Iphan emite parecer sobre jardim do Alvorada

Consultado pelo governo federal, quando as polêmicas estrelas de sálvias vermelhas plantadas nos jardins do Palácio da Alvorada e na Granja do Torto já estavam estampadas nas páginas dos jornais, o superintendente Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Cláudio Queiroz, encaminhou ontem correspondência ao Palácio do Palácio informando que "intervenções desta natureza devem passar pela análise criteriosa do instituto". O Palácio do Planalto não informou, no entanto, se a primeira-dama, que decidiu pela confecção do jardim, iria ou não retirar as estrelas vermelhas que representam o símbolo do partido. Não houve consulta ao IPHAN quando se decidiu fazer o jardim há cerca de seis meses. O documento enviado ao Planalto ironiza o jardim da primeira-dama, que o governo insiste em dizer que foi feito por iniciativa dos jardineiros que trabalham no Alvorada. Vinte e quatro pessoas trabalham no jardim do Alvorada que é cuidado pela Novacap, órgão vinculado ao Governo do Distrito Federal (GDF), que é responsável pela conservação de todos os jardins da capital federal. No Alvorada, além da estrela de quatro metros de diâmetro, foram desenhados também no jardim um mapa do Brasil, uma meia lua, um quadrado e um círculo, todos próximos à estrela petista. As demais formas geométricas não aparecem porque as flores usadas não contrastam com a grama, como o vermelho da sálvia usada para fazer a estrela do PT. Na Granja do Torto foi feita apenas uma estrela de cinco metros de diâmetro. Lá, 20 pessoas conservam o jardim. A carta do superintendente do IPHAN é irônica ao falar do design escolhido para o jardim e o compara a um "pingüim sobre a geladeira". Cláudio Queiroz diz ainda que "as estrelas em questão são canteiros de uma planta da família das labiadas, usada como tempero culinário" e que elas "poderiam ser consideradas hortas comuns de uma agricultura familiar, não fossem suas formas comemorativas, dado o simbolismo transcendente, cuja rubra finitude exprime o sentimento pretendido no desejo subjacente". Depois de destacar a necessidade de preservar "de maneira intransigente" o paisagismo histórico do Palácio da Alvorada, Cláudio Queiroz, diz ainda que "a intervenção pode, mesmo assim, ser considerada tão passageira quanto uma simples disposição de bibelôs sobre os móveis, malgrado seu caráter peculiar, o que, para muitos, poderá significar um pingüim sobre geladeira, para outros tantos simbolizará simplesmente as salvas comuns às celebrações vitoriosas, ou uma inusitada horta de sálvias, estas vermelhas pela natureza do tempero". O superintendente do IPHAN lembra, no entanto, o "caráter efêmero" do jardim, e salienta que "dado o caráter temporal e a possibilidade de recomposição dos locais, a alteração paisagística deve ser considerada recuperável, mesmo após o desempenho de sua função agrícola ou mesmo estética, efêmeras em ambos os casos". Cláudio Queiroz reconhece que "as intervenções foram realizadas em trechos dos gramados sem desmanchar os detalhes das composições paisagísticas originais". Ele não detalha, mas a estrelas e outras formas geográficas foram feitas na parte de trás do Alvorada, entre a piscina e o lago. Em seu parecer, o superintendente do IPHAN afirma que "todo ocupante de qualquer edificação pública deve concorrer a preservação do bem patrimonial, como a lei determina". Lembrando que o Alvorada é um monumento histórico, em processo de tombamento, o documento observa se impõe necessidade de consulta aos órgãos de proteção do patrimônio histórico, neste caso, o IPHAN. E acrescenta que "anteriormente, as decorações pretendidas, iniciadas sem as autorizações das instituições ou do autor do projeto causaram acabrunhamento geral, levando ao seu desfazimento".

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