HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Inspiração no fascismo, antissionismo e críticas a Bolsonaro

Pesquisadores colocam o integralismo à direita do presidente, pela intenção do movimento de subverter as regras do jogo democrático

José Fucs, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 05h00

Com idades na faixa de 20 a 35 anos, os participantes da manifestação realizada em novembro, em São Paulo, integram a chamada quarta geração do integralismo. Eles cultuam com devoção as ideias de Plínio Salgado, chamado até hoje de “chefe” pelos “camisas verdes” da velha guarda, e de outras lideranças integralistas, como o jurista Miguel Reale (1910-2006) e o advogado e escritor cearense Gustavo Barroso (1888-1959), que foi presidente da Academia Brasileira de Letras e diretor do Museu Histórico Nacional.

Entre as posições defendidas hoje pelos neointegralistas, enraizadas nos princípios originais do movimento, destacam-se a chamada “democracia orgânica”, na qual as decisões políticas seriam tomadas por representantes indicados por diferentes grupos sociais e categorias profissionais; o nacionalismo econômico e cultural, com estímulo ao “setor produtivo” e preservação das estatais consideradas “estratégicas”; o municipalismo; o espiritualismo; e a doutrina social da Igreja.

De outro lado, eles se opõem ao capitalismo; ao liberalismo político e econômico; ao comunismo; ao imperialismo; ao materialismo; ao capital financeiro internacional, muitas vezes relacionado aos judeus; à teologia da libertação; e ao aborto, inclusive em caso de estupro. Na visão do movimento, o integralismo seria uma “terceira via” entre o liberalismo e o comunismo.

Não é raro encontrar publicações em tom antissemita em páginas e perfis de grupos integralistas independentes nas redes sociais

Apesar de os neointegralistas negarem, pesquisadores enxergam nas críticas atuais dos integralistas a Israel e ao sionismo um sentimento antissemita, delineado nas obras e nos discursos de Gustavo Barroso. Foi Barroso o responsável pela tradução e pela publicação da primeira versão em português dos Protocolos dos Sábios de Sião, livro apócrifo que aponta uma suposta conspiração dos judeus para dominar o mundo.

“O antissemitismo não foi a corrente principal, mas era uma perspectiva muito presente no integralismo, seja como forma de mobilização, seja para sustentar um discurso conspiracionista e explorar a figura de um inimigo a ser destruído”, afirma o professor Odilon Caldeira Neto, da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), autor do livro Sob o signo do sigma: integralismo, neointegralismo e antissemitismo (ed. Eduen, 234 pág., R$ 45). “Evidentemente, os grupos atuais se dizem antissionistas e não antissemitas. Eles fazem um processo de apagamento sistemático de alguns textos, sobretudo de Gustavo Barroso, retirando termos como ‘judeu’, ‘judaico’ e ‘judaísmo’ e não enunciando de forma mais evidente o antissemitismo, mas deixam a síntese da ideia.”

Não é raro encontrar publicações em tom antissemita em páginas e perfis de grupos integralistas independentes nas redes sociais. Uma publicação, feita no Facebook pela Accale Brasil, grupo ultranacionalista que mantém estreitas relações com a FIB, traz os retratos do financista e filantropo George Soros, do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger e dos banqueiros Jacob e Evelyn Rothschild, todos judeus, com os dizeres “o inferno está vazio e todos os demônios estão aqui”.

Outra publicação, feita pela página Integralistas, traz o desenho de uma cobra de três cabeças. Uma delas contém a imagem da estrela de David, a outra, de um cifrão, e a terceira, da foice e do martelo. O título da ilustração expõe sem rodeios a intenção dos autores: “Esmague as cabeças da víbora!”.

“Não somos antissemitas. O que eu combato são os judeus sionistas”, diz o estudante Marcos Lima, de 19 anos, administrador da página, em resposta enviada por e-mail ao questionamento feito pelo Estado. “Infelizmente, grande parte dos líderes da indústria pornografia e dos banqueiros que escravizam bilhões de pessoas mundo afora são (sic) judeus sionistas e eu não posso me calar diante disso.”

“Há muito mais gente que defende que o integralismo foi um movimento fascista do que o contrário”

Os neointegralistas negam também que o movimento seja de orientação fascista, como costuma ser classificado pela mídia, pela academia e pelos políticos. Segundo Victor Emanuel Vilela Barbuy, presidente da Frente Integralista Brasileira (FIB), o corporativismo adotado pelo regime fascista de Benito Mussolini (1883-1945) tem pontos de contato com o proposto pelo integralismo, mas é diferente, porque seria implementado de baixo para cima e não de cima para baixo, como ocorreu na Itália.

“O Plínio Salgado defendia a democracia orgânica, a democracia que ouve os grupos que formam a sociedade, de representação profissional, cultural, em contraposição à democracia liberal”, afirma Barbuy. “O Estado integral defendido pelos integralistas já nasceria das corporações e daria grande autonomia a elas.”

Hoje, na guerra de narrativas que assola o País, virou lugar comum a esquerda chamar os adversários de “fascistas”, a ponto de o termo ter perdido quase totalmente o significado original. Mas, no caso dos integralistas, na visão de pesquisadores e acadêmicos, tal categorização não representa apenas uma acusação vazia, para tentar descaracterizar o movimento.

“Esse é um debate denso, que envolve todo mundo que estuda o assunto, tanto quem está de um lado quanto quem está do outro, mas há muito mais gente que defende que o integralismo foi um movimento fascista do que o contrário”, afirma o jornalista Pedro Doria, colunista do Estado, que está finalizando uma biografia de Plínio Salgado, ainda sem título definido, a ser lançada no começo de 2020 pela editora Planeta. “O encontro do Plinio Salgado com o Mussolini transformou a cabeça dele. Quando ele voltou ao Brasil, um dia depois de estourar a Revolução de 1930, já era fascista, estava encantado com o fascismo.”

Na avaliação de Doria, dois pontos unem o integralismo ao fascismo, além da institucionalização do corporativismo: o caráter revolucionário do movimento, que se revela na proposta de implantar uma “democracia orgânica” no País, em lugar da democracia liberal, e a aversão aos partidos políticos, considerados como organizações que fragmentam a Nação.

“O fascismo é revolucionário. Num processo revolucionário, em essência, o que se pretende é transformar por completo a estrutura do Estado, implantar algo novo, totalmente diferente, e é isso o que propõe, em última instância, o integralismo”, diz Doria. “No fascismo, todos pertencem ao mesmo partido. O partido é a Nação.”

Segundo o professor Odilon Caldeira Neto, o caráter fascista do velho integralismo se mantém no movimento neointegralista, mesmo tendo se diluído no pós-guerra, com a derrota dos países do Eixo. “Na medida em que grupos como a Frente Integralista Brasileira procuram remeter a própria historicidade à experiência da Ação Integralista Brasileira, que foi a principal organização de tipo fascista não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, eles trazem o fascismo no DNA”, afirma.

“Chegar ao poder sempre foi nosso firme propósito. Respeitando o regime democrático, pretendemos ir galgando dentro do sistema”

Como os comunistas revolucionários, de orientação marxista-leninista, os neointegralistas afirmam defender a democracia, para ascender ao poder, mas admitem que, ao chegar lá, poderão implantar um novo sistema. “Num primeiro momento, haveria um aprimoramento do modelo atual, adaptando o que puder ser adaptado à democracia orgânica, sem acabar com a representação tal como existe hoje”, afirma Victor Barbuy.

“Chegar ao poder sempre foi nosso firme propósito. Respeitando as regras da Constituição, respeitando o regime democrático, como sempre fizemos, pretendemos ir galgando dentro do sistema”, acrescenta Moisés Lima, secretário nacional de Doutrina da FIB. “Nós imaginamos que, um dia, o povo brasileiro descubra quem ele é e neste caso estaremos no poder. Estamos trabalhando para isso.”

Outra questão polêmica é a categorização dos integralistas como movimento de extrema direita. “De acordo com o conceito moderno de esquerda e direita, não somos nem uma coisa nem outra”, diz Barbuy. Mas, para Caldeira Neto, os neointegralistas se situam à direita do presidente Jair Bolsonaro e de seus seguidores mais extremados e também do que ele chama de “direita radical”, que se caracteriza pelo respeito às regras do jogo.

“Embora tenha sido eleito democraticamente e afirme respeitar a democracia liberal, Bolsonaro estaria entre a direita radical e a extrema direita, por ter enunciado diversas vezes, ao longo de seus 30 anos de vida política, a possibilidade de quebrar as regras do jogo democrático”, diz. “Os neointegralistas ficariam no campo da extrema direita, porque buscam a subversão do sistema.”

Os neointegralistas se opõem à política externa de Bolsonaro, pela aproximação com Israel e com os Estados Unidos, e à política econômica liberal do Paulo Guedes

Apesar de terem apoiado a eleição de Bolsonaro e de o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ter encerrado seu discurso de posse com a expressão “Anuê Jaci”, que quer dizer Ave Maria em tupi – lembrando a tradicional saudação do integralismo e sugerindo seu apoio ao movimento – os neointegralistas parecem cada vez mais distantes do presidente e do governo.

Em publicações nas redes sociais, o escritor Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, chegou a afirmar, ao seu estilo, que o integralismo “é uma babaquice” e foi “uma coisa absolutamente insignificante”, talvez para ocupar o espaço de um concorrente que atua na mesma raia.  As divergências dos neointegralistas com Bolsonaro e a ala mais ideológica do bolsonarismo, porém, vão muito além das discussões “de comadres” entre os dois grupos.

Tirando o anticomunismo e as posições conservadoras de Bolsonaro no campo dos costumes, que os neointegralistas apoiam, eles engrossam a oposição nas críticas à política externa, pela aproximação com Israel e com os Estados Unidos, e à política econômica, pelas medidas liberais implementadas e defendidas pelo ministro Paulo Guedes.

Declaram ser contra também uma eventual intervenção militar hoje no País, apoiada por certas correntes do bolsonarismo. “Não há nada que legitime isso atualmente”, diz Lima. “É recomendável que a gente fortaleça a democracia e não fique chamando o Exército para nos resgatar o tempo todo.”

Os líderes do movimento sentem saudades do Bolsonaro dos velhos tempos, o Bolsonaro das posições corporativistas, desenvolvimentistas, nacionalistas e estatizantes, que marcaram a maior parte de sua trajetória política e que vêm à tona em certas ocasiões ainda hoje . “Nós não somos estatistas, defendemos o Estado necessário. Mas antes o Bolsonaro tinha posições mais próximos das nossas do que hoje”, afirma Barbuy. “A gente não está querendo que as medidas do governo deem errado. A gente quer que deem certo. Agora, isso não nos inibe de fazer críticas sadias.”

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