Dida Sampaio; Gabriela Biló; Daniel Teixeira; Iara Morselli / Estadão
Da esquerda para a direita, os empresários Luciano Hang, Luís Felipe Belmonte, Otávio Oscar Fakhoury e Edgard Corona Dida Sampaio; Gabriela Biló; Daniel Teixeira; Iara Morselli / Estadão

Inquéritos expõem aguerrida ‘ala empresarial’ bolsonarista

Ao lado de blogueiros, youtubers e ativistas radicais, eles formam ‘brigada’ do presidente nas redes e fora delas

José Fucs, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2020 | 05h00

Eles são homens de negócios bem-sucedidos e construíram uma reputação respeitável em suas áreas de atuação. Como muitos empresários, apoiaram a candidatura de Jair Bolsonaro nas eleições e se mantêm fiéis a ele até hoje, mesmo em meio aos seus tropeços na Presidência, que deixaram legiões de eleitores arrependidos pelo caminho.

Mas eles não são meros apoiadores de Bolsonaro que resistiram às intempéries e fazem parte dos 30% do eleitorado que continuam a lhe dar suporte, como revelam as pesquisas mais recentes. Ao lado de blogueiros, youtubers, ativistas radicais e parlamentares bolsonaristas, eles representam uma espécie de “ala empresarial” da tropa de choque do presidente, no mundo real e nas redes sociais, e participam de forma aguerrida e muitas vezes truculenta do embate contra seus adversários. 

Nas últimas semanas, também ao lado de figuras exóticas que compõem as brigadas bolsonaristas, em especial a corrente mais ideológica, ligada ao escritor Olavo de Carvalho, esses empresários ganharam os holofotes não por seus feitos no mundo corporativo ou pelo envolvimento em esquemas de corrupção, mas pelas manobras ilegais que teriam realizado na arena política e na internet. 

Noticiário policial

Sob a suspeita de terem financiado a organização de atos antidemocráticos, a propagação de fake news e ataques virtuais a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), eles se tornaram alvos de investigações que correm na Corte e viram seus nomes rechearem o noticiário policial. Os inquéritos deram novo gás à investigação em curso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para apurar denúncias de impulsionamento de mensagens no WhatsApp, que teria ocorrido na campanha eleitoral.

Fazem parte da lista de investigados Luciano Hang, da rede de lojas Havan, o advogado Luís Felipe Belmonte, dono da Kasar Investimentos Imobiliários, o financista Otávio Oscar Fakhoury, que também atua no mercado de imóveis, Edgar Corona, fundador das redes Bio Ritmo e Smart Fit, o publicitário Sérgio Lima e o consultor de empresas Marcos Bellizia.

Eles foram objeto de operações de busca e apreensão da Polícia Federal, autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, relator tanto do inquérito que apura a disseminação de fake news quanto do que investiga a realização de atos antidemocráticos. Tiveram celulares e computadores confiscados, o sigilo bancário e fiscal quebrado e em alguns casos a retirada do ar de suas páginas e perfis nas redes sociais determinada pela Justiça.

Embora digam que “nunca” tiveram contato entre si pela via digital ou pessoal, com uma ou outra exceção, os empresários reagiram como se fossem participantes de um coro. Ouvidos pelo Estadão, eles se declararam “inocentes”, como fazem todos ou quase todos os envolvidos em processos judiciais. 

Com exceção de Bellizia, que não quis falar sobre o caso, alegando não ter tido acesso ao inquérito, os demais se disseram arautos da democracia e negaram ter financiado a realização de atos antidemocráticos e a propagação de fake news. Negaram também ter impulsionado ofensas a ministros do STF e se insurgido contra o Legislativo e o Judiciário. 

“Nada fiz de errado e estou com a consciência tranquila”, disse Hang. “Não organizei nada”, afirmou Belmonte. “Nunca financiei nenhum ato antidemocrático nem a propagação de fake news. Faço críticas a pessoas e não às instituições. Como diz o professor Adílson Dallari, um grande jurista, não se pode confundir as pessoas com as instituições”, declarou Fakhoury. “Nunca usei minha rede social para ofender nenhuma instituição ou ridicularizar pessoas”, disse Lima.

‘Pessoal da esquerda’

Corona, que entrou na mira do STF por ter supostamente se insurgido contra o Congresso num vídeo compartilhado com grupos de empresários no WhatsApp, negou ser apoiador ferrenho de Bolsonaro. “Não sou ‘empresário bolsonarista’”, afirmou. “O vídeo faz críticas à PEC (Proposta da Emenda Constitucional) da reforma tributária, usando dados verídicos.”

Alguns questionam a validade do inquérito das fake news. “Um fato tem várias versões. A versão que você adota depende do lado em que está”, disse Hang. “O que são os crimes de fake news? São calúnia, injúria e difamação, todos já previstos na legislação”, afirmou Fakhoury.

Segundo Belmonte até a classificação das manifestações bolsonaristas como “atos antidemocráticos” é imprópria. “Precisa acabar com essa mentira”, disse. Já tivemos casos de pessoas, o pessoal da esquerda, que tacaram fogo em ministério, quebraram o Itamaraty, invadiram o Supremo e ninguém falou nada. Agora, se meia dúzia fala bobagem numa manifestação com pessoas ordeiras, famílias, com a bandeira do Brasil, para apoiar o presidente, é ato antidemocrático? É brincadeira, né?”

Talvez, com a sequência das investigações, seja possível saber se os empresários que integram o “pelotão de frente” bolsonarista têm mesmo culpa no cartório. Ao menos até lá, ainda que pareça inverossímil, poderão continuar a posar de Madre Teresa de Calcutá.

‘Sob Suspeita’

Quem são os empresários que se tornaram alvos de investigações que correm no STF, como eles atuam politicamente e por que 

entraram na mira da Justiça:

Luciano Hang, 57 anos, dono da rede de lojas Havan

Atuação política - Fiel a Bolsonaro desde as eleições, é um de seus principais interlocutores na área empresarial. Defensor ferrenho do governo, coleciona polêmicas com opositores nas redes sociais e fora delas.

Suspeitas - Financiamento de disparos em massa pelo WhatsApp na campanha eleitoral e impulsionamento de fake news e ataques a ministros do STF nas redes.

Luís Felipe Belmonte, 66 anos, advogado e dono da Kasar Investimentos Imobiliários

Atuação política - Articulador e segundo vice-presidente do Aliança pelo Brasil, o partido que Bolsonaro tenta criar. Nas eleições de 2018, fez doações de R$ 3,9 milhões a vários candidatos. Hoje sem partido, é suplente do senador Izalci Lucas (PSDB-DF). É casado com a deputada Paula Belmonte (Cidadania-DF).

Suspeitas - Envolvimento na organização e no levantamento de fundos para a realização de atos antidemocráticos.

Otávio Oscar Fakhoury, 47 anos, financista e sócio da FKO Empreendimentos e Participações Imobiliárias

Atuação política - Próximo da ala mais radical do bolsonarismo, ligada ao escritor Olavo de Carvalho, foi tesoureiro do PSL em São Paulo, fez doações a candidatos da sigla em 2018 e financiou o site Crítica Nacional, que apoia Bolsonaro.

Suspeitas - Financiamento de atos antidemocráticos e impulsionamento de fake news e de ofensas a ministros do STF nas redes.

Edgard Corona, 63 anos, fundador das redes de academia Bio Ritmo e Smart Fit

Atuação política - Ex-membro do Instituto Brasil 200, criado pelo empresário Flavio Rocha, da Riachuelo. Como Rocha, deixou a entidade, que defende o liberalismo econômico e a pauta conservadora de Bolsonaro nos costumes, quando seu atual presidente, Gabriel Kanner, criticou a demissão do ex-ministro Sérgio Moro.

Suspeitas - Impulsionamento de fake news e de ataques ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, em grupos de empresários no WhatsApp.

Sérgio Lima, 41 anos, publicitário e CEO da agência S8.WOW e da Academia do ROI, de marketing digital 

Atuação política - Marqueteiro do Aliança pelo Brasil, ganhou influência junto a Bolsonaro em questões de comunicação. Presta serviço a deputados bolsonaristas investigados pelo STF e pelo Ministério Público. Avalia candidatura a vereador em São Paulo pelo PRTB.

Suspeitas - Envolvimento na organização e no financiamento de atos antidemocráticos.

Marcos Bellizia, 50 anos, sócio da SG Consulting, de gestão empresarial, e de empresas de administração imobiliária e de consultoria em tecnologia da informação

Atuação política - Ex-líder do movimento Nas Ruas, fundado pela deputada Carla Zambelli (PSL-SP), ajudou a organizar e a encorpar atos pró-Bolsonaro.

Suspeitas - Propagação de fake news e de ataques a ministros do STF nas redes sociais. 

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‘Eu nem sei o que é fake news’, afirma dono da Havan

Para o empresário Luciano Hang, a versão dos fatos que cada um encampa depende do lado em que está

Entrevista com

Luciano Hang, empresário

José Fucs, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2020 | 05h00

O empresário Luciano Hang, de 57 anos, dono da rede de lojas Havan, é um dos mais inflamados apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no mundo dos negócios. Alvo de uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que investiga o impulsionamento de mensagens pró-Bolsonaro pelo WhatsApp na campanha de 2018, Hang tornou-se suspeito também de bancar a propagação de fake news e de ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), no inquérito que corre na Corte para investigar a questão.

Nesta entrevista ao Estadão, ele fala sobre as investigações do TSE e do STF, sua relação com Bolsonaro e o apoio manifestado ao ex-ministro Sérgio Moro quando de sua saída do governo, que lhe rendeu apupos em série nas redes sociais por parte das brigadas bolsonaristas. Chamado de “Véio da Havan” por seus desafetos, Hang comenta também o suposto favorecimento que teria obtido do governo na liberação de uma obra pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o auxílio de R$ 600 que teria recebido na pandemia e as acusações de sonegação fiscal e de que passou a vender produtos da cesta básica nas lojas da Havan para poder abri-las durante a quarentena.    

O sr. é alvo de uma investigação no STF no inquérito das fake news e outra no TSE por impulsionamento de mensagens pelo WhastApp durante a campanha eleitoral. O que o sr. tem a dizer sobre o seu envolvimento nas investigações?

Tudo começou dez dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, quando saiu aquela notícia de que empresários tinham impulsionado mensagens pró-Bolsonaro pelo WhatsApp. Até hoje não apresentaram nenhuma prova de que aquilo era verdade, até porque eu não fiz isso. Na época, disseram até que tínhamos gastado R$ 12 milhões para disparar as mensagens. Fui alvo dessa investigação do TSE a pedido do PT, que quer cancelar as eleições de 2018, mas eu estou tranquilo. Nada fiz de errado e estou de consciência tranquila.

No caso do inquérito do STF, em que o sr. é suspeito de financiar a propagação de fake news, o que o sr. tem a dizer?

Eu nem sei o que é uma fake news. O que é uma fake news? Um fato tem várias versões. A versão que você encampa depende do lado que você está. Nas eleições, eu acho que todos os brasileiros participaram através do WhatsApp. Simplesmente atuei em grupos de WhatsAapp que eu montei. Fiz muitos vídeos, que eu publicava nas minhas redes pessoais do Instagram e do Facebook. O que eu produzi de conteúdo coloquei nas minhas redes. Então, estou muito tranquilo, porque não produzi nenhuma fake news. O que às vezes pode acontecer é você compartilhar algum vídeo que recebeu nas suas redes, mas isso é normal, porque todos os brasileiros nessas eleições trabalharam muito por seus candidatos.

O sr. atua muito nas redes sociais contra os adversários do presidente Jair Bolsonaro e do governo. Muitas vezes, o sr. manifesta sua opinião de forma enfática e talvez até agressiva. O sr. não acha que sai um pouco da linha em sua atuação nas redes?

Vou ser bem sincero. Sou um cara que tem muita energia. Em tudo o que eu faço, coloco muita energia. Você nota que, quando eu falo, falo com muita força. Quando escrevo, é a mesma coisa. Mas você pode verificar nas minhas redes que, neste ano, por exemplo, coloquei mais posts tentando unificar, unir os Poderes. Em março, no começo da pandemia, fui convidado a participar de um ato na Avenida Paulista começando a pandemia. Eu disse: “Pessoal, não é o momento de irmos para a rua. É o momento de nos unirmos. Não podemos além de ter uma crise na saúde, uma crise na economia e também uma crise política”. Então, não fui para as ruas. Em nossas lojas, em que a gente costuma colocar a bandeira do Brasil, cheguei a colocar bandeiras brancas pedindo paz, harmonia e mais atenção com a economia. Porque eu entendo que, se nós acertarmos a economia, isso vai contagiar a política. A forma de eu me expressar é sempre contundente. Fui líder estudantil lá atrás, na época da faculdade e da escola. Sempre fui uma pessoa de liderança, mas jamais querendo afrontar ninguém, apenas procurando mostrar o meu pensamento. Por isso, faço personagens. Tento mostrar de uma maneira lúdica para a sociedade aquilo que eu penso. Acho que é normal um brasileiro lutar pelo País e ter as suas posições. Nem sempre as minhas posições vão estar certas. Mas isso faz parte do jogo democrático brasileiro.

Já naquela época, como líder estudantil, o sr. atuava pela direita?

Você acredita, eu era de esquerda. Na época, havia dois partidos, o MDB e a Arena. Eu era MDB. Só me desfilei do MDB agora em 2018, um dia antes de eu me manifestar que seria um ativista político sem partido e sem querer ser político. Não tenho partido e nem político de estimação. Eu defendo ideias. Se as coisas não combinam com elas, eu falo contra. Entrei na política em 2018, no dia 5 de janeiro, como forma de ajudar a população a escolher um candidato, lutar por ele, para mudar o nosso País. Avisei que seria um ativista político. Desde então, a gente participa do dia a dia, em grande parte mostrando o que é correto. Sempre digo que nós não chegamos no fundo do poço de graça. Foram décadas e décadas de coisas feitas erradas e eu queria que o Brasil fosse um País com liberalismo econômico. Acredito que quando a economia vai bem, o povo vai bem e a saúde, a educação, a segurança, tudo vai bem. 

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Sou uma pessoa que tem posições e as defende com unhas e dentes
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O que o levou a dar essa guinada da esquerda para a direita?

Acredito que, quando houve a abertura política, o MDB, que na época passou a se chamar PMDB, pulou para a canoa errada. Deveria ter apoiado a redução do Estado, as privatizações, o enxugamento da máquina pública, menos Brasília e mais Brasil. É nisso que eu acredito. Uma das bandeiras que sempre levanto é a desburocratização deste país e ela passa pela redução da máquina pública. Lamentavelmente, partidos que estavam à direita levantaram essa bandeira com muito mais vontade e o PMDB passou a não querer privatizar portos, telefonia, nada. Aí, fui mudando o meu pensamento. Na realidade, hoje, sou um ativista mais econômico do que político, porque política não é fácil. Sou comerciante, tenho 57 anos, e até hoje não aprendi a ser comerciante e tenho certeza de que jamais vou aprender a ser político. É muito difícil.

O sr. diz que não tem partido nem político de estimação, mas é um dos mais aguerridos empresários em defesa do presidente Bolsonaro e do governo. Como o sr. explica isso?

Veja bem, as propostas colocadas na mesa desde o princípio que eu defendi foram a reforma da Previdência, a reforma administrativa e agora a nova lei do saneamento básico. Eu quero trabalhar essas propostas para o País, de redução da máquina pública, redução da burocracia. É isso que eu vejo no governo Bolsonaro, que eu apoio. Não me envolvo em coisas particulares e em coisas que eu não conheço.

Apesar de falar agora da bandeira branca, da pacificação, o sr. é alvo de vários processos por excessos cometidos nas redes. Já foi até condenado em processos envolvendo a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o reitor da Unicamp. Isso não é um sinal de que o sr. arruma muita confusão nas redes?

No caso do reitor da Unicamp, me passaram um áudio de uma cerimônia de formatura de alunos de tecnologia da informação, em que uma pessoa, que achavam que era o reitor, falava no final: “Viva la revolución”. Eu fiquei indignado, porque não aceito que uma universidade pública tenha um viés ideológico desses. Aí, eu coloquei o no meu Twitter. Na realidade, a pessoa que me passou o áudio havia dito que era o reitor, mas era uma alguém que naquele momento estava representando o reitor. Eu jamais mencionei o nome do reitor. Tenho o áudio, as fotos e os depoimentos das pessoas que estavam presentes, dizendo a pessoa que estava representando o reitor falou aquilo e que que eu apenas reproduzi o que elas haviam me falado.

Agora, o sr. não deveria ter checado se o áudio era mesmo do reitor antes de compartilhá-lo nas redes?

Era o representante do reitor. Naquele momento, na cerimônia ele era o reitor. Nós tentamos checar tudo o que botamos nas nossas redes, porque temos um compromisso com os meus fãs. Hoje, tenho 5 milhões de fãs no Facebook, 3,2 milhões no Instagram e mais 300 mil no Twitter. Então, temos a responsabilidade de checar as informações que soltamos.

No caso da OAB, o sr. também foi alvo de um processo.

Com a OAB, foi diferente. Bem no começo do mandato do presidente, ele queria fazer reformas trabalhistas, reformas previdenciárias, as reformas pelas quais todos nos lutamos, e a OAB se posicionou contra. Aí eu falei que lamentavelmente a OAB está sempre do lado errado. Eu posso dizer que nós ganhamos 90% das questões judicializadas por algum post que eu fiz. Os que nós não ganhamos estão na primeira instância e cabe recurso, como é o caso da OAB e do reitor da Unicamp.

O que quero dizer, independentemente da especificidade de cada caso, é que isso mostra que o sr. tem uma postura aguerrida, radical, na internet. Mais uma vez, o sr. não acha que se excede um pouco, não?

Eu sou uma pessoa do bem, animada, otimista, positiva. Você pode ver nas minhas redes sociais, estou sempre de bem com a vida. Agora, sou uma pessoa que tem posições e as defende com unhas e dentes. Os empresários poderiam ser mais protagonistas, defender suas ideias de liberalismo econômico, menos máquina pública, menos burocracia, que é o que estamos precisando. Eu gostaria de só defender isso. Até porque não sou político, não quero ser político, não entendo de política, não vendo para governo, não compro de governo. O meu negócio é fazer com que esse País funcione.

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Se vejo que algo está errado, não custa eu falar com o presidente e dizer o que eu penso
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A sua postura belicosa nas redes não acaba gerando muito ruído, não cria uma animosidade desnecessária para o País?

Na grande maioria das vezes, eu defendo. Não vou para o ataque. Eu vejo algo do outro lado afrontar o que eu acho certo e defendo a minha posição. Se alguém diz que não precisa fazer a reforma da Previdência, eu vou lá e coloco a minha posição. A mudança das redes sociais permite que você possa responder. Quando alguém fala alguma coisa com a qual você não concorda, pode dizer “não é bem assim”. É isso que faz com que a gente possa debater hoje as ideias de uma forma muito mais livre ideias. Anos atrás, eu não conseguiria dizer “não, isso não é bem verdade, não é bem assim, é assado”, quando alguém falasse mal de mim. De novo, um fato, várias versões. Nem todo mundo acha que você está certo quando escreve alguma coisa. Isso é a democracia, você ter várias opiniões e o povo ter a liberdade de escolher quem está certo e quem está errado.

Quando o sr. circula por aí, o que acontece? Muita gente o questiona, critica as suas ideias, suas posições?

Eu não consigo andar na rua. Não consigo mais visitar minhas lojas. As pessoas vêm me abraçar, tirar foto, agradecer as minhas posições. Durante décadas e décadas, essas pessoas não tiveram voz. Aliás, ainda não tem. Então, o que eu sinto das pessoas é um entrosamento com as minhas posições. Recentemente, fui no maior restaurante de Curitiba, o Madalosso, no qual cabem 5 mil pessoas sentadas. Naquele dia, um dos salões estava aberto e quando entrei as pessoas se levantaram e começaram a bater palma para mim. Eu me arrepiei, as pessoas que estavam comigo se arrepiaram. As pessoas vieram tirar foto comigo, disseram “continue, nós estamos do seu lado, o Brasil precisa mudar, nós precisamos de gente que fala a verdade, com coragem”. Nós precisamos ter posição. A minha posição pode ser diferente de outra. Isso é democracia, aceitar posições diferentes sobre o mesmo assunto.

Mudando de assunto, o sr. encontra o presidente com frequência e recebe uma atenção especial dele. Há várias fotos suas com ele desde a época da campanha. Como é a sua relação com o presidente. O sr. fala sempre com ele, dá conselhos para ele?

Na realidade, na campanha, eu me encontrei com ele em janeiro, em fevereiro de 2018. Depois, quando ele foi esfaqueado, fiz uma entrevista com ele e fui visitá-lo no (Hospital Albert) Einstein. Estive também na posse. De lá pra cá, estive com ele no dia 7 de setembro, na cerimônia de comemoração da Independência e fui na posse do ministro da Justiça um ou dois meses atrás. Estive ainda uma outra vez com ele em Florianópolis, quando ele passou pela cidade. Eu consigo contar nas minhas duas mãos as vezes em que estive com o presidente. Como ele é muito ocupado, evito procurá-lo. Eventualmente, eu o procuro para falar de alguma ideia que surgiu ou para relatar algo que está acontecendo, mas os contatos não são assim tão frequentes. Se eu vejo que algo está errado, se alguém me passa alguma coisa errada, não custa eu falar com o presidente e dizer o que eu penso. Agora, os contatos que tenho com ele são sempre no sentido positivo, de que nós precisamos acertar a economia e fazer com que esse País ande para a frente. É por isso que eu luto tanto. Gosto muito da equipe econômica do governo, das pessoas que estão lá se dedicando em favor do País.

Recentemente, naquela reunião ministerial de 22 de abril, o próprio presidente sugeriu que atuou para liberar uma licença do Iphan que o favoreceu. Como foi isso?

Mentira. Eu até perguntei isso pra ele. Como é que você soube do meu caso no Iphan? Eu lhe pedi alguma coisa? Ele disse não, Luciano, eu vi a sua live (sobre o assunto). O presidente me segue nas redes sociais. A primeira placa do “atrasômetro” que eu coloquei foi numa das nossas obras, na cidade de Rio Grande (RS). Na época, eu comentei do Iphan, que atrasa as obras por todo o Brasil. Aliás, agora, neste momento, eu estou para ligar duas hidroelétricas no Rio Grande do Sul, nas quais estamos investindo RS R$ 400 milhões, e não estou conseguindo porque o Iphan está parado com a pandemia e não libera as licenças. Ou seja, que país é esse que precisa de energia, que tem uma obra pra inaugurar, que está pronta, e não consegue ligar os geradores porque o Iphan está parado? O Iphan tem um prazo para isso, mas passa o prazo e eles não dão a licença. Essa é a questão. O prejuízo diário é astronômico, para uma hidrelétrica. Para uma loja também. Eu quero abrir, quero inaugurar, quero empregar, mas eles não têm pressa para nada. O presidente foi eleito para tentar desenferrujar a máquina pública. Tanto que se meteu lá no Inmetro e está tentando se meter em um monte de áreas, para deixar o Brasil livre para ser um país empreendedor.

Não é papel do Iphan zelar pelo patrimônio histórico e arquitetônico do País?

Sim, mas com celeridade. Eles sentam em cima dos projetos e nada sai. Nós não podemos ver o País se desenvolvendo, gerando emprego, se não saem os alvarás, se não saem as licenças, aquilo de que você precisa para trabalhar. Lamentavelmente, isso se deve à ideologia das pessoas que lá vão trabalhar e não têm pressa para fazer com que o País volte a crescer e gere emprego. É por isso que eu luto. Na Havan, fizemos uma loja em dois meses. Fizemos uma hidroelétrica em um ano. Sabe quantos anos demora para conseguir uma licença para fazer uma hidroelétrica no Brasil? Dez anos, dez anos, e isso brigando muito.

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Eu fiquei triste com a saída do Moro. Acho que ele foi uma pessoa importante para as mudanças em nosso País
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Outra questão quer apareceu nos últimos meses foi que o sr. recebeu o auxílio de R$ 600 na pandemia. Que negócio é esse?

Eu estou procurando os R$ 600 até agora. No meu bolso, não apareceu. Deve ser algo fake. Aliás, não foi só comigo. Eu vi que isso aconteceu também com vários artistas, com o Silvio Santos. Como burlam às vezes os nossos sistemas, para ganhar crédito na Havan para poder comprar alguma coisa, eles conseguem burlar o sistema do governo para conseguir esse dinheiro emergencial, o sistema dos bancos. Esse é o mundo digital que existe hoje. Eles pegam as informações através das bases de dados.

Uma palavra sobre a demissão do ex-ministro Sérgio Moro. O sr. se disse decepcionado com a demissão e manifestou apoio a ele nas redes. Isso lhe rendeu até muitas críticas entre os bolsonaristas. Como o sr. viu a saída do Moro? Esse episódio mudou a sua visão sobre o governo Bolsonaro?

Eu recebo críticas de ambos os lados, mas as críticas fazem parte da vida da gente. Falo o que eu quero e não dou bola para as críticas. Talvez seja esse o meu grande diferencial. Estou acostumado a críticas desde que era líder estudantil. Sou um cara público. Quando fui fazer a visita para o (deputado) Rodrigo Maia (presidente da Câmara), eu o abracei, fiz um vídeo com ele, porque ele queria apoiar a reforma da Previdência, e f ui escrachado. Faz parte. Se a gente levar a vida olhando pelo retrovisor, para tudo que é lado, ficar preocupado com o que as pessoas vão falar, você não faz nada. Eu sou autêntico.

O episódio do Moro mudou em alguma medida a sua visão do governo?

Eu fiquei triste com a saída do Moro. Acho que ele foi uma pessoa importante para as mudanças em nosso País, com a percepção da roubalheira, da corrupção endêmica instaurada no governo. Coloquei isso nas minhas redes sociais. Agora, eu prefiro ser pontual. Se o governo erra, eu critico. Se acerta, continuo apoiando. O governo é uma coisa muita complexa. Vejo muito falar sobre a Amazônia. Vejo muitas pessoas preocupadas com a nossa Amazônia. Qual o tamanho da Amazônia brasileira? Cabem mais de 30 países europeus dentro da Amazônia. Tenho lojas na região da Grande Amazônia, que engloba setecentos e poucos municípios, com 5,2 milhões de km². Você demora três horas de jato para atravessar a Amazônia. E o custo de cuidar da Amazônia é gigantesco. Então, nós temos de cuidar da Amazônia, mas não podemos esquecer das pessoas que vivem lá, para que elas possam subsistir. Acredito que temos de levar para fora também boas notícias do nosso País.

Recentemente, o escritor Olavo de Carvalho o criticou nas redes, afirmando que o sr. prometeu ajudá-lo e não fez nada. Em seguida, o sr. foi num grupo de WhatsApp, pelo que se relatou, e estimulou a organização de uma vaquinha para ajudá-lo, para ele “continuar lutando pelo Brasil”. O sr. acredita que o Olavo, com todas as polêmicas e intrigas que ele cria para o governo, faz bem ao País?

Vamos por partes. Um dia, de manhã, eu acordei e vi publicações nas redes dizendo que o Olavo tinha me chamado de Zé Carioca e que eu tinha prometido ajudá-lo quando da minha visita a ele em 2019, lá na Virgínia (EUA). Depois, ele explicou que havia me pedido que eu patrocinasse um programa dele numa TV aberta aqui no Brasil, coisa que não consegui fazer. Ele me pediu para que eu fizesse e eu não consegui. Naquela ocasião, fiquei umas quatro, cinco horas com ele. Gostei muito dele e fiz campanhas nas minhas redes sociais para o pessoal comprar livro do Olavo, para se inscreverem nos cursos dele. Eu mesmo me inscrevi. Sorteei cursos gratuitos do Olavo de Carvalho e você nota que, mesmo assim, ele vem e fala “Pô, Luciano, você prometeu me ajudar”. Aí, vendo que o que ele mais queria eram advogados para poder ajudá-lo nas causas que colocam contra ele, eu fiz uma live pedindo para o pessoal contribuir.

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Muitas vezes perguntei para o Bolsonaro se ele tinha contato com o Olavo e ele disse que não tem
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O sr. acha que o Olavo está certo?

Há coisas em que ele está certo e outras em que ele está errado. Na hora que ele está certo, eu aplaudo. Quando ele está errado, eu fico com a minha posição. É normal isso. Imagina se todo mundo falasse que o amarelo fosse bonito, o que seria do vermelho? O Olavo tem os seus posicionamentos polêmicos, mas, de novo, faz parte da democracia. Cada um tem que ter o direito de se manifestar e as pessoas que escutam tem de ter o direito de escolher se está certo ou errado. É a pluralidade de pensamento. Quando você só escuta um lado e não tem o contraditório, vai acabar achando que aquilo lá está certo. A partir do momento que tem outros lados, que falam outras coisas, pelo menos você vai poder escolher um lado. Eu vejo as pessoas dizerem que o Olavo é o guru do Bolsonaro. Muitas vezes, perguntei para o Bolsonaro se ele tinha contato com o Olavo e ele disse que não tem.

Mas os filhos do presidente têm.

Eu não sei. O Olavo vive uma vida simples nos Estados Unidos, não tem ostentação, não trabalha para ganhar dinheiro com o governo. Ele simplesmente tem uma posição e luta por ela.

O sr. fala muito no contraditório, em poder escolher um lado, mas há um grupo de bolsonaristas que não aceita muito bem as divergências.

Isso está errado. Muito bem falado. Nós precisamos escutar todo mundo e depois cada um toma a sua posição baseado na sua consciência. Esse negócio de que todo mundo tem de pensar igual está errado, para um lado e para o outro. Se eu me posiciono contra um e contra outro sou malhado. Eu não dou bola. Aceito críticas. Para mim, alguém que faz críticas ou alguém que fala bem é igual. Eu trabalho numa empresa que tem 20 mil trabalhadores e e prego o contraditório. Digo que todo mundo tem de se meter na área do outro. Na Havan, não tem essa coisa de área restrita ao diretor A ou B. O diretor A se mete na área do B, o B se mete na área do A. Tem pessoas que não entendem nada de um setor, mas têm de ter o direito de dizer o que acham de errado lá. É dessa forma que vamos melhorar a nossa empresa. É dessa forma também que nós vamos melhorar o País, com a pluralidade de pensamento.

Recentemente também surgiu uma notícia da Receita Federal sobre uma suposta sonegação da Havan. Sua empresa também é alvo de outros processos no Carf (Conselho de Administração de Recursos Fiscais). Um deles, de cerca de R$ 2,5 milhões, seria pelo não recolhimento da contribuição previdenciária patronal. Que pendências são essas?

Isso não é processo de sonegação. Sonegação é quando você faz alguma coisa por querer. Os processos vão para o Carf, quando há um litigio com a Receita. Somos uma empresa auditada há mais de dez anos pela Ernst & Young.  Então, nada se faz de errado. Esses R$ 2,5 milhões são relacionados ao patrocínio de times de futebol pela Havan. Na época, não havia a Lei Pelé e um fiscal tinha achado que era devido pagar os 5% de INSS em cima do patrocínio. Hoje, já existe uma lei para isso. Agora, quando você dá o patrocínio, o clube já desconta os 5% na fonte. Na época, não havia isso. Então, nós estamos discutindo esse pagamento na esfera administrativa. Depois, você ainda pode procurar a Justiça, se tiver um entendimento diferente. Para você ter uma ideia, no Carg, uma decisão do Carf chega a levar cinco, seis anos. Muitas vezes, nem o pessoal que trabalha no Carf sabe se aquela lei é ou não válida, é ou não é certa. Agora, 90% das decisões que estão no Carf ou na Justiça são pró-Havan. Se hoje eu estou discutindo R$2,5 milhões no Carf, R$ 50 milhões no Carf, devo ter R$ 500/600 milhões de decisões a nosso favor. Isso, pelo tamanho da nossa empresa, é pouco. A Havan faturou ano passado R$ 11 bilhões e pagou quase R$ 3 bilhões em tributos e benefícios.

Na quarentena, a certa altura, a Havan passou a vender arroz, feijão e outros produtos da cesta básica e, segundo alguns analistas, para poder abrir as lojas. Embora não seja ilegal a empresa vender esses produtos, o sr. não acha uma postura inadequada?

A Havan tem 34 anos de história e há algumas décadas ela já está enquadrada no Cnai (Cadastro Nacional de Atividades Econômicas) para vender produtos alimentícios. O nosso Cnai pode sim vender alimentos. No começo da Havan, a gente vendia alimentos. Aliás, eu vendo alimentos todos os meses, milhões de alimentos. Sou um dos maiores vendedores de chocolate do Brasil. Na Páscoa vendo de 100 a 200 milhões de ovos. Nós temos lojas enormes, com corredores enormes, e estamos vendendo alimentos em todas as lojas novas. Daqui para frente, nós vamos colocar alimentos, sim, em todas as nossas lojas, porque vimos que é mais uma forma de vendermos mais para a população. Nós vamos ser um grande vendedor de alimentos. Já vendíamos chocolates, outros tipos de alimentos, e agora vamos intensificar a venda de produtos básicos, em até cinco vezes sem entrada e sem acréscimo. Eu sempre falo que a crise é a hora de a gente se reinventar. Na pandemia, você vê sites que não vendiam alimentos vendendo, o delivery funcionando. A Havan é uma empresa que cria a cada momento de necessidade. Na pandemia, o nosso online cresceu 300% e a venda de alimentos nas nossas lojas está crescendo assustadoramente.

O sr. quer dizer que a venda de arroz e feijão na Havan não foi para furar a pandemia?

Se, neste momento da pandemia, eu tivesse mudado o meu Cnai só para fazer isso, seria uma sacanagem. Mas o meu Cnai é de dezenas de anos atrás. O nosso enquadramento é de hiper e supermercado. Mas, na realidade, o que é um hiper e um supermercado? É um estabelecimento de tamanho gigantesco, onde a mercadoria é colocada em gôndolas e ao final você paga em checkouts. É justamente o que a Havan faz. Nos Estados Unidos, 90% das vendas de uma Target e de uma Walmart são de não perecíveis e mesmo assim elas são consideradas hipermercados. Aqui no Brasil é a mesma coisa.

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‘Não se pode confundir as pessoas com as instituições’, diz empresário bolsonarista

Otávio Fakhoury, alvo de duas investigações no STF, vê “cerceamento à liberdade de expressão” no inquérito sobre propagação de fake news nas redes sociais

Entrevista com

Otávio Oscar Fakhoury, empresário

José Fucs, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2020 | 05h00

O financista Otávio Oscar Fakhoury, de 47 anos, que também atua no mercado imobiliário, é ligado à ala mais ideológica do bolsonarismo, influenciada pelo escritor Olavo de Carvalho. Investidor de primeira hora do site Crítica Nacional, que está entre os apoiadores mais fervorosos do presidente Jair Bolsonaro, Fakhoury participa de grupos de WhatsApp das brigadas bolsolavistas e muitas vezes dá o tom da reação do pessoal aos acontecimentos.

Nas últimas semanas, ele se tornou alvo de dois inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal federal (STF), sob suspeita de financiar a propagação de fake news e a organização de atos antidemocráticos.  Em entrevista ao Estadão, Fakhoury afirma que “nunca” financiou manifestações que pediam intervenção militar, com o fechamento do Congresso e do STF, e que o inquérito das fake news representa um “cerceamento à liberdade de expressão”. Ele fala também sobre suas doações na campanha eleitoral, diz por que apoiava o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e o que o levou a chamar o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira, de “traidor”.

O sr. é investigado em dois inquéritos que correm no STF para apurar o financiamento da disseminação de fake news e de atos antidemocráticos. Como se posiciona em relação a isso?

No inquérito das fake news, pelo que vi nos documentos a que tive acesso, o conjunto de provas é o meu Twitter. O meu Twitter é a manifestação da minha opinião pessoal. Então, a minha percepção é de que se trata de um cerceamento à liberdade de expressão. Sobre o outro inquérito, nunca financiei nenhum ato antidemocrático. Também nunca financiei disparo de mensagens de campanha, que é outra coisa que se levanta em relação a outros empresários. Agora, já ajudei atos 100% democráticos, como o de 26 de maio do ano passado, a favor da reforma da Previdência e do pacote anticrime, contribuindo para pagar o caminhão de som. Mas sempre foi tudo com nota fiscal, com CNPJ. Não cometi nenhum ilícito, nenhum crime.

Na campanha eleitoral de 2018, o sr. contribuiu com doações para a Bia Kicis, de Brasília, e o Luiz Philippe de Orléans e Bragança, de São Paulo, ambos eleitos como deputados federais. O sr. fez mais alguma doação?

Toda as minhas doações de campanha foram declaradas à Justiça Eleitoral. Além das contribuições para a Bia Kicis, de quase R$ 50 mil, e para o Luiz Philippe, de pouco menos de R$ 40 mil, houve uma contribuição para o PSL paulista, de R$ 45 mil e uns quebrados, que eles depois usaram para alugar caminhão de som e algumas outras coisas. Houve outras doações menores, para a candidatura do Rogerio Chequer e da Andrea Menezes, para governador e vice de São Paulo pelo partido Novo. A Andrea é muito minha amiga, foi minha colega de Merrill Lynch, quando eu trabalhava no mercado financeiro.

Para o ato de Brasília em 19 de abril, no Dia do Exército, em que houve aquelas manifestações pedindo intervenção militar e o fechamento do Congresso e do STF, o sr. fez alguma contribuição?

Não financiei esse ato de Brasília. Não saberia nem para quem mandar o dinheiro. Não conheço esse pessoal, a Sara Winter e a turma dela. A Polícia Federal sabe disso, porque meu celular já está com eles. Fizeram duas buscas e apreensões na minha casa, por causa de print de WhatsApp e de Twitter. Não tenho nada a esconder na minha vida. A PF já está com tudo lá e já sabe que não fiz nada de errado. Ao publicar a sentença dele no site do STF, autorizando a operação de busca e apreensão, o ministro Alexandre de Moraes não rabiscou nem o CPF nem o endereço residencial da gente.

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O que são os crimes de fake news? São calúnia, injúria e difamação, já previstos na legislação
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Em conversas suas no WhatsApp que vazaram no ano passado e mesmo em manifestações nas redes sociais, o sr. adota um tom bem enfático, até meio agressivo, em relação a parlamentares, ministros do STF e autoridades do governo. Isso não acaba estimulando o ódio na sociedade?

Você não vai achar uma postagem minha usando uma palavra de baixo calão. Filho disso, filho daquilo. Nunca xinguei ninguém. Eu não apago meus tuítes. Está tudo lá, é só conferir. Eu sou uma pessoa que acredita nas instituições. Se você procurar nas minhas redes, não vai me achar nunca pedindo fechamento de nada. Quando me manifesto, são críticas a pessoas e não às instituições. Como diz o Adílson Dallari, um grande jurista, professor titular de direito público e administrativo da PUC, não se pode confundir as pessoas com as instituições. Crítica faz parte da democracia. Critico figuras até do governo. Outro dia estava até criticando um ministro do Bolsonaro que achei que estava fazendo um mau trabalho e até pedia para o presidente tirar esse ministro.

Mas não precisa xingar para ofender alguém. Muitas vezes, o sr. também estimula as pessoas a criarem uma onda contra A, B ou C. É possível ver isso naquelas mensagens de WhatsApp que vazaram.

Não, eu não estimulo nada. Dou minha opinião. Nunca desejei mal a ninguém, no sentido de dizer “ah, essa pessoa tem que morrer”. Isso a gente vê por aí, as pessoas desejarem a morte de alguém. Isso não é do meu feitio. As críticas que eu faço às vezes são duras, mas não desejo mal a ninguém. Às vezes, você pode dizer que o cara é isso, que ele é aquilo. Se a pessoa se sentir ofendida ela pode me interpelar, pedir explicações. O ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, se ofendeu porque o Roberto Jefferson disse que ele teria sido advogado daquela facção criminal. Ele entrou com uma ação na Justiça pedindo explicações e uma ação de indenização por danos morais. Isso é um procedimento normal quando alguém se sente ofendido com uma postagem ou um comentário. Na verdade, o que são os crimes de fake news? São calúnia, injúria e difamação, já previstos na legislação. Só precisa ter uma queixa-crime. No inquérito das fake news, ninguém nem sabe direito que crimes estão sendo investigados ali.

O sr. é sócio e um dos principais financiadores do Crítica Nacional, que é um site que apoia o presidente Bolsonaro. Como é essa participação?

Sócio não sou. Todo mundo coloca que eu sou sócio e estou sempre fazendo essa retificação. Não me considero nem financiador. Sou colaborador. Hoje, existem várias formas de um portal obter colaboração online. No começo, quando não era muito comum, eu ajudei mais. Agora, o Crítica tem os canais de colaboração abertos, no YouTube, no Superchat, no Apoia-se. Hoje, eu praticamente nem estou colaborando mais com eles.

Agora, no começo o sr. teve uma participação ativa no financiamento do Crítica Nacional. Quanto o sr. investiu no site?

No começo, lá atrás, em 2016, eu ajudei, porque eles estavam precisando comprar computador, equipamento, essas coisas. Fiz uma média anual, pegando o começo, que era mais, e os anos seguintes. Deu cerca de R$ 30 mil por ano. Hoje, nada. Também não tenho nenhum tipo de ingerência sobre o que eles escrevem e publicam lá.

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Nunca alguém pegou um tuíte meu e me processou
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Muita gente atribui ao Crítica Nacional a propagação de fake news. Essa ligação com eles não coloca o sr. no mesmo barco?

Eu já discuti isso antes. Esse termo fake news é um truque semântico. O cara usa isso para rotular uma matéria de uma linha editorial que ele não gostou. Ou então o cara chama de fake news uma calúnia, uma injúria, e aí tem de processar o autor. O que eles fazem são editoriais com enfoque crítico. Agora, eu desconheço que tenham recebido uma única queixa-crime de calúnia e injúria até hoje. Como é que eles podem propagar fake news se ninguém nunca os processou? Nunca também alguém pegou um tuíte meu e me processou. Como eu disse, essa coisa de fake news é um truque semântico para aplicar uma censura em cima de alguém de cuja opinião você não gostou. Uma opinião não é passível de processo, a não ser que contenha uma injúria, uma calúnia ou uma difamação e o autor, caso seja condenado, tem de fazer a reparação.

Muitas vezes o sr. compartilha publicações que trazem informações falsas. Isso não o coloca como co-responsável pela propagação de fake news?

Se eu não sou o autor da matéria, não posso ser responsabilizado pelo que está lá. Não sou gerador de notícia. Não sou jornalista. Sou uma pessoa com opinião no Twitter. Se um dia alguém me convencer de que uma notícia que eu repliquei não condiz com a verdade, eu apago. Mas não tenho condições de sentar e falar “deixa eu ter certeza antes de publicar”. Quando chega uma notícia de uma fonte que tem alguma credibilidade, a gente vai lá e retuíta.

Acredito que cada um deve ser responsável por aquilo que divulga. Também tem a questão da boa fé e da má fé. Muita gente divulga fake news de má fé mesmo. Como é que fica isso?

Quando a gente divulga algo que nos passam, sempre pressupõe que foi de boa fé. Não tem má fé da minha parte em enganar as pessoas.

Recentemente, o sr. chamou o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira, de “traidor”, por ter criticado os ataques com rojões ao prédio do STF. O sr. apoia esse tipo de manifestação?

Eu não faria um ato desses. Não concordo com esse tipo de coisa. Agora, não gostei de vê-lo atacar isso e “passar pano” para quem está violando os direitos do cidadão. Acho que foi uma traição. O (deputado) Eduardo (Bolsonaro) não gostou do que eu falei. As pessoas da família Bolsonaro não gostaram. Isso mostra não sou pago por ninguém para dar minha opinião.

Qual é a sua relação com o presidente Jair Bolsonaro?

Eu não tenho relação pessoal com o Bolsonaro. Estive na presença dele duas ou três vezes, todas em eventos públicos. Nunca estive em privado com ele. Traduzi uma palestra para ele em Nova York durante a pré-campanha. Ficamos 1h30 juntos numa palestra, com mais pessoas. Depois, houve outro evento em Brasília e só. Agora, enquanto presidente, não o vi, não. Estive com ele antes de ser presidente.

E com os filhos dele, como é a relação?

Eu não tenho contato com a família Bolsonaro. O único filho dele que tem relação comigo, de conversa ou de amizade, é o Eduardo. Nunca conversei com o Carlos Bolsonaro, nem pela via digital nem ao vivo. Do Flávio Bolsonaro já apertei a mão uma vez só. Nunca conversei com ele também. Meu contato com o Eduardo foi porque o deputado Luiz Philipe de Orleans e Bragança, que é meu amigo, me pediu ajuda quando eles receberam o diretório do PSL em São Paulo. Ele disse que precisava de um tesoureiro, alguém que estivesse acima de qualquer suspeita, porque tinha esperança de que o partido pudesse acertar as contas no TSE e receber recursos do fundo partidário, o que nunca aconteceu. Durante os poucos meses em que fiquei lá, o partido não recebia dinheiro público. O dinheiro para pagar as contas vinha de doações pequenas. Então, nem se quiserem inventar uma fake news a meu respeito vão conseguir, porque não tinha dinheiro público lá na época. 

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O Weintraub fazia o que o presidente tinha pedido para ele fazer
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O sr. tem também uma relação próxima com o Filipe Martins, assessor internacional do presidente, não?

Não é próxima, porque o Filipe Martins é um cara difícil de falar. Durante a campanha, ele me apresentou algumas pessoas de movimentos de direita, mas depois que ele assumiu a assessoria do presidente é muito difícil eu falar com ele. Estive duas ou três vezes com ele neste período, no CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), num outro evento em São Paulo e num curso dele na Fundação Alexandre de Gusmão, em Brasília. Se você mandar uma mensagem para ele hoje, vai lhe responder daqui a um mês.

Também há pouco tempo, o sr. disse que, se o Bolsonaro demitisse o ministro Abraham Weintraub, da Educação, iria reavaliar seu apoio a ele. Isso aconteceu?

Eu reavaliei e continuo confiante no governo Bolsonaro. Tinha pensado uma coisa e depois vim a saber das ameaças que estavam sendo feitas ao Weintraub e à família dele, à esposa e à filha. Ele também queria sair do governo. Não é que foi embora chutado.

Por que a permanência dele era tão importante?

Não é que era importante. Ele estava cumprindo o que prometeu para o presidente, apesar das críticas que todo mundo fazia a ele. Então, pensei comigo: se o presidente tirar um cara que entregou tudo o que prometeu, será injusto. Depois, entendi que havia mais assuntos no meio.

O sr. apoiava o ex-ministro Weintraub? Em sua avaliação, ele estava fazendo uma boa gestão?

Sim. Ele fazia o que o presidente tinha pedido para ele fazer. Então não tinha porque eu não apoiar. A minha opinião sobre educação é que você tem de tirar os excessos. Na verdade, o excesso na educação hoje vem só da esquerda. Não tem ninguém com ideologia de direita na educação. É só entrar numa universidade. Se alguém levantar e falar que é de direita, vai ser linchado. Então, ele estava lutando contra os excessos, que são só de um lado, limitando a atuação das fundações, que trazem dinheiro internacional, e trabalhando contra certos focos de corrupção. Eu estava de acordo com essa gestão.

Para a gente terminar, em que pé está o seu caso hoje?

Eu já me entrei com uma petição me colocando à disposição para prestar os esclarecimentos necessários. Não tinha feito isso antes porque estava esperando o acesso aos autos. O acesso ao primeiro inquérito foi parcial. Já entendi que eles não vão dar acesso a tudo, o que é lamentável, porque pela Súmula 14 o acesso deveria ser total. Meu advogado entrou com uma queixa na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Ele está manifestando repúdio ao fato de não ter acesso total aos autos. No outro inquérito, recebi acesso oficial no final de junho. Logo em seguida protocolei um pedido me colocando à disposição. Estudei o que está no inquérito e me ofereci para ser ouvido na certeza de que não cometi nenhum crime. Também já pedi para eles restituírem meus bens, que eles podem copiar e devolver. Os HDs que eles levaram têm fotos da minha família, arquivo pessoal de fotos. Já deu tempo para eles copiarem tudo e me devolverem. Um cara de sistemas faz uma cópia física de um HD em duas horas.

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