias das pessoas assassinadas por Cesare Battisti, um terrorista que foi condenado a prisão perpétua por crimes enormes e que, apesar de ter sido entregue à Justiça, conseguiu obter do Brasil uma inacreditável concessão de refúgio político", criticou.Não são apenas integrantes do governo Berlusconi que atacam a decisão brasileira. Walter Veltroni, ex-prefeito de Roma e líder do Partido Democrata (PD), principal força de oposição na Itália, disse que seu partido vai propor uma moção de protesto contra a concessão do refúgio. Para Veltroni, Berlusconi precisa pedir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva "respeito aos direitos das vítimas".Também do Partido Democrata, o ex-primeiro-ministro Massimo D''Alema disse que o Brasil cometeu "um erro grave", mas defendeu a "retomada do diálogo político para buscar soluções". JAMIL CHADE COM AGÊNCIAS INTERNACIONAISwww.estadao.com.br Para 11.880 leitores, o governo brasileiro não deveria ter concedido refúgio político ao italiano Cesare Battisti76% NÃO24% SIM

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