Invasões do MST no Sul deixam produtores rurais em alerta

As recentes invasões de um laboratório da Aracruz Celulose e da Fazenda Coqueiros deixaram o Rio Grande do Sul em estado de alerta para se prevenir de alguma nova ação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Nesta segunda-feira, os produtores rurais da região Sul reorganizaram o sistema de vigilância à movimentação nos acessos aos assentamentos de Hulha Negra e Aceguá, para ter como acionar a polícia antes de alguma tentativa de invasão.Ao mesmo tempo, a Brigada Militar levou 300 soldados a Não-Me-Toque, no noroeste do Estado, para proteger a Expodireto, uma feira voltada aos negócios rurais, de qualquer manifestação do MST ou de outras organizações filiadas à Via Campesina. Em Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre, cerca de mil pessoas fizeram uma passeata de apoio à Aracruz, que tem indústria na cidade.O mecanismo acionado em Bagé e municípios vizinhos não é novo: os produtores rurais recorrem a ele sempre que percebem maior circulação de pessoas ou veículos no rumo dos assentamentos. Também aumentam a vigilância quando a rádio comunitária dos sem-terra, que captam, começa a emitir mensagens indicativas de que alguma mobilização está ocorrendo.Pontos de observaçãoDesde a depredação do laboratório e do viveiro de mudas da Aracruz em Barra do Ribeiro, na quarta-feira passada, formou-se a suspeita de que o próximo alvo seria a Fazenda Aroeira, do Grupo Votorantim, que também tem um centro de pesquisa de eucaliptos.O presidente do Sindicato Rural de Bagé, Paulo Ricardo Dias, destaca que os produtores não fazem o papel da polícia, mas podem informar a Brigada Militar sobre deslocamentos dos sem-terra na tentativa de evitar invasões. Estão montados oito pontos de observação fixos dentro de propriedades rurais e os produtores se revezam em mais duas equipes volantes para percorrer a região. Em outros municípios da região serão montados mais dez postos nos próximos dias.Em Guaíba, o comércio fechou no início da tarde para apoiar a passeata que mil pessoas fizeram do centro da cidade à unidade industrial da Aracruz. Os participantes da caminhada pediram a punição dos invasores das instalações da empresa em Barra do Ribeiro e segurança para a região. A Aracruz estima que precisará de seis anos para recuperar os experimentos destruídos na depredação. A fábrica de celulose da Aracruz responde por 60% do PIB de Guaíba.Em Não-Me-Toque, a preocupação é com o acampamento que cerca de 2 mil integrantes do MST montaram ao lado da Fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul, a apenas 30 quilômetros da Expodireto. Na sexta-feira à noite, ainda dentro da propriedade rural que haviam invadido no dia 28, os sem-terra prometeram voltar para seus acampamentos de origem, espalhados pelo Estado. Mas no sábado, na hora combinada para a retirada, apresentaram uma escritura de compra de um terreno de cinco hectares e se mudaram para fora da cerca, ficando ao lado da fazenda que pretendem ver desapropriada para reforma agrária.RetaliaçõesO governador em exercício, Antônio Hohlfeldt, vai pedir à Interpol informações sobre líderes da Via Campesina que deram entrevistas apoiando a depredação do viveiro da Aracruz durante o Fórum Terra, Território e Dignidade, na semana passada, em Porto Alegre. Hohlfeldt também suspendeu todos os convênios, de todos o aparato do Estado, com movimentos filiados à Via Campesina. A primeira retaliação já ocorreu: oito automóveis e 20 motos que seriam entregues à Central de Assentamentos da Reforma Agrária estão retidos no pátio da Secretaria da Agricultura, em Porto Alegre.

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