Índios articulam aliança com MST

Os indígenas brasileiros estão articulando uma aliança com o Movimento dos Sem-Terra (MST) para promover uma onda de invasões nas áreas cuja demarcação reclamam junto ao governo. O cacique Jercinaldo Saterê-Awé, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), afirmou que os índios ainda não esgotaram seu voto de confiança no governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas advertiu que a paciência está no fim e a parceria com o MST pode ser acionada. "Se continuarem a ignorância contra o índio, não nos resta outro caminho senão essa estratégia, que não é boa para a imagem do País, mas infelizmente é a única que surte efeito", afirmou. Representantes de 20 etnias entregaram ontem ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, um documento detalhando as quase 200 terras indígenas não demarcadas, mal delimitadas, com homologação pendente ou alvo de disputa fundiária. A principal delas é a reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, de 1,67 milhão de hectares, cuja homologação é disputada desde 1998. Bastos afirmou que o governo tem um compromisso afetivo e ideológico com a causa indígena e garantiu que, até o fim do mandato de Lula, todas as terras indígenas demarcadas no País serão homologadas. Os índios abrandaram o discurso depois de o secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho, ter confirmado, ontem de manhã, que eles serão recebidos em audiência por Lula no dia 10 de maio. Mesmo assim, os líderes não pretendem abrir mão da mobilização e das articulações com o MST, que começaram em 2001, por recomendação de missionários das Pastorais da Terra e Indígena. Thomaz Bastos também prometeu uma solução para a Raposa Serra do Sol até o fim do mês. Os líderes indígenas decidirão hoje se mantém até o dia 10 o acampamento que montaram na Esplanada dos Ministérios. Do total de 620 terras indígenas no País, 422 estão demarcadas. Dessas, 24 foram demarcadas no atual governo. Para este semestre, estão previstas mais 18 demarcações. EstratégiaA estratégia dos indígenas inclui retomar propriedades ocupadas por fazendeiros em Estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Eles reivindicam também a desconstituição de povoados, como o existente em Raposa Serra do Sol, construídos em terras tomadas de índios durante a expansão da fronteira agrícola, durante o regime militar. A maior parte desses povoados fica no Norte e Centro-Oeste. Os índios aprofundaram a luta pela retomada de suas terras nas últimas décadas, quando passaram a contar com assessoria de antropólogos da Funai. Uma comunidade guarani no Rio Grande do Sul, sem meios de sobrevivência, tomou por hábito ir catar lixo num container na entrada do povoado mais próximo. A população, porém, colocou cães para vigiar o container. "Nos sentimos humilhados", disse Maurício Guarani, líder da comunidade. "Confiamos no governo Lula, mas exigimos que ele cumpra os compromissos." O cacique Marcos Xucurus, de Pernambuco, denunciou que tem sofrido seguidas ameaças de morte desde que passou a defender métodos de retomada de terras indígenas semelhantes aos do MST. A aliança, segundo ele, é crescente e tende a "dar mais resultados". O Ministério do Desenvolvimento Agrário e a área de inteligência do governo têm conhecimento das articulações entre o MST e o movimento indígena, mas não levam a sério as ameaças por razões culturais. Os índios, conforme acreditam, têm motivação religiosa e só aceitam terras com alguma ligação com sua tradição e cultura, enquanto o MST quer qualquer terra que seja produtiva.

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