Insegurança alimentar atinge 83% das famílias

Maioria dos assistidos pelo programa passa fome, diz pesquisa

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

28 de junho de 2008 | 00h00

Uma pesquisa recém-concluída sobre o Programa Bolsa-Família, realizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), tem uma notícia boa e outra ruim para o governo. A boa é que o dinheiro distribuído pelo programa tem sido usado principalmente para melhorar a alimentação das famílias - exatamente como se desejava. Do total de 5 mil titulares do cartão pesquisados, 87% disseram que empregam o dinheiro em alimentos. "Aumentou a quantidade e a variedade dos alimentos consumidos", diz a pesquisadora Mariana Santarelli, do Ibase.A notícia ruim é que mesmo com a injeção de recursos entre as famílias mais carentes, elas continuam ameaçadas pela insegurança alimentar. Nas conversas com os pesquisadores, 83% dos titulares revelaram se enquadrar num dos três níveis em que se classifica a insegurança: grave, moderada e leve. No primeiro, o cidadão passa fome; no segundo, tem de reduzir a quantidade de alimentos da família, para que não falte; e, no terceiro, ele tem medo de não conseguir nada para comer no futuro próximo.No fundo, o que as famílias estão dizendo é que o sonho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda está longe. Em 2003, ao tomar posse em seu primeiro mandato, ele disse que sairia realizado do governo se cada brasileiro tivesse a garantia das três refeições.O texto de conclusão da pesquisa diz: "Mesmo com a percepção de aumento na quantidade e na variedade dos alimentos a partir do Bolsa-Família, a situação de insegurança alimentar é alta. Do ponto de vista das políticas públicas, o programa é importante para melhorar as condições de vida das famílias, embora, por si só, não garanta índices satisfatórios de segurança alimentar, questão associada a um quadro de pobreza mais amplo."RETRATONo governo, a notícia boa foi comemorada. "Isso desmente as informações de que as famílias usam o dinheiro para outros fins, além das necessidades imediatas", afirma Rosani Cunha, coordenadora da Secretaria Nacional de Renda e Cidadania, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. "Podemos dizer que o dinheiro está chegando a quem realmente precisa."Quanto à insegurança alimentar, Rosani diz que a informação precisa ser relativizada: "A pesquisa é um retrato. Não mostra a evolução que está ocorrendo entre as famílias beneficiadas."Ainda segundo Rosani, o fato de 28% estarem incluídos na faixa da insegurança alimentar leve revela o histórico das famílias, não o futuro: "A insegurança é típica de famílias que estão há muito tempo na pobreza."A pesquisa abrangeu 229 municípios e foi realizada com verba da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Segundo suas informações, 74% das famílias aumentaram a quantidade de alimentos consumidos depois que passaram a contar com o programa. O grupo de alimentos cujo consumo mais cresceu foi o dos açúcares.

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