Irritado com vice, Itamar anuncia reforma administrativa

O vice-governador de Minas, Newton Cardoso (PMDB), reiterou, nesta quarta-feira, que não abre mão de sua candidatura ao governo do Estado em favor de Itamar Franco, caso o governador veja frustrados seus planos de concorrer ao Palácio do Planalto e decida tentar a reeleição.Newton falou a uma emissora de tv, pela manhã, e, no início da tarde, Itamar reagiu, anunciando, por meio de nota, uma reforma nas administrações direta e indireta em janeiro, possivelmente mexendo em cargos ocupados por aliados do vice-governador - sobretudo nos setores de Obras e Transportes, na Companhia Energética do Estado e em fundações e autarquias.No programa de entrevistas, Newton deixou claro que o que está valendo entre ele e Itamar é um acordo firmado entre ambos ainda em 1998, quando formaram a dobradinha do PMDB para a disputa estadual.Por ter cedido a cabeça-de-chapa a Itamar, na ocasião, o vice propôs que, em 2002, seria candidato ao Palácio da Liberdade, e Itamar, ao Palácio do Planalto. O governador concordou. "Nós vamos lutar muito para que ele (Itamar) chegue a Brasília", afirmou Newton, referindo-se às articulações para que o governador dispute e vença as prévias peemedebistas, em março, e saia candidato do partido à presidência."Estamos certos de que a candidatura dele vai vingar. Se não vingar, ele terá outras opções, menos esta da reeleição", completou.O vice foi questionado sobre as chances de Itamar não conseguir viabilizar sua eventual volta ao Planalto e disputar a convenção estadual do PMDB com ele, para indicação do candidato ao Palácio da Liberdade.Embora considere a possibilidade remota, disse que estaria disposto a brigar com o governador pelos votos dos convencionais. "Claro que estou, se ele optar por isso (a disputa na convenção), o que eu não creio, porque Itamar é um homem de palavra, sério, honrado, e não faria isso", explicou.O governador aparentemente não gostou do tom do vice e soltou uma nota como resposta, em tom de ameaça. "Em função do ano eleitoral", ele anunciou "a reforma do secretariado e, inclusive, dos cargos da administração indireta no mês de janeiro".Itamar certamente se referia a posições-chave ocupadas por aliados de Newton, que, desde o início do governo, controla as Secretarias de Obras Públicas e Transportes e tem apadrinhados na Cemig e em outros órgãos da administração indireta - como o Serviço de Assistência Social do Estado (Servas), presidido por sua mulher, a deputada federal Maria Lúcia Cardoso, recentemente acusada de favorecer parentes com verbas da instituição.Apesar da aparente irritação do governador, nos bastidores da política mineira a interpretação é de que tanto ele quanto Newton estão fazendo jogo de cena e continuam aliados.Ambos estariam interessados, na verdade, em não enfraquecer suas candidaturas - ao Planalto e ao Palácio da Liberdade - e também, no caso de Itamar, em não eliminar uma importante opção para o caso de perder as prévias do PMDB, que seria candidatar-se à reeleição.O próprio Newton já teria aceitado esta hipótese, no caso de fracasso de Itamar nas prévias do PMDB, e concorreria ao Senado, se o governador fosse o candidato à reeleição."Os dois estão com a mesma estratégia, diante das perguntas constantemente colocadas pela imprensa", explicou o deputado federal Hélio Costa (PMDB-MG). "Se o Newton diz que abre mão, enfraquece sua candidatura, e se Itamar diz que é candidato a outra coisa que não à presidência ou nega que considera a reeleição, também tem prejuízos", acrescentou.Já o vice-presidente do PMDB mineiro e diretor da Cemig, Aloísio Vasconcelos, aliado de Newton, garantiu que não há nenhuma rusga entre Itamar e o vice.Para Vasconcelos, decisões tomadas nesta quarta-feira de manhã em reunião entre a cúpula nacional do PMDB e defensores de candidatura própria do partido à presidência, tornando as regras das prévias de março mais claras e anulando a tese de divulgação do nome do vencedor somente após o prazo de desincompatibilização, em abril - favoreceram o governador e o vice.Também teriam posto fim a qualquer especulação de que os dois estariam prestes a se desentender. "O governador tem agora o caminho pavimentado para ser o candidato do PMDB à Presidência", disse Vasconcelos, um dos principais defensores da candidatura de Newton ao governo estadual.

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