Indígenas querem administrar a Funai em Dourados (MS)

Líderes indígenas viajarão para Brasília para anunciar sua pretensão de administrar a Funai até o início de 2013

Montezuma Cruz - Especial para o Estado de S. Paulo,

24 de outubro de 2012 | 16h58

CAMPO GRANDE - Líderes indígenas de Mato Grosso do Sul viajarão para Brasília nos próximos dias para anunciar sua pretensão de administrar a Funai no município de Dourados, o mais tardar até o início de 2013.

Índios guarani e kaiowá antevêem mais mortes coletivas, se dizem "sem opções" e, numa carta aberta às autoridades federais e estaduais suplicam que "sejam mortos e enterrados ali mesmo".

"Queremos ser enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso pedimos ao governo e justiça federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos o decreto da nossa morte coletiva e para nos enterrar aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos", dizem.

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em nota esclareceu que os índios não falam em suicídio coletivo, mas sim em mortes coletivas, que podem ocorrer no enfrentamento de quem desejar tirar a terra que eles consideram deles, em Iguatemi, interior do Mato Grosso do Sul.

Desde 1980, 1,5 mil índios tiraram a própria vida. "Este é o mais triste e desafiador desabafo em séculos de história", constata Egon Heck, um dos coordenadores o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). "A impunidade é a maior agressão cometida contra eles", afirma o coordenador da entidade no estado, Flávio Machado.

"Queremos a garantia para que um índio assuma, de fato, a nossa coordenação em Mato Grosso do Sul", diz Renato de Souza, um dos líderes do movimento, em Dourados, a 228 quilômetros de Campo Grande. "Você vai na Funai e não vê um índio, só tem branco trabalhando. Precisamos de pessoas que realmente conheçam a nossa realidade", queixa-se.

De todo do País, 62% dos assassinatos a índios ocorrem nesse estado e, de acordo com o IBGE, 20,5% dos seus 77 mil indígenas vivem fora das terras. No mês passado, o Conselho da Aty Guasu Kaiowá Guarani, organização tribal que cobra os direitos indígenas, decidiu denunciar à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) a violência e os maus-tratos contra indígenas nesse Estado.

Em 35 anos de história recente, desde meados dos anos 1970 - quando surgiram as primeiras lavouras de soja no município - até a instalação das destilarias de álcool, nos anos 1980, agravaram-se os problemas nas regiões de Dourados e na fronteira brasileira com o Paraguai. Cada qual em sua atividade, pastores evangélicos, fazendeiros, o consumo de drogas, bebidas alcoólicas, a expulsão de famílias inteiras de terras com delimitações contestadas judicialmente, e a utilização da mão de obra kaiowá em destilarias de álcool, aumentaram o calvário desses povos.

Terras. Medida liminar da Justiça Federal em Naviraí, a 360 km de Campo Grande, concedeu no final de setembro a reintegração de posse a fazendeiros contra os índios guarani e kaiowá da margem do Rio Hovy, no município de Iguatemi, entretanto, eles estão assentados fora das terras, constata a própria Funai.

Para os coordenadores do Cimi, a identificação, declaração, demarcação e homologação das terras indígenas no País tem sido lento, sensível a pressões de grandes proprietários de terras, notadamente em Mato Grosso do Sul, considerado um dos estados com maior índice de violência contra indígenas.

Divididos em 43 grupos familiares, 14 mil dos 43 mil guarani e kaiowá, ocupam apenas 3,5 mil hectares de terras em Dourados. Mais de mil são carroceiros ou trabalham desde a madrugada no corte e no transporte de cana de açúcar para usinas em Rio Brilhante. A realidade na região fronteiriça é pior: a exemplo dos sem-terras, atualmente famílias indígenas vivem acampadas, fora do território tradicional.

O documento enviado à Funai, em Brasília, ao Congresso Nacional denuncia que os índios estão à míngua, "alimentando-se apenas uma vez por dia". "Passamos isso dia-a-dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. No centro dele estão enterrados vários os nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós. Ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados". Nessa terra vivem 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Cercados por pistoleiros, eles vivem desassistidos, à beira do rio.

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