Investimento de Dilma não decola, mostra análise sobre o PAC

Para economista, governo cometeu equívoco ao acreditar que haveria condições para elevar rapidamente o volume de investimentos; ameaça de inflação obrigou mudança de rota

Lu Aiko Otta, de O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2011 | 19h55

BRASÍLIA - A análise do desempenho do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) até agora mostra que a presidente Dilma Rousseff não conseguiu entregar o que vendeu na campanha eleitoral: uma forte puxada nos investimentos.

 

E, a julgar pelo quadro político e econômico, não será possível mudar o quadro tão cedo. É o que mostra análise elaborada pelo economista Felipe Salto e pelo cientista político Rafael Cortez, ambos da consultoria Tendências.

 

Com base em dados colhidos na base de dados do Senado, o estudo mostra que até o dia 27 de julho o governo pagou R$ 13,5 bilhões em despesas do PAC. Desses, R$ 13,2 bilhões, ou 83,7%, eram gastos contratados no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. "Os números mostram que ela tem as mãos amarradas", disse Salto. "Se ela praticamente só paga restos de exercícios anteriores, quer dizer que os gastos do PAC até agora tiveram pouca influência de programas novos adotados por iniciativa da presidente." Para o economista, o governo cometeu um equívoco de avaliação logo no início, ao acreditar que haveria condições para elevar rapidamente o volume de investimentos. Isso não foi possível porque a administração de Dilma Rousseff já começou com uma ameaça de descontrole inflacionário que obrigou o governo a conter os gastos, promovendo um corte de R$ 50 bilhões no Orçamento. Como a estrutura de despesas do governo é muito rígida, o sacrifício recaiu sobre os investimentos.

 

Dados do Tesouro Nacional divulgados esta semana mostram que eles totalizaram R$ 20,9 bilhões de janeiro a junho, um acréscimo de pouco mais de 1% sobre o observado no primeiro semestre de 2010.

 

A prometida decolagem dos investimentos dependeria, segundo Rafael Cortez, da realização de reformas que permitissem reduzir gastos com pessoal e custeio. "Para isso, ela precisaria de uma coalizão capaz de passar reformas no Congresso Nacional", avaliou. O problema, acredita ele, é que Dilma não foi a responsável pela construção de sua atual base aliada. "Ela não conhece a base, e eles estão acostumados a operar com o governo anterior", observou.

 

Para piorar o quadro, o corte de R$ 50 bilhões no Orçamento reduziu fortemente o espaço para a liberação de recursos para emendas de parlamentares. Dilma também adotou um estilo centralizador nas nomeações para o governo. "Isso tudo gerou desgaste com a base", disse.

 

A presidente, por outro lado, parece ter pouco apetite por reformas econômicas. A única que ela mencionou em seu discurso de posse foi a tributária, que passados sete meses ainda está em debate dentro do governo.

 

"Ela parece ter uma visão de que boa parte dos problemas de falta de investimentos seria gerencial ou administrativo", comentou Cortez. Mas, observou, uma atenção maior ao front político a ajudaria a criar as condições que faltam para ampliar os investimentos.

 

Para Felipe Salto, esse grupo de despesas não apresentará crescimento forte este ano. Para 2012, quando está previsto um aumento de cerca de R$ 23 bilhões no gasto público apenas com o reajuste do salário mínimo, o espaço continuará restrito. "O problema do ano que vem será o mesmo deste ano e quem vai pagar a conta é o investimento", disse. "Dificilmente ele vai decolar."

 

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