Emmanuel Pereira/AE
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'Interesses de 2014 influenciam na atual eleição', admite Marcio Lacerda

Apoiado por Aécio, prefeito diz que contradições dos antigos companheiros minaram a aliança criada com PT em 2008

Marcelo Portela, correspondente em Belo Horizonte

20 de julho de 2012 | 23h03

Após mais de três anos de convivência, o prefeito Marcio Lacerda (PSB), de Belo Horizonte, tenta se reeleger em confronto direto contra o PT, de quem guarda evidente mágoa. Segundo o socialista, sabotagens do vice-prefeito petista Roberto Carvalho e "contradições" dos antigos companheiros minaram a aliança criada em 2008. Lacerda, que tem apoio do senador Aécio Neves (PSDB-MG), admite que interesses de 2014 influenciam na atual eleição, mas atribui a nacionalização ao PT e diz que não vai "ser ator" desse jogo. E já espera uma campanha adversária turbinada pelo governo federal. "Acho que vão colocar muito recurso na campanha", declarou, em entrevista ao Estado.

Como foi a tentativa de reedição da aliança entre PT e PSDB?

Por volta de maio de 2011, procurei o governador Aécio, já senador, e disse: vamos trabalhar pela reedição? Ele falou: acho viável, interessante. Voltamos a conversar em julho, eu perguntei se ele aceitava o PT como vice e ele disse que aceitava. Não tive negociação prévia com o PT. Já no fim de agosto fizemos uma reunião na casa da então deputada Ana Arraes, junto com Eduardo Campos, (Antonio) Anastasia, Aécio, eu, Walfrido (Mares Guia) e a direção do PSB nacional. Fizemos então um acordo. O PSB nacional dando ok para a reedição da aliança em Belo Horizonte, com o PT de vice. E aquilo foi um choque muito grande dentro do PT. Esse movimento nosso provocou reação muito forte. Já naquele momento, meu vice-prefeito estava num trabalho forte de oposição, de sapa mesmo da administração.

O PT não tinha interesse na aliança?

Tenho a impressão de que o PT apostou um pouco no meu desgaste, na minha incapacidade de vir a disputar uma reeleição, e aguardou. Todo mundo do PT sempre disse que o Roberto Carvalho não tinha a menor condição de ser prefeito. Ia ser um desastre. Mas deram para ele o poder. São essas contradições do processo interno do PT que criam essa confusão. Como aconteceu em Fortaleza e no Recife. É uma democracia interna autodestrutiva. O processo decisório está prejudicando muito o partido, que eu sempre admirei. O Virgílio Guimarães diz que eu não sou filiado ao PT porque nunca fui convidado. De fato, nunca me convidaram.

O senhor iria?

Não sei. Eu não gostava do governo Fernando Henrique, criticava muito pela política econômica dele, que era uma política destruidora da indústria nacional, favorecia demais o capital financeiro. Ao mesmo tempo não gostava do radicalismo de certos setores do PT. Por isso me juntei ao Ciro Gomes desde 1998. Representava uma terceira via.

Qual a participação do Lula nas negociações?

O Lula esteve aqui em 2011, tirou uma foto me segurando pelo braço e dizendo: o Marcio é o nosso candidato. Essa entrada do Lula obrigou o PT (a pensar): opa, o Marcio tem apoio do Lula. O PT local não me queria. Apareceu então a exigência do PT pela coligação proporcional quando estávamos bem avançados na negociação com o PSDB. E de forma muito agressiva. Tipo faca no peito, colocada pelo Rui Falcão e tudo mais. Pedi ao Walfrido para por o Lula nisso. Põe o Rui Falcão, mas o Rui Falcão lavou as mãos. O Walfrido trabalhou pela coligação com o PT.

E do Ciro Gomes?

Eu e Ciro Gomes fizemos uma visita ao Aécio em Brasília. Ficamos duas horas conversando com ele para ele abrir mão, porque não queria a coligação proporcional com o PT. Ele disse: eu já não tenho mais controle da situação, porque meus apoiadores se manifestaram contra. Vou perder a autoridade no meu grupo. Foi um debate muito duro. Depois (Ciro) falou que faltou generosidade. Por que ele falou aquilo? Porque o PT começou, do jeito que o PT trabalha, a distribuir boatos dizendo que nós fomos lá para fechar acordo contra o PT.

Mas o PT tinha disposição de lançar o senhor para o governo em 2014.

Na realidade, tinha dois movimentos em ambos os lados. O outro movimento dentro de cada lado era assim: precisamos trazer o Marcio para o nosso lado para ser o nosso candidato a governador em 2014 contra o outro lado. E me colocaram numa situação difícil, porque eu sempre disse que não vou, em 2014, me posicionar contra Aécio nem contra Pimentel.

Hoje o Pimentel está em outro campo.

Toda coisa que acontece você tem ganhos e perdas. Acho que a maior perda que tive nesse processo é ter hoje o Pimentel magoado comigo.

Ele ficou magoado?

Pelo que tenho ouvido, sim. Mas mágoa por quê? Eu não rompi com ele nem com o PT. O PT que rompeu comigo.

Vocês não conversaram mais?

Não. Eu não tomei a iniciativa, nem ele. Fez um discurso agressivo contra mim, quase prometendo vingança no futuro, me chamando de traidor. Cada pessoa tem seu estilo. Eu não tive agenda oculta no processo. Até porque teria uma eleição muito fácil, comparada com essa.

Qual o peso das pretensões do Aécio em 2014 no rompimento da aliança?

Os projetos de 2014, tanto do Pimentel quanto do Aécio, não influenciaram meus movimentos. Meus movimentos foram pela manutenção da aliança e não me posicionar contra nenhum dos dois em 2014. Foi um mantra que falei durante um ano. Avisei que estavam dando muito espaço para o Roberto Carvalho. Mas o PT não fez nada. Não importa se vou continuar aqui ou não, não pretendi entrar nesse tabuleiro de 2014, se apoiar Aécio vou ficar contra Dilma ou vice-versa.

A possibilidade de o PSDB perder o governo de Minas influenciou no processo?

Todos já sabiam que em hipótese nenhuma eu ia me oferecer para ser candidato contra A ou B. Por uma questão de princípio, lealdade, amizade. Segundo, porque isso nunca foi projeto de vida meu. Não fiz esse jogo. Nossa campanha é de 2012. Não entro nesse jogo de discutir 2014. Os políticos e jornalistas, sim, querem construir cenários. Mas não serei ator disso.

A Dilma fez vários elogios ao senhor. Agora, os tucanos se declaram surpresos com o engajamento dela na campanha do Patrus Ananias. O senhor ficou surpreso?

A partir do momento em que houve o rompimento e o PT falou que eu rompi, que eu traí o PT, essa informação correu e chegou a ela certamente de uma maneira que não era verdade. O Pimentel deve ter chegado para ela e falado: o Marcio deixou a gente na mão, vamos juntar nossas forças. O Roberto Carvalho tinha feito movimento de registrar a candidatura dele, o PSB tinha rompido, ou vice-versa, com o PT em Fortaleza e no Recife e nosso caso veio depois. O PSB nacional, por pressão, chegou a pensar em intervir aqui, para forçar a coligação proporcional. Isso não pode acontecer. Seria até esperteza minha ficar quieto e depois dizer ao PSDB que tivemos que voltar atrás. Mas eu ia viver com isso e seria muito chato.

Espera algum tipo de retaliação do governo federal?

Estou esperando para os próximos dias a assinatura de um convênio dos primeiros R$ 60 milhões para o projeto do metrô. Já estamos começando com recursos nossos e do Estado as sondagens. E esse convênio já está atrasado. Se ele demorar um pouco mais (risos), vou achar que tem problema. Mas acho que isso não vai acontecer, porque o metrô é uma promessa da presidente para a cidade, que é a cidade dela. Acho que vão colocar muito recurso na campanha. Mas o povo não é bobo.

O Lula era a favor da aliança, mas agora pos até o marqueteiro pessoal na campanha. Espera atuação direta da direção petista na disputa?

Espero uma campanha dura. Não existe campanha ganha. O raciocínio nosso é partir do zero e com muito respeito pelos aliados e adversários. A eleição vai ser um plebiscito. Não ideológico, porque a população não tem visão ideológica partidária. A população olha se o gestor trabalhou bem ou mal, no caso do município. Não me preocupo com isso. Estou com a consciência tranquila, a alma leve e sem fazer ataques a ninguém.

Na sua opinião, por que o Kassab determinou uma intervenção em Belo Horizonte?

Acho que houve uma compreensão das lideranças políticas de que aqui está se jogando o jogo de 2014. Deviam ter refletido com mais frieza e aderido à aliança. É isso que as grandes lideranças do PT deviam ter feito. Deixavam o PMDB com a eterna rivalidade e me apoiavam. Quem nacionalizou a campanha foi o PT, não fomos nós. Acho que foi um erro.

A campanha vai criticar essas intervenções?

Deixa isso para os deputados. Eu não vou entrar nesse jogo. O Kassab esteve comigo várias vezes dizendo: vamos estar com você. No dia da convenção fui lá, rubriquei a ata deles. Mas acho que o País está se aperfeiçoando e o povo sabe cada vez mais distinguir as coisas.

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