Índice ajudará prefeitos a mapear pobreza

Municípios poderão consultar IDF ao projetar seus investimentos sociais

Lisandra Paraguassú, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2008 | 00h00

De todos os problemas sociais carregados pela população mais pobre do Brasil, a falta de acesso ao trabalho é, hoje, o maior deles. São pessoas com baixo nível de educação, pouca renda e perspectivas de futuro menores ainda. Ontem, no lançamento oficial do Índice de Desenvolvimento Familiar (IDF) - apresentado com exclusividade pelo Estado no último domingo -, o economista Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), criador do índice, reconheceu que essa é hoje uma característica importante da pobreza brasileira. "É um grupo que terá dificuldade de se beneficiar do crescimento econômico. Podemos ter resolvido, ou quase, a questão da habitação, os filhos podem estar na escola, bem alimentados, recebendo atendimento de saúde, com água tratada e eletricidade, mas não se melhorou o acesso a bons postos de trabalho", afirmou Paes de Barros.O IDF foi criado pela equipe do Ipea para analisar o grau de pobreza das famílias que fazem parte do Cadastro Único, um levantamento nacional que registra todas as famílias do País que têm renda per capita inferior a meio salário mínimo, estejam elas no programa Bolsa Família - aquelas que têm renda ainda menor, de R$ 120 per capita - ou não. Para medir o quão pobres são os mais pobres do Brasil, o índice analisa escolaridade, vulnerabilidade, acesso ao trabalho, renda, desenvolvimento infantil e condições de moradia.A partir da próxima semana, todos os dados do IDF estarão disponíveis para que as prefeituras possam olhar cada família do seu município. Ali, com nome e endereço, estarão disponíveis todas as respostas dadas pela família sobre cada problema. "Se há um programa de saneamento, poderemos ver no cadastro onde estão as famílias que mais precisam", diz Lúcia Modesto, secretária de Renda e Cidadania do Ministério do Desenvolvimento Social."O mais relevante para essas famílias que estão fora do mercado é que políticas vamos ter de agregar para chegar a elas", explica a secretária. "É para isso que vamos usar o IDF. Vamos conseguir saber o que falta a cada uma delas e priorizar."Em 61 cidades do País, o IDF de trabalho é 0. Em mais de 3 mil, só alcança 0,05 em uma escala que vai de 0 a 1 - inclusive na cidade mais rica do País, São Paulo. Isso não significa que na capital paulista não haja empregos. Mas eles não servem para essas pessoas que vivem hoje da assistência do Estado."A pobreza tem hoje muito a cara desse pessoal que está em São Paulo e tem muita dificuldade de conseguir emprego, o desempregado de longa duração", diz Paes de Barros. "A verdade é que se achava que era muito difícil chegar aos pobres mais estruturais, os pobres da vida inteira, mas se está chegando e se precisa de mais para cuidar desses pobres."É uma pobreza que, mesmo em cidades mais ricas, pode parecer sem futuro. Não apenas pela inexistência de empregos na cidade - mesmo que isso seja verdade em vários lugares -, mas também porque os mais pobres não têm os requisitos para conseguir os que existem.Como mostrou o Estado, depois do acesso ao trabalho é a educação o indicador menos favorável dessas famílias. Enquanto as crianças estão na escola, empurradas pelas obrigações do Bolsa-Família, sobram analfabetos e analfabetos funcionais entre os adultos que precisam trabalhar para garantir o sustento.

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