HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
Em manifestação realizada no centro de São Paulo, em novembro, grupo neointegralista ressuscita velhas fardas e saudações  HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Integralistas estão de volta e resgatam camisas verdes

Movimento criado pelo escritor e político Plínio Salgado nos anos 1930 se reorganiza e deve realizar congresso nacional e lançar candidatos próprios em 2020

José Fucs, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 05h00

No dia 9 de novembro, às 8h, um grupo ligado ao movimento integralista realizou uma pequena manifestação, com apenas 15 pessoas, na esquina da avenida São João e do Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo. O ato passou quase em branco e só chamou a atenção dos raros pedestres que passavam pela região – cercada pelos tapumes das obras de reurbanização executadas pela Prefeitura – naquela tranquila manhã de sábado.

Acompanhada pelo Estado, como parte da apuração desta reportagem, a manifestação teria servido apenas para demonstrar o desvario da iniciativa e o fraco engajamento despertado pelo movimento no atual cenário político do País. Mas, ao ressuscitar velhas práticas do integralismo, que marcaram tempos sombrios da vida política nacional, acabou por ganhar um significado que transcende a frieza dos números.

Promovida pela Frente Integralista Brasileira (FIB), principal organização de defesa do integralismo hoje, com o objetivo de homenagear três representantes da velha guarda mortos recentemente e celebrar os 87 anos do chamado Manifesto de Outubro, que selou a fundação do movimento em 1932, a manifestação parecia uma viagem no tempo.

Como nas marchas da Ação Integralista Brasileira (AIB) na década de 1930, os participantes vestiam, pela primeira vez na nova fase, o tradicional uniforme do grupo, composto por camisas verdes de mangas longas, com o colarinho e os punhos abotoados, e calças pretas. Alinhados em formação militar e em posição de sentido, de frente para os dois líderes que comandavam o ato, agitavam bandeiras azuis com o símbolo do sigma, a letra grega que identifica o integralismo, e do Brasil.

Com o braço direito levantado, eles respondiam em coro ao chamado dos dirigentes da FIB, bradando o lema e a saudação do movimento, de origem tupi, que quer dizer “olá”, “salve”, “você é meu irmão”.

“Deus, pátria e família!”, disse um dos líderes em tom solene.

“Deus, pátria e família!”, replicou o grupo.

“A todos os que estão dispostos a lutar ou mesmo a dar sua vida por “Deus, pela pátria e pela família, anauê!”, reforçou o dirigente.

“Anauê!”, exclamaram os participantes em júbilo.

“Nós sempre cultivamos essas tradições. Continuamos nos saudando com ‘anauê’ em todo o lugar”, afirma o filósofo Moisés Lima, de 29 anos, secretário nacional de Doutrina da FIB. “O uniforme já foi camiseta verde e agora estamos voltando a adotar o antigo modelo, mas sem a dragona e a gravata preta. O uniforme nivela a classe social de quem participa do movimento e ninguém fica preocupado com o que vestir para ir numa reunião.” A quem enxerga no braço levantado dos militantes uma referência à saudação dos alemães ao Führer, ele diz: “O braço é erguido para o céu, na vertical e não na horizontal, como faziam os fascistas na Itália e os nazistas na Alemanha”.

Em 2020, os neointegralistas pretendem participar das eleições municipais com o lançamento de candidatos em várias cidades”

Embora seja uma organização relativamente modesta e com pouca expressão política, a FIB vem se estruturando e ganhando visibilidade, de forma lenta e gradual, ao lado de grupos integralistas independentes, turbinada pelo desencanto com a política, a democracia liberal e os partidos, observada atualmente no Brasil e em outros países. “A ascensão do conservadorismo nos últimos cinco, seis anos, propiciou um campo mais fértil para o nosso crescimento, mas não foi determinante.”, afirma Lima.

O ato de São Paulo, apesar da baixa adesão, foi um ensaio para o que deve vir por aí. Se os planos da FIB se concretizarem, o próximo passo será a realização de um evento robusto, incluindo o 5º congresso nacional do movimento, uma grande marcha e a comemoração de aniversário de 125 anos do escritor, jornalista e político Plínio Salgado (1895-1975), o grande líder do integralismo.

O local e a data do evento, que deverá contar com a presença de personalidades do País e do exterior, ainda não estão confirmados, mas o mais provável é que ele aconteça já em janeiro, em torno do dia 22, data de nascimento de Salgado, em São Bento do Sapucaí, no interior de São Paulo, sua terra Natal.

Em 2020, os neointegralistas pretendem também participar das eleições municipais com o lançamento de candidatos em várias cidades, todos para o Legislativo. A ideia é concorrer preferencialmente pelo PRTB, de Levy Fidelix, de quem a FIB se aproximou em 2018 e que adotou até o lema “Deus, pátria e família” na campanha, e pelo Patriota, cuja carta de fundação foi redigida por um integralista, o funcionário público Paulo Fernando Melo da Costa, vice-presidente da legenda no Distrito Federal.

A aposta mais ambiciosa do movimento é na volta do Prona, o partido fundado pelo médico Enéas Carneiro (1938-2007), candidato à Presidência em 1989, 1994 e 1998 e reverenciado pelos nacionalistas conservadores e pelos neointegralistas. De acordo com o advogado e professor Victor Emanuel Vilela Barbuy, de 34 anos, presidente e um dos fundadores da FIB, Enéas chegou a discutir com líderes do movimento uma possível transformação do Prona em Partido Integralista, além da proposta de que todos os filiados da legenda fizessem um curso sobre o integralismo.

O projeto, porém, acabou não indo para a frente, segundo Barbuy, hoje filiado ao PRTB, em razão da fusão do Prona com o Partido Liberal (PL), que resultou no Partido Republicano (PR), em 2006, e da morte de Enéas no ano seguinte. A ideia, agora, é fazer uma cisão e transformar o novo Prona em legenda “oficial” dos integralistas.

“Em alguns Estados, temos preparado nossos membros em técnicas de artes marciais, mas só agimos em legítima defesa”

Inicialmente, a manifestação realizada em São Paulo estava marcada para o dia 3 de novembro, uma semana antes, mas na última hora acabou adiada, porque os detalhes do ato, de acordo com dirigentes da FIB, “vazaram” no WhatsApp e poderiam colocar em risco a segurança dos participantes. Por questão de segurança também, a maioria chegou ao local do ato com a camisa verde escondida por uma jaqueta ou um paletó. Outros vestiram a peça, que tem o sigma bordado no braço esquerdo, no carro de um dos participantes estacionado nas redondezas, que trouxe as bandeiras usadas na ocasião.

Improváveis para um ato político, o horário e o local não foram escolhidos por acaso. De acordo com os organizadores, o objetivo de marcar a manifestação logo cedo, quando há menos gente nas ruas, especialmente nos fins de semana, foi evitar que os participantes fossem hostilizados por grupos que se opõem ao movimento, como já aconteceu em outras oportunidades.

Em 2017, Barbuy foi impedido por opositores de fazer uma apresentação no 6º Simpósio de Filologia e Cultura Latino-Americana, na Faculdade de Letras da USP, e dois estudantes que queriam assistir à sua palestra foram agredidos e chegaram a registrar um Boletim de Ocorrência sobre o caso. “Fui expulso, depois atacaram companheiros nossos que estavam lá e um deles teve até o nariz quebrado”, diz. “Em alguns Estados, temos preparado nossos membros em técnicas de artes marciais, para enfrentar essas situações, mas nós só agimos em legítima defesa.”

Já o local da manifestação tem um significado histórico para o integralismo. Lá, no prédio em que funciona hoje o Bar e Restaurante Guanabara, segundo Barbuy, ficava o Clube Português, onde Plínio Salgado redigiu o Manifesto de Outubro. Aprovado em assembleia da antiga Sociedade de Estudos Políticos (SEP), o documento deu origem à AIB, o braço político do movimento, que acabou extinta por Getúlio Vargas com a decretação do Estado Novo, em 1937, como os demais partidos.

As mulheres, chamadas de “blusas verdes”, ainda são em número insuficiente, segundo os líderes da FIB, para formar grupos próprios nos núcleos

Em 1946, com a redemocratização do País e volta de Salgado do exílio em Portugal, para onde ele foi depois de ser preso, em 1939, sob acusação de conspirar contra o governo, os integralistas fundaram uma nova sigla, o Partido de Representação Popular (PRP). O novo partido participou ativamente do jogo político até 1964, quando também foi extinto pelo regime militar, apoiado por Salgado. Apesar de o movimento ter deixado de existir como partido político na época, ele ainda manteve acesa a chama do integralismo até sua morte, aos 80 anos, e chegou a se eleger duas vezes como deputado federal pela antiga Arena.

Com a morte de Plínio Salgado, o integralismo se desarticulou politicamente e ficou restrito à promoção de eventos culturais pela Casa de Plínio Salgado, criada em 1981 com o apoio de amigos e militantes para cultuar a memória de seu principal líder. Foi só com a fundação da FIB, em 2005, por um grupo de jovens adeptos do integralismo, com suporte da velha guarda, que faz o elo histórico com a nova geração, que o movimento voltou a atuar politicamente de forma organizada.

“Eu tenho o meu papel, sei que tenho”, afirma o jornalista e editor Gumercindo Rocha Dorea, de 95 anos, vice-presidente honorário da FIB e um dos últimos remanescentes da velha guarda, que vestiu a sua primeira camisa verde quando tinha apenas 8 anos, como membro da ala mirim do grupo. Integrante da segunda geração de integralistas, foi diretor do jornal A Marcha, editor da Enciclopédia do Integralismo e assistente de Plínio Salgado. “Há um ódio, baseado sobretudo na ignorância, contra o integralismo e os grandes vultos do movimento, que nunca são citados em literatura e mesmo em política.”

Hoje, a FIB tem, segundo seus lideres, “núcleos provinciais” em sete Estados (SP, RJ, MG, PR, ES, CE e PE) e no Distrito Federal, além de representantes espalhados por todo o País. O último “censo”, realizado há seis anos, apontou cerca de oito mil filiados efetivos, segundo dados da entidade.

Entre os filiados, de acordo com os dirigentes da FIB, a maioria é composta por homens das classes média e média baixa, embora o grupo tenha também representantes da elite. As mulheres, chamadas de “blusas verdes”, ainda são em número insuficiente, segundo os líderes da entidade, para formar grupos próprios nos núcleos. No Facebook, a página da FIB está perto de alcançar 20 mil curtidas.

De acordo com os líderes da FIB, ela vive de colaborações de filiados e simpatizantes mais abonados e da cessão e doação de bens como veículos, computadores e imóveis. Conta também com o trabalho de voluntários no “departamento de telemarketing”, que faz a ponte entre a direção nacional, os núcleos estaduais e municipais e os representantes dispersos pelo País.

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Inspiração no fascismo, antissionismo e críticas a Bolsonaro

Pesquisadores colocam o integralismo à direita do presidente, pela intenção do movimento de subverter as regras do jogo democrático

José Fucs, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 05h00

Com idades na faixa de 20 a 35 anos, os participantes da manifestação realizada em novembro, em São Paulo, integram a chamada quarta geração do integralismo. Eles cultuam com devoção as ideias de Plínio Salgado, chamado até hoje de “chefe” pelos “camisas verdes” da velha guarda, e de outras lideranças integralistas, como o jurista Miguel Reale (1910-2006) e o advogado e escritor cearense Gustavo Barroso (1888-1959), que foi presidente da Academia Brasileira de Letras e diretor do Museu Histórico Nacional.

Entre as posições defendidas hoje pelos neointegralistas, enraizadas nos princípios originais do movimento, destacam-se a chamada “democracia orgânica”, na qual as decisões políticas seriam tomadas por representantes indicados por diferentes grupos sociais e categorias profissionais; o nacionalismo econômico e cultural, com estímulo ao “setor produtivo” e preservação das estatais consideradas “estratégicas”; o municipalismo; o espiritualismo; e a doutrina social da Igreja.

De outro lado, eles se opõem ao capitalismo; ao liberalismo político e econômico; ao comunismo; ao imperialismo; ao materialismo; ao capital financeiro internacional, muitas vezes relacionado aos judeus; à teologia da libertação; e ao aborto, inclusive em caso de estupro. Na visão do movimento, o integralismo seria uma “terceira via” entre o liberalismo e o comunismo.

Não é raro encontrar publicações em tom antissemita em páginas e perfis de grupos integralistas independentes nas redes sociais

Apesar de os neointegralistas negarem, pesquisadores enxergam nas críticas atuais dos integralistas a Israel e ao sionismo um sentimento antissemita, delineado nas obras e nos discursos de Gustavo Barroso. Foi Barroso o responsável pela tradução e pela publicação da primeira versão em português dos Protocolos dos Sábios de Sião, livro apócrifo que aponta uma suposta conspiração dos judeus para dominar o mundo.

“O antissemitismo não foi a corrente principal, mas era uma perspectiva muito presente no integralismo, seja como forma de mobilização, seja para sustentar um discurso conspiracionista e explorar a figura de um inimigo a ser destruído”, afirma o professor Odilon Caldeira Neto, da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), autor do livro Sob o signo do sigma: integralismo, neointegralismo e antissemitismo (ed. Eduen, 234 pág., R$ 45). “Evidentemente, os grupos atuais se dizem antissionistas e não antissemitas. Eles fazem um processo de apagamento sistemático de alguns textos, sobretudo de Gustavo Barroso, retirando termos como ‘judeu’, ‘judaico’ e ‘judaísmo’ e não enunciando de forma mais evidente o antissemitismo, mas deixam a síntese da ideia.”

Não é raro encontrar publicações em tom antissemita em páginas e perfis de grupos integralistas independentes nas redes sociais. Uma publicação, feita no Facebook pela Accale Brasil, grupo ultranacionalista que mantém estreitas relações com a FIB, traz os retratos do financista e filantropo George Soros, do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger e dos banqueiros Jacob e Evelyn Rothschild, todos judeus, com os dizeres “o inferno está vazio e todos os demônios estão aqui”.

Outra publicação, feita pela página Integralistas, traz o desenho de uma cobra de três cabeças. Uma delas contém a imagem da estrela de David, a outra, de um cifrão, e a terceira, da foice e do martelo. O título da ilustração expõe sem rodeios a intenção dos autores: “Esmague as cabeças da víbora!”.

“Não somos antissemitas. O que eu combato são os judeus sionistas”, diz o estudante Marcos Lima, de 19 anos, administrador da página, em resposta enviada por e-mail ao questionamento feito pelo Estado. “Infelizmente, grande parte dos líderes da indústria pornografia e dos banqueiros que escravizam bilhões de pessoas mundo afora são (sic) judeus sionistas e eu não posso me calar diante disso.”

“Há muito mais gente que defende que o integralismo foi um movimento fascista do que o contrário”

Os neointegralistas negam também que o movimento seja de orientação fascista, como costuma ser classificado pela mídia, pela academia e pelos políticos. Segundo Victor Emanuel Vilela Barbuy, presidente da Frente Integralista Brasileira (FIB), o corporativismo adotado pelo regime fascista de Benito Mussolini (1883-1945) tem pontos de contato com o proposto pelo integralismo, mas é diferente, porque seria implementado de baixo para cima e não de cima para baixo, como ocorreu na Itália.

“O Plínio Salgado defendia a democracia orgânica, a democracia que ouve os grupos que formam a sociedade, de representação profissional, cultural, em contraposição à democracia liberal”, afirma Barbuy. “O Estado integral defendido pelos integralistas já nasceria das corporações e daria grande autonomia a elas.”

Hoje, na guerra de narrativas que assola o País, virou lugar comum a esquerda chamar os adversários de “fascistas”, a ponto de o termo ter perdido quase totalmente o significado original. Mas, no caso dos integralistas, na visão de pesquisadores e acadêmicos, tal categorização não representa apenas uma acusação vazia, para tentar descaracterizar o movimento.

“Esse é um debate denso, que envolve todo mundo que estuda o assunto, tanto quem está de um lado quanto quem está do outro, mas há muito mais gente que defende que o integralismo foi um movimento fascista do que o contrário”, afirma o jornalista Pedro Doria, colunista do Estado, que está finalizando uma biografia de Plínio Salgado, ainda sem título definido, a ser lançada no começo de 2020 pela editora Planeta. “O encontro do Plinio Salgado com o Mussolini transformou a cabeça dele. Quando ele voltou ao Brasil, um dia depois de estourar a Revolução de 1930, já era fascista, estava encantado com o fascismo.”

Na avaliação de Doria, dois pontos unem o integralismo ao fascismo, além da institucionalização do corporativismo: o caráter revolucionário do movimento, que se revela na proposta de implantar uma “democracia orgânica” no País, em lugar da democracia liberal, e a aversão aos partidos políticos, considerados como organizações que fragmentam a Nação.

“O fascismo é revolucionário. Num processo revolucionário, em essência, o que se pretende é transformar por completo a estrutura do Estado, implantar algo novo, totalmente diferente, e é isso o que propõe, em última instância, o integralismo”, diz Doria. “No fascismo, todos pertencem ao mesmo partido. O partido é a Nação.”

Segundo o professor Odilon Caldeira Neto, o caráter fascista do velho integralismo se mantém no movimento neointegralista, mesmo tendo se diluído no pós-guerra, com a derrota dos países do Eixo. “Na medida em que grupos como a Frente Integralista Brasileira procuram remeter a própria historicidade à experiência da Ação Integralista Brasileira, que foi a principal organização de tipo fascista não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, eles trazem o fascismo no DNA”, afirma.

“Chegar ao poder sempre foi nosso firme propósito. Respeitando o regime democrático, pretendemos ir galgando dentro do sistema”

Como os comunistas revolucionários, de orientação marxista-leninista, os neointegralistas afirmam defender a democracia, para ascender ao poder, mas admitem que, ao chegar lá, poderão implantar um novo sistema. “Num primeiro momento, haveria um aprimoramento do modelo atual, adaptando o que puder ser adaptado à democracia orgânica, sem acabar com a representação tal como existe hoje”, afirma Victor Barbuy.

“Chegar ao poder sempre foi nosso firme propósito. Respeitando as regras da Constituição, respeitando o regime democrático, como sempre fizemos, pretendemos ir galgando dentro do sistema”, acrescenta Moisés Lima, secretário nacional de Doutrina da FIB. “Nós imaginamos que, um dia, o povo brasileiro descubra quem ele é e neste caso estaremos no poder. Estamos trabalhando para isso.”

Outra questão polêmica é a categorização dos integralistas como movimento de extrema direita. “De acordo com o conceito moderno de esquerda e direita, não somos nem uma coisa nem outra”, diz Barbuy. Mas, para Caldeira Neto, os neointegralistas se situam à direita do presidente Jair Bolsonaro e de seus seguidores mais extremados e também do que ele chama de “direita radical”, que se caracteriza pelo respeito às regras do jogo.

“Embora tenha sido eleito democraticamente e afirme respeitar a democracia liberal, Bolsonaro estaria entre a direita radical e a extrema direita, por ter enunciado diversas vezes, ao longo de seus 30 anos de vida política, a possibilidade de quebrar as regras do jogo democrático”, diz. “Os neointegralistas ficariam no campo da extrema direita, porque buscam a subversão do sistema.”

Os neointegralistas se opõem à política externa de Bolsonaro, pela aproximação com Israel e com os Estados Unidos, e à política econômica liberal do Paulo Guedes

Apesar de terem apoiado a eleição de Bolsonaro e de o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ter encerrado seu discurso de posse com a expressão “Anuê Jaci”, que quer dizer Ave Maria em tupi – lembrando a tradicional saudação do integralismo e sugerindo seu apoio ao movimento – os neointegralistas parecem cada vez mais distantes do presidente e do governo.

Em publicações nas redes sociais, o escritor Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, chegou a afirmar, ao seu estilo, que o integralismo “é uma babaquice” e foi “uma coisa absolutamente insignificante”, talvez para ocupar o espaço de um concorrente que atua na mesma raia.  As divergências dos neointegralistas com Bolsonaro e a ala mais ideológica do bolsonarismo, porém, vão muito além das discussões “de comadres” entre os dois grupos.

Tirando o anticomunismo e as posições conservadoras de Bolsonaro no campo dos costumes, que os neointegralistas apoiam, eles engrossam a oposição nas críticas à política externa, pela aproximação com Israel e com os Estados Unidos, e à política econômica, pelas medidas liberais implementadas e defendidas pelo ministro Paulo Guedes.

Declaram ser contra também uma eventual intervenção militar hoje no País, apoiada por certas correntes do bolsonarismo. “Não há nada que legitime isso atualmente”, diz Lima. “É recomendável que a gente fortaleça a democracia e não fique chamando o Exército para nos resgatar o tempo todo.”

Os líderes do movimento sentem saudades do Bolsonaro dos velhos tempos, o Bolsonaro das posições corporativistas, desenvolvimentistas, nacionalistas e estatizantes, que marcaram a maior parte de sua trajetória política e que vêm à tona em certas ocasiões ainda hoje . “Nós não somos estatistas, defendemos o Estado necessário. Mas antes o Bolsonaro tinha posições mais próximos das nossas do que hoje”, afirma Barbuy. “A gente não está querendo que as medidas do governo deem errado. A gente quer que deem certo. Agora, isso não nos inibe de fazer críticas sadias.”

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