ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO
ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO

Isolado, Doria troca Bruno Araújo por aliado paulista em coordenação de pré-campanha

Marco Vinholi, um dos mais próximos aliados do ex-governador, assume o posto no lugar do presidente nacional do PSDB; Araújo ironiza substituição e se mostra aliviado

Davi Medeiros, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2022 | 12h26
Atualizado 15 de abril de 2022 | 15h41

O presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, não é mais o coordenador da pré-campanha de João Doria para a Presidência da República. Após dar declarações contrárias à pré-candidatura do ex-governador paulista, ele foi substituído por Marco Vinholi, que é o dirigente do partido em São Paulo. Pelas redes sociais, Araújo, que nunca exerceu de fato um papel de liderança no projeto de Doria, ironizou a troca e se mostrou aliviado: "Ufa", disse. 

Segundo a equipe de Doria, a decisão foi motivada por manifestações de Araújo que “relativizavam” o papel do tucano paulista na disputa presidencial, postura considerada pelo ex-governador como “pouco agregadora”. 

Em evento recente do partido, por exemplo, Araújo afirmou que a aliança entre as legendas que articulam uma candidatura única da chamada “terceira via” é preponderante, ou seja, vale mais do que o resultado das prévias tucanas, das quais Doria saiu vitorioso no ano passado. PSDB, MDB e União Brasil prometem anunciar um acordo no dia 18 de maio.

"Estou deixando claro que o PSDB está contido no acordo de uma aliança nacional. João Doria é o candidato do PSDB e está contido neste acordo, mas não seremos candidatos de nós mesmos. O PSDB não vai às ruas este ano com um candidato de si próprio", disse Araújo.

A candidatura do ex-governador enfrenta resistência dentro da sigla apesar de a maioria dos filiados tê-lo escolhido como pré-candidato. Até mesmo o segundo colocado no processo de escolha interna, o também ex-governador Eduardo Leite (RS), não ratifica a decisão obtida com as prévias e ainda se declara como opção no partido. "Estou na pista", afirmou, durante painel na Brazil Conference no último dia 10.

Há movimentações dentro e fora do PSDB para que Leite participe de um chapa presidencial, possivelmente como vice da senadora Simone Tebet (MDB), que é vista atualmente como o nome com mais condições para unir os partidos que dizem compor o centro democrático. Em entrevista à Rádio Eldorado, Leite sinalizou que aceitaria assumir essa posição por considerar que a parlamentar tem todas as condições de liderar a terceira via.

Nas conversas entre a cúpula dos três partidos há consenso que o nome de Doria hoje está fragilizado e isolado dentro do próprio PSDB, que não está disposto a abrir o cofre para bancar a campanha presidencial do ex-governador. O resultado obtido até aqui por ele nas pesquisas também não ajuda. Segundo o último levantamento do Ipespe, o tucano paulista soma 3% das intenções de voto. E o pior: 57% dos entrevistados disseram que não votariam no tucano de jeito nenhum, rejeição que só não é superior ao do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Estratégia

Em movimento para fortalecer sua posição, o paulista ensaiou uma “desistência” da disputa no fim do mês passado, o que acentuou a crise interna do PSDB e fez com que Araújo lançasse uma carta confirmando-o como pré-candidato. Um dia depois, porém, o próprio Araújo disse que “os fatos valem mais que cartas”, minimizando a simbologia do documento. 

O blefe de Doria se deu em 31 de março, data em que renunciou ao governo paulista com a intenção de disputar a corrida presidencial. Como estratégia para forçar Araújo a apoiá-lo publicamente, o então governador espalhou que abriria mão da chance de se tornar presidenciável por falta de apoio, o que impediria que Rodrigo Garcia (PSDB), então seu vice, assumisse o cargo, prejudicando os planos eleitorais do partido no Estado. Na carta divulgada horas depois, Araújo afirmou que as prévias seriam respeitadas e que Doria teria legenda para ser candidato.

Como a garantia não se confirmou, grupos pró-Doria vinham organizando movimento nas redes sociais contra o presidente nacional do PSDB, com a hashtag "fora Bruno Araújo". Nesta sexta-feira, 15, o dirigente do PSDB reagiu à substituição dizendo que "nunca fez questão" de exercer o comando da campanha.

Ao compartilhar nas redes sociais uma notícia sobre o assunto, escreveu: "Ufa! Comando que nunca fiz questão de exercer. Aliás, ele sabe as circunstâncias em que e o porque 'aceitei' à época. Aliás, objetivo cumprido".

Segundo aliados de Araújo, a justificativa para ter aceitado assumir a coordenação da pré-campanha foi um pedido pessoal de Garcia feito no ano passado.  O temor de Garcia era que Doria decidisse se manter no cargo de governador, como ameaçou fazer, o que impediria que seu vice assumisse o posto e se candidatasse à reeleição em outubro.

Vinholi é um dos principais aliados de Doria desde sua primeira eleição, para prefeito da capital, em 2016. Pelas redes sociais, o presidente do PSDB paulista exaltou o nome do ex-governador como pré-candidato ao Planalto.

Atual coordenador do plano de governo de Doria, o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (PSDB) atribui a rejeição do ex-governador a seu enfrentamento ao governo Bolsonaro e diz que os demais nomes da terceira via, se seguirem na disputa, também enfrentarão rejeição alta.

"Todos os políticos que se colocam no centro terão uma rejeição alta. Se você projetar a rejeição do Eduardo Leite e da Simone Tebet sobre o que eles têm hoje de imagem positiva e negativa, e o alto desconhecimento, eles chegarão a uma rejeição parecida a do governador Doria. Ele fez o enfrentamento a máquina bolsonarista, o que gera uma rejeição grande. Eles operam unidos. Não é à toa que o Tarcísio cresce rapidamente", disse em entrevista recente ao Estadão./COLABOROU PEDRO VENCESLAU 

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