Insatisfação na base aliada aumenta e já compromete agenda de votações

Polêmico debate do Código Florestal provocou fusão inusitada de partidos da base com a oposição; aliados reclamam de interlocução com Palácio do Planalto e reivindicam cargos no segundo escalão

Eugênia Lopes e Denise Madueño, de O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - A votação do projeto de Código Florestal deflagrou a primeira crise na base aliada da presidente Dilma Rousseff. Insatisfeitos com o conteúdo da proposta e com a demora no preenchimento dos cargos de segundo escalão, os aliados se uniram à oposição para derrotar o Palácio do Planalto. A fusão ameaça agora a agenda legislativa do Planalto. Além da votação do Código ter sido suspensa diante da insegurança do governo sobre sua aprovação, novas votações importantes para o governo podem ser contaminadas.

 

O esgarçamento da base é sintoma da centralização nas mãos do alto petismo das nomeações para cargos-chave.

 

 

As dissidências estão espalhadas por todos os partidos aliados. Um dos mais atingidos foi o PMDB, forçando o líder da legenda, Henrique Eduardo Alves (RN), a prometer à bancada que nada será votado enquanto não for desatado o nó do Código Florestal. No principal sócio do Planalto, a "rebelião" atingiu entre 50 e 57 deputados da bancada de 79 parlamentares.

 

O mesmo padrão de dissidência foi detectado nos demais partidos da base. Dos 27 deputados do PDT, cerca de 20 bandearam-se para o lado da oposição.

 

Agora, o projeto do Código Florestal ficará parado, pelo menos, nos próximos dez dias. O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), e líderes da base aliada estarão ausentes de Brasília na semana que vem. Cerca de 350 deputados votariam contra a proposta do Código Florestal, um placar resultante da poderosa articulação dos ruralistas com a insatisfação na base por conta da distribuição de cargos.

 

"Há uma insatisfação generalizada. A intransigência, a soberba e a arrogância do governo estão mexendo com os brios dos deputados", disse o deputado Moreira Mendes (PPS-RO), presidente da Frente Parlamentar de Agricultura. A avaliação é que o governo será derrotado em qualquer momento em que o Código for à votação.

 

Os relatos de líderes aliados com um número cada vez maior de defecções alarmaram o Planalto. O ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, telefonou para o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e pediu o adiamento da votação.

 

"O PMDB está dando uma nova oportunidade para o Planalto", afirmou o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), ao explicar os motivos que levaram os peemedebistas a não insistir na votação do Código na noite de quarta-feira, 11.

 

Impacto. A insatisfação na base interfere diretamente em propostas que o governo quer votar rapidamente na Câmara. Na semana que vem, Vaccarezza vai procurar os líderes partidários para tentar recompor um acordo que permita a continuidade das votações. Ele reconheceu que a suspensão da votação do projeto de Código Florestal foi um rompimento do acordo que havia sido feito com os líderes partidários e com a própria base.

 

"Eles têm razão de declarar guerra, mas eu não vou aceitar essa guerra", disse Vaccarezza. "Assumo que fiz o acordo e assumo que rompi. Estou pedindo um armistício", completou.

 

O rompimento do acordo compromete a votação de medidas provisórias, que perderão a validade no dia 1.º de junho. Uma delas é a MP 521, cujo texto foi incluído a proposta de um regime especial de licitação para as obras da Copa do Mundo e da Olimpíada.

 

O líder do governo avisou que o Palácio do Planalto não está disposto a fazer novas concessões no texto do Código.

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