Interesse regional cria uniões inusitadas

Adversários no plano nacional se coligam em várias capitais

Marcelo de Moraes, O Estadao de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 00h00

As alianças firmadas entre os partidos para as eleições municipais mostram que a afinidade política e a convergência de programas ficaram em segundo plano. Na prática, sobram exemplos de adversários no plano nacional que se coligaram em várias capitais, priorizando interesses regionais.A elasticidade dessas alianças não exclui nenhum partido. Em Aracaju, o prefeito Edvaldo Nogueira, do PC do B, tenta a reeleição com o apoio de PSDB e PT, rivais no cenário nacional.Em São Paulo, DEM e PSDB - os dois maiores partidos de oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva - não conseguiram manter a aliança histórica que os unia. Da parte do DEM, o prefeito Gilberto Kassab tentará a reeleição com o PMDB de Orestes Quércia. Nacionalmente, os peemedebistas são aliados de Lula.Por outro lado, os tucanos lançaram Geraldo Alckmin para tentar derrotar Kassab e buscaram um vice do PTB, também aliado de Lula. Em Curitiba, o cenário é parecido: o tucano Beto Richa luta pela reeleição tendo como vice Luciano Ducci, do PSB, alinhado ao Planalto.Alguns acordos reúnem na mesma chapa partidos completamente opostos. Em Resende (RJ), o DEM lançará chapa com José Rechuan para prefeito e, na vice, o petista João Alberto Stagi. A chapa, que reúne ainda PSDB e PC do B, entre outros, acabou se tornando tão ampla por conta do quadro político local: uniram-se todos na tentativa de impedir a reeleição de Silvio Carvalho (PMDB).Situação oposta motivou outra reunião de adversários. Para garantir a reeleição, o prefeito de Nova Iguaçu (RJ), Lindberg Farias (PT), montou chapa com outros nove partidos, incluindo o DEM. Essa parceria já ocorrera antes e sua repetição esteve ameaçada neste ano. Mas, com o fortalecimento da candidatura de oposição de Nelson Bornier (PMDB), PT e DEM voltaram a se acertar.POLÍTICA REGIONALNa prática, as disputas regionais prevalecem sobre o quadro político nacional. O presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), reconhece que a situação hoje é inevitável e lembra que os conceitos de fidelidade partidária ainda engatinham no País. "A fidelidade partidária é uma construção. Não se faz da noite para o dia. E hoje temos pesquisas que mostram que a realidade eleitoral regional é completamente dissociada do quadro nacional."No caso do Rio, as parcerias entre governistas e oposição se tornaram mais freqüentes porque o adversário comum a ser batido é o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB). Assim, para derrotar seus aliados, PT, DEM e PSDB deixam as divergências nacionais de lado e dividem palanques."No futuro, quando a fidelidade partidária se consolidar, esse quadro tende a mudar", avalia Maia. "Os partidos poderão ter mais força para cobrar fidelidade nas alianças regionais ou não cederão legenda para que esses candidatos concorram novamente", confirma.Um dos poucos vetos firmados nesse sentido partiu da direção nacional do PT, que barrou coligação do partido com o PSDB em torno de Márcio Lacerda (PSB) na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte. A aliança tem o apoio do governador tucano Aécio Neves, provável candidato a presidente em 2010. O efeito prático do veto, porém, foi pequeno: os tucanos mantiveram aliança informal.Em outros casos o PT foi mais flexível. Segundo dados petistas, a sigla aceitou 82 coligações com legendas não alinhadas a Lula, como em Aracaju (SE), São Vicente (SP) e Blumenau (SC).

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