Iniciativas isoladas preservam memória da Madeira Mamoré

A situação atual da Estrada de Ferro Madeira Mamoré não surpreende em nada os estudiosos e a população local. Em 1971 e 1979, a ferrovia foi objeto de duas licitações para venda do seu material como sucata. Quando não abandonados à beira da estrada pelos militares durante a construção da estrada de rodagem, locomotivas e vagões foram reduzidos a pedaços. Quilômetros de trilhos foram arrancados e utilizados como material de construção em casas de particulares ou plantados nas calçadas de Porto Velho e Guajará-Mirim para impedir o estacionamento de veículos. As licitações, organizadas em surdina pela antiga Rede Ferroviária Federal S/A, foram abortadas a tempo graças às denúncias do historiador Manoel Rodrigues Ferreira e do presidente da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, Juarez Spaletta. ?Em 1971, ex-funcionários viram um major do Exército juntar toda a papelada da administração da Madeira Mamoré no pátio da estação e despejar gasolina em cima. Os que testemunharam a cena chegaram a tempo para retirar alguns prontuários do fogo?, conta o historiador Manoel Rodrigues Ferreira, que em 1960 publicou a mais completa pesquisa histórica da estrada de ferro no Brasil, A Ferrovia do Diabo.Na tentativa de resgatar a documentação histórica da ferrovia, o arquiteto Luiz Leite de Oliveira, de Porto Velho, vem desenvolvendo um projeto de reconstituição computadorizada da obra. ?É preciso que o governo assuma uma vez por todas a importância histórica e o potencial turístico da Madeira Mamoré?, diz o arquiteto. Memória ferroviária Museu Paulista Autoridades visitam trecho concluído da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no período entre 1907 e 1912.Por enquanto, a memória ferroviária, entre Porto Velho e Guajará-Mirim, sobrevive graças a iniciativas isoladas da população. Dionísio Shockness, por exemplo, documentou com afinco os seus 35 anos de serviços na Madeira Mamoré. ?Dou palestras em universidades e colégios, ajudei a restaurar máquinas também?, diz ele. Vanda e Aldaïse, as zeladoras do museu da ferrovia, fizeram um pequeno investimento pessoal. Fotocopiaram uma velha edição de A Ferrovia do Diabo de Manoel Rodrigues Ferreira. ?As pessoas sempre perguntam da história, então decidimos ler para contar?, explicam as zeladoras. Em Guajará-Mirim, quando o ferroviário José Máximo Lemos não está trabalhando na prefeitura, cuida da manutenção dos poucos quilômetros ainda praticáveis da linha. Filho de maquinista, José construiu a modesta casa à beira dos trilhos. Estaciona à porta de casa o trole ?a motor? que utiliza para trabalhar na linha. Já levou prestigiosos turistas até a colônia do Iata, no quilômetro 330 da estrada. Em agosto de 2001, o atual presidente da República da Eslováquia, Rudolf Schuster, foi um deles. ?Tinha uns 10 guarda-costas agachados num só trole atrás da gente. O presidente sentou neste banquinho, e sorriu sem dizer nada durante a viagem toda?, lembra o ferroviário.

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