Índios e funcionários da Funai sofrem ameaças no MT

Ameaças seriam em razão do processo de reavaliação das terras dos índios enawene-nawe

Agência Brasil

04 de setembro de 2007 | 20h15

O clima de tensão instaurado na cidade de Juína (MT) em razão do processo de reavaliação das terras dos índios enawene-nawe é "bastante preocupante". A constatação é do chefe da Fundação Nacional do Índio (Funai), na cidade, Antônio Ferreira de Aquino.  Aquino conta que a sede da fundação no município foi invadida por fazendeiros contrários à ampliação das terras indígenas um dia depois de um grupo de ativistas e jornalistas estrangeiros terem sido forçados a deixar a cidade, sob escolta policial.  Na ocasião, Aquino, que estava em reunião com o engenheiro florestal Fabrício Estephanio, diz que foi ameaçado. "Eles (os fazendeiros) deixaram a mensagem de que, se a terra indígena for demarcada, nós (os servidores e os indígenas) teríamos problemas", relata.  Estephanio, que trabalha desde 1998 com os Enawene-Nawe, é um dos postulantes a uma vaga no grupo que fará o estudo antropológico e ambiental na área em disputa, que tem aproximadamente 200 mil hectares e fica na região noroeste do Estado, sendo conhecida como Gleba do Rio Preto.  Após as ameaças, o engenheiro se diz temeroso caso venha a ser chamado para preparar o laudo: "Acho interessante que fosse alguém de fora. Moro numa cidade ao lado de Juína e realmente se corre esse risco de retaliações no decorrer do processo ou mesmo após". Apesar do receio, Estephanio diz que vai aguardar a resposta final da Funai quanto à formação do grupo para tomar alguma decisão. O temor de algum incidente é compartilhado com Aquino, que sugere que os integrantes do futuro grupo de estudo realizem a análise acompanhados da polícia: "Sugiro que os técnicos que irão fazer a revisão de área dos índios em Juína venham escoltados. Não recomendo que venha só". Segundo o funcionário da Funai, também há grande preocupação com a generalização da violência contra os indígenas: "Muitos fazendeiros não distinguem uma etnia da outra, por isso pode ocorrer problemas com os outros índios".  Os possíveis problemas relatados por Aquino foram vivenciados ontem (3) pelo presidente do Conselho de Saúde Indígena de Juína, Jaime Zehmay, da etnia Rikbatsa. "Recebi uma ligação dizendo que era para eu tomar cuidado com a minha mão e com a minha língua", relata. "Por estar à frente da saúde indígena na região, os fazendeiros acham que sou eu que estou fazendo os documentos e divulgando-os." O prefeito de Juína, Hilton Campos, nega que exista um "ambiente de tensão" na cidade. "A cidade de Juína não é terra sem lei, nunca existiu esse clima e nem vai existir" afirma. "Ninguém vai mexer com ninguém", acrescenta. Indagado sobre a possibilidade de o grupo de técnicos da Funai ser proibido de ter acesso à área em disputa, como aconteceu com a equipe de jornalistas e ativistas, ele respondeu: "Primeiramente é preciso que seja feita uma audiência pública para debater o assunto".  Segundo a assessoria do Greenpeace, outros ativistas e lideranças indígenas também estão sofrendo ameaças de morte, por isso a entidade tomou a iniciativa de pedir apoio do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, para tentar solucionar os conflitos.

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