André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Irmãos de ministro são alvo de operação da PF

Polícia Federal liga Odair e Milton Geller, irmãos do titular da Agricultura, a fraudes em terras da União destinadas à reforma agrária

Fabio Fabrini, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 11h16

Atualizado às 22h32

BRASÍLIA - A Polícia Federal fez nesta quinta-feira, 27, operação em Mato Grosso para coibir fraudes contra a concessão de terras da União para a reforma agrária. Os agentes buscaram cumprir mandados de prisão preventiva contra 52 suspeitos de integrar o esquema, entre eles dois irmãos do ministro da Agricultura, Neri Geller (PMDB). 

Proprietários de terras no Estado, Odair e Milton Geller não foram encontrados pela PF. A defesa dos dois, no entanto, informou que eles se entregariam ainda nesta quinta, em Cuiabá - o que não ocorreu até esta edição ser concluída. Os nomes de ambos seriam incluídos no Sistema Nacional de Procurados e Impedidos. 

Produtor de soja e apadrinhado do senador Blairo Maggi (PMDB-MT), o ministro da Agricultura lamentou, por meio de sua assessoria, a presença de familiares entre os investigados. Em nota, Neri Geller afirmou não ter “associação jurídica ou outro tipo de sociedade com os irmãos”. 


A PF sustenta que 80 fazendeiros e empresários participavam no esquema de reconcentração fundiária. Segundo as investigações, eles recompravam ou invadiam terras destinadas para a reforma agrária, não raro ameaçando os assentados, na região de Itanhangá, cidade que se desenvolveu a partir de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Os envolvidos escalavam “laranjas” para ocupar as áreas de cerca de 100 hectares, avaliadas, em média, em R$ 1 milhão. Em seguida, corrompiam servidores públicos para regularizá-las. Terras destinadas à reforma agrária têm restrições e seguem normas diferentes em relação a outras propriedades rurais.

Prejuízo. A PF estima o prejuízo aos cofres públicos em R$ 1 bilhão. Cerca de mil lotes teriam sido adquiridos. Somente um dos fazendeiros beneficiados teria conseguido ocupar ilegalmente 55 áreas. O proprietário que menos terras adquiriu no esquema conseguiu cinco lotes.

O esquema, investigado desde 2010, era bastante lucrativo, pois envolvia a aquisição irregular de terras planas, que se tornam bastante produtivas após a mecanização. O superintendente da PF em Mato Grosso, Marcos Antônio Farias, disse que uma das formas de afastar os ocupantes legítimos de seus terrenos era ameaçá-los. 

Nas cidades de Lucas do Rio Verde e Nova Mutum, os policiais apreenderam documentos nas casas de Odair e Milton, que é ex-prefeito de Tapurah. Até esta edição ser concluída, 35 pessoas haviam sido presas, entre elas três vereadores e quatro servidores do Incra.

Os quatro são acusados de fazer vistorias fictícias para legalizar os terrenos comprados ou invadidos por fazendeiros. Outros nove envolvidos, embora não fossem alvo de mandados de prisão, acabaram presos em flagrante por porte ou posse irregular de arma. 

Conforme a PF, para manter o comércio ilegal de terras, a organização teria usado documentos falsos, fraudado termos de desistência e inserido dados falsos no sistema de informações de Projetos de Reforma Agrária do Incra. “Com ações ardilosas, uso da força física e até de armas, compravam a baixo preço ou invadiam e esbulhavam a posse destas áreas. Em seguida, com o auxílio de servidores corrompidos do Incra, integrantes de entidades de classe, servidores de câmaras de vereadores e de prefeituras municipais buscavam regularizar a situação do lote”, diz a PF em nota sobre a operação.

Custódia. Os presos foram levados para Cuiabá, onde ficariam sob custódia em unidades prisionais do Estado. Eles vão responder por crimes de invasão de terras da União, contra o meio ambiente, falsidade documental, estelionato e corrupção ativa e passiva. As penas podem chegar a até 12 anos de reclusão, segundo a PF.

Na operação, batizada de Terra Prometida, houve ainda o cumprimento de 146 mandados de busca e apreensão. Embora concentrada em Mato Grosso, a PF também fez ações no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, todos na Região Sul.

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