Inflação alta entra no debate sobre reajuste do mínimo

Alta dos preços atinge principalmente os mais pobres; especialista e governo dizem que perda é 'pequena e momentânea'

Fabio Graner e Renato Andrade,

13 de fevereiro de 2011 | 23h00

Além do impacto nas contas públicas, a discussão sobre o reajuste do valor do salário mínimo tem um novo ingrediente: a escalada da inflação, que tem pesado bem mais no bolso da camada mais pobre do Brasil. Pior: a inflação está mais alta também nas regiões mais pobres, do Norte e o Nordeste.

 

 

 

O economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reconhece que um reajuste menor do salário mínimo num contexto de inflação em alta pode gerar uma perda de renda para o trabalhador, mas é preciso considerar, alerta, que essa queda é "pequena e momentânea". Isso porque a política defendida pelo governo garantirá no ano que em um reajuste bem acima da inflação.

 

 

Na semana passada, o Banco Central apresentou em Salvador (BA) dados mostrando que no último trimestre de 2010, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial de inflação, ficou acima da média nacional nas regiões Norte e Nordeste, as mais pobres do País e onde o governo Luiz Inácio Lula da Silva garantiu seu recorde de aprovação e a eleição de Dilma Rousseff.

 

 

Segundo o BC, enquanto nessas duas regiões a inflação subiu 2,78% e 2,49% no último trimestre do ano, respectivamente, o IPCA nacional ficou em 2,23%. Para o órgão responsável por zelar pela estabilidade de preços, esse movimento decorre da alta nos preços dos alimentos, que nessas regiões têm peso maior na cesta de consumo em comparação com o resto do País.

 

 

Outro dado que reforça o cenário de perda maior do poder de compra pelos mais pobres é o aumento da cesta básica, que na média nacional subiu 15,8% nos 12 meses encerrados em janeiro (segundo dados disponíveis na página do BC).

 

 

Dessa forma, a reposição do valor do salário mínimo apenas pela inflação cheia, representa, na prática, perda real de renda para parte significativa da população brasileira. Apesar desse cenário, a presidente Dilma demonstra firme disposição de gastar parte de sua popularidade herdada de seu antecessor para aprovar somente o valor de R$ 545, que faz parte da estratégia de recolocar as contas públicas em ordem.

 

 

Uma fonte da área econômica argumenta que essa perda de renda real de quem ganha um salário mínimo ocorre apenas no curto prazo, já que no médio prazo a atual política garante que essa parcela da população se aproprie do crescimento da renda nacional. A fonte lembra que no ano que vem, por exemplo, o mínimo terá um aumento real da ordem de 8%. Além disso, salienta, os preços de alimentos são voláteis e, do mesmo jeito que agora estão corroendo mais a renda dos pobres, poderão no futuro cair, ampliando, na prática, a sensação de bem-estar e maior poder de compra das pessoas.

 

 

Para o economista Mansueto Almeida, o aquecimento do mercado de trabalho é outro fator que precisa fazer parte da discussão. "Numa conjuntura como a atual, onde o mercado de trabalho está aquecido, o impacto do salário mínimo é menor. O trabalhador tem condições de arrumar um emprego com salário mais alto, independente do reajuste concedido ao mínimo", lembra.

 

 

A inflação em alta deve ser encarada, na verdade, como uma das razões para o governo evitar reajustes muito altos. "A conjuntura não é favorável a grandes elevações do salário mínimo. Se isso acontecer estaremos colocando mais lenha na fogueira da inflação", pondera Almeida.

 

 

 

 

O impacto do mínimo sobre as contas públicas também não pode ser desconsiderado. Pelos cálculos do economista, a cada R$ 1 de elevação do mínimo o governo federal arca com uma despesa adicional de R$ 286 milhões. Portanto, para sair dos R$ 540 inicialmente propostos pelo Planalto para R$ 560, como defendem algumas centrais sindicais e partidos de oposição, o impacto para os cofres públicos seria significativo. "Uma elevação de R$ 20 do mínimo pode custar quase R$ 6 bilhões", diz.

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