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Indo à forra

Presidente Jair Bolsonaro governa com o espírito de ‘agora é minha vez’

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2019 | 05h00

A vitória de Jair Bolsonaro, contra o establishment e todas as previsões, e quebrando um ciclo de alternância de poder no campo da centro-esquerda, levou ao poder um presidente e um entorno imbuídos do sentimento de revanche. “Agora chegou a nossa vez”, parecem pensar, ou mesmo dizer, a cada anúncio de casuísmos travestidos de políticas públicas.

Depois de anos acusando a esquerda de vitimização e de fazer mimimi identitário, o que mais se vê são os filhos do presidente, ministros e assessores colocados em cargos para aparelhar o Estado com uma conversinha jeca de que a direita passou anos sufocada, lendo Olavo de Carvalho quase como sinal de resistência heroica, e agora foi finalmente reconhecida pelo povo oprimido pela sua superioridade ideológica e, portanto, está legitimada para empurrar essa agenda goela abaixo da sociedade, do Congresso, do Judiciário e de quem mais ousar reclamar.

Bolsonaro foi multado praticando pesca submarina em local proibido? Revogue-se a multa! Libere-se a pesca! Vamos transformar a região de Angra dos Reis na Cancún brasileira.

Estudo de impacto ambiental e de viabilidade turística da região? Para quê, ora bolas? O presidente curte esse esporte, um dos poucos que poderá praticar agora, depois do atentado que sofreu. Vamos liberar logo, de preferência por decreto.

O “capitão” adora armas, paixão que passou para os filhos 01, 02 e 03. Passou a vida como parlamentar do baixo clero defendendo essa pauta, que levou à campanha eleitoral e aos discursos de posse. Então vamos tratar de liberar a posse e o porte de armas, sempre por decreto.

Ao voluntarismo e aos caprichos de um presidente ansioso em transformar o Brasil na extensão de seu condomínio na Barra da Tijuca somam-se a legião de fanatizados e os lobbies interessados na liberação das armas.

Diante de tal conluio, às favas com escrúpulos mínimos, como verificar a constitucionalidade de se mudar a legislação por decreto quando o próprio ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, tem projeto de lei a respeito e deu inúmeras entrevistas admitindo que, diferentemente da posse, o governo sabia que não poderia mexer no porte sem que isso passasse pelo Congresso.

O mesmo espírito de “agora é a nossa turma que está no poder” perpassa políticas ambientais, educacionais e culturais. Bolsonaro sempre foi criticado nos meios universitários, intelectuais e artísticos? A hora é de implodir isso aí, talquei? Ir à forra, jogar o peso do Estado sobre os antigos detratores, nem que seja ao custo de provocar a paralisação de pesquisas, estigmatizar toda uma indústria que gera emprego e renda, como a da cultura, e condenar alunos de Humanas à asfixia de seus cursos. O que vale é a narrativa, é esmagar o inimigo, nem que seja imaginário.

Tudo isso anabolizado por postagens delirantes do filho estrategista e que mostram um fascínio indisfarçado pela perversão: assim como o vídeo do golden shower brotou primeiro nas redes militantes e foi alçado à expressão do carnaval brasileiro, cenas de pessoas peladas ou de sexo grupal são postadas e enviadas por WhatsApp como se representassem o dia a dia das universidades públicas. É ridículo e acintoso que autoridades adotem esse tipo de mentira de forma deliberada.

Mas a cantilena está cansando e não cola para além dos convertidos e defensores da revanche. Bolsonaro deve enfrentar protestos robustos nesta quarta-feira contra o desmonte da Educação. Seria de bom alvitre entender que governar não é decorar a casa com as bugigangas cafonas de que gosta, mas propor políticas baseadas em necessidades, dados e evidências e que atendam à maioria da população, independentemente de sua ideologia ou de em quem tenha votado.

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