Irmão de Sarney foi alvo de grampo na Operação Navalha da PF

Ernane Sarney caiu em grampo suspeito cobrando dinheiro do diretor financeiro da construtora

Rosa Costa e Rodrigo Rangel, de O Estado de S. Paulo,

19 de junho de 2009 | 09h14

Mais novo nome da lista de parentes do senador José Sarney (PMDB-AP) que receberam salário do Senado, Shirley Araújo e o marido dela, Ernane Sarney, irmão do presidente do Senado, são personagens de inquérito da Polícia Federal. Eles caíram na malha da Operação Navalha, que investigou esquema de corrupção da construtora Gautama para distribuir propina a políticos em troca de contratos de obras públicas.

 

som AÚDIO: Grampo com irmão de Sarney

 

Shirley apareceu como destinatária de depósitos bancários feitos pela Gautama em valores picados para driblar a fiscalização do Coaf, o órgão do Ministério da Fazenda encarregado de monitorar movimentações financeiras suspeitas. Ernane Sarney, por sua vez, caiu em grampo com o diretor financeiro da construtora, Gil Jacó Santos, de maneira suspeita - cobrando dinheiro. A conversa se deu em 25 de abril de 2007.

 

Em pouco mais de dois minutos, Ernane Sarney se mostra irritado. "Eu tô com a corda no pescoço e o pessoal também tá com a corda no pescoço aqui, rapaz", diz ele, sem deixar claro qual é o "pessoal". O diretor da Gautama tenta acalmá-lo. "A gente tá pra receber um recurso que tá pra entrar de Alagoas aqui...", afirma Gil Jacó, um dos 46 presos da Navalha, deflagrada em maio de 2007, um mês após a conversa.

 

O Estado tentou falar com Ernane e Shirley. No telefone da casa dele, ninguém atendia. A reportagem ainda deixou recados, mas até o fechamento da edição ele não retornou.

 

Leia a íntegra do diálogo abaixo:

 

Gil - Alô.

Ernane Sarney - Alô, Gil.

Gil - Oi

Ernane - É o Ernane, de São Luís.

Gil - Oi, doutor Ernane, como vai? O senhor tá bem?

Ernane - Tá, tudo bem. Eu fui aí no casamento, rapaz. Falei, tive conversando com o homem aí, voltei com ele. Ele disse que tava tudo certo.

Gil - O senhor teve no casamento?

Ernane - Fui, fui, fui.

Gil - Mas rapaz, eu não soube. Se eu soubesse eu lhe procurava lá para conhecer o senhor. Eu tava lá.

Ernane - Tu tava lá também... É, ele falou que vocês tavam tudo lá, mas não dava pra encontrar, é muita gente, muita confusão.

Gil - Muita gente, muita gente.

Ernane - A gente pelo menos tinha falado, tinha conversado lá. Tá bom (apressando-se para encerrando o assunto do casamento).

Gil - Hã, hã.

Ernane - E aí, como é que tão as coisas? Você disse que ia falar, rapaz.

Gil - Estão começando a melhorar aqui, rapaz, mas ainda não melhorou, não. A gente tá pra receber um recurso que tá pra entrar de Alagoas aqui...

Ernane - Mas já tava certo aí, rapaz, tava tudo na mão... Vocês estão me enrolando.

Gil - Tamo não, doutor, tamo não.

Ernane - O meu amigo disse que tava tudo certo aí, que agora ia fazer logo agora.

Gil - E tá pra fazer aqui. É que eu tive que pagar a folha, doutor. Eu tive que pagar os peão aqui, senão os peão iam parar a zorra aqui.

Ernane - Eu sei que tem muita coisa, mas isso aí também tem que sair, rapaz. Eu vi que, na hora que aquele cara veio pra cá com aquela porcaria, e eu disse que ele tinha enrolado, ele (disse) não, tava na mão, tava na mão. É só conversa, rapaz. Êta porra. E aí, como é que eu faço?

Gil - Doutor, essa semana, eu vou ver, até sexta-feira eu devo conseguir aí.

Ernane - Ah, essa semana... Era um dia... era segunda-feira que tava na mão, ia sair de noite, e não saiu até hoje.

Gil - Até hoje eu não consegui.

Ernane - É, tá brabo isso. Rapaz, fala com ele pra pedir prioridade (...) Ele me garantiu. Vou voltar a perturbar ele. Vou voltar a perturbar.

Gil - Eu retorno pro senhor.

Ernane - Eu tô esperando, mas o telefone de vocês não liga, só recebe, eu tô vendo que só eu que tô...

Gil - Meu telefone tá normal aqui...

Ernane - Não, só tá recebendo. Ligar, tu diz que vai ligar, vai ligar, e nunca liga. E nunca acontece. E eu tô vendo que esse negócio não tá certo, não.

Gil - Mas vai resolver, doutor.

Ernane - É vai, por Deus vai, mas eu tô com a corda no pescoço e o pessoal também tá com a corda no pescoço aqui, rapaz (...) Tá bom, vou perturbar ele lá.

Gil - Tá bom, doutor.

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