Waldemir Barreto/ Agência Senado
Waldemir Barreto/ Agência Senado

Instituições

Agora, exige-se que o público pagante desenvolva paixão por senadores, deputados, ministros

J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 03h00

O cidadão brasileiro é lembrado dia e noite pelos órgãos de comunicação, pelas classes ilustradas e pelo resto da elite que faz o grande favor de pensar por todos nós nessa vida de que precisa cumprir diariamente um “dever político” acima de qualquer outro: tem de ajoelhar-se diante da cama, a cada noite, para agradecer aos céus a felicidade única ter um Congresso Nacional completo, com Senado e Câmara de Deputados, um Supremo Tribunal Federal onde os magistrados usam capa preta e acreditam que são ingleses, e mais todos aqueles sobrados de demolição que acabam fazendo, juntos, as chamadas “instituições democráticas” da “República”. Em que inferno estaríamos todos nós, se não fossem essas maravilhas? 

Não basta aceitar, quietinhos, que essas instituições sejam uma colossal palhaçada de circo, como se constata pelo simples exame do que os seus membros fazem na vida real. Agora, no que vai ficando com jeito de ideia fixa, exige-se que o público pagante desenvolva também uma paixão tórrida por senadores, deputados, ministros superiores e todo o resto desse bonde. Não são uns amores, todos eles? Tudo o que fazem, segundo esta lavagem cerebral que saiu do trilho, é uma obra-prima na defesa e no avanço da democracia. Impedem a chegada do fascismo. Combatem os atos “antidemocráticos” – até prendem gente por conta disso. Estão há três meses fazendo um esforço sem precedentes para descobrir quem é o responsável pelas mais de 500 mil mortes da covid (no resto do mundo é o vírus que veio da China) e investigar safadeza na compra de vacinas – mas safadeza, na sua imaginação, que só existe na esfera federal, já que as compras estaduais, mesmo obscurecidas por contratos secretos, foram colocadas por eles fora das investigações. Heroísmo é isso aí – com a vantagem que não é preciso correr risco absolutamente algum para ser herói. 

Socou-se em cima do público, por conta disso tudo, uma aberração primitiva: a de que a população deve estar profundamente agradecida aos senadores, deputados, etc. A maior sorte do cidadão, por esta maneira de ver a vida, não é acordar de manhã e ser informado de que ganhou sozinho a Mega Sena – é olhar em volta e ver que “as instituições estão funcionando normalmente”. Que alívio, não? Mais um dia na companhia do senador Renan e seus nove processos penais, daquele outro cuja mulher foi presa durante três dias por ladroagem e dos 30% – ou mais – de parlamentares enrolados com a Justiça criminal. 

Os heróis das instituições e do seu bom funcionamento, esses cuja segurança tanto preocupa os comunicadores brasileiros, riem de tudo isso – vêm rindo desde a Constituição de 1988, que dividiu o País entre as castas que mandam na máquina do Estado e as multidões de escravos que não mandam em nada, apenas trabalham e pagam os impostos que mantêm vivas “as instituições”. Vão continuar a rir, diante do tratamento de fidalgos que acabam de receber no escândalo mais grosseiro que o Brasil vê há muito tempo, e que daria trabalho para umas dez CPIs como esta que está aí. 

A politicalha, como se sabe – e sem a mais remota objeção dos caçadores de “atos antidemocráticos” –, acaba de aumentar para doentios R$ 5,7 bilhões o dinheiro que você vai ter de dar a ela para gastar na campanha eleitoral de 2022. Deveria ser problema deles. Querem ser eleitos? Então que gastem o raio do seu próprio dinheiro. Mas, não: querem pegar os reais que você paga de imposto todas as vezes que liga o celular, acende a luz ou enche o tanque de combustível, para comprarem os cargos nos quais vão continuar lhe roubando. 

São as “instituições democráticas” em pleno funcionamento.

*JORNALISTA

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