Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Indefinição sobre Ceagesp atrasa investimentos privados

Cronograma de projeto iniciado em acordo com a Prefeitura previa operação de novo entreposto neste ano

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 13h00

Anunciada pela Prefeitura de São Paulo ao final de 2016, após revisão do zoneamento da região Noroeste e acordo com investidores privados, a construção do Novo Entreposto de São Paulo (NESP) para abrigar as atividades da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) privatizada e ampliar os serviços de central de distribuição de frutas, verduras, pescado e outros produtos perecíveis, como flores, deveria estar concluída ainda em 2021. 

Era este, pelo menos, o plano anunciado pela gestão Haddad. Com investimento de R$ 1,9 bilhão ao longo de 4 a 5 anos, o NESP poderia gerar pelo menos 5 mil novos empregos, além de atender 25 mil permissionários da Ceagesp que trabalham na sede da Vila Leopoldina. Do total de investimentos previstos, o grupo teria aplicado cerca de R$300 milhões na elaboração do projeto, compra de um terreno de mais de 1 milhão de m², perto da Rodovia dos Bandeirantes e nos primeiros licenciamentos. 

A captação total do investimento do NESP ainda não foi concluída. Procurado, o grupo NESP, presidido pelo empresário Sérgio Benassi, não quis se manifestar.

O projeto completo é mais amplo, somando R$ 5 bilhões de investimento exclusivamente privado para a criação do Polo de Abastecimento, Distribuição e Entreposto para São Paulo (PADESP), reunindo, além da “nova Ceagesp” (NESP), atividades como um terminal rodoferroviário alfandegado, um centro comercial de cereais, proteínas e lácteos e outro centro de logística, alcançando 6,6 milhões de m².

Na prática, a queda de braço entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador João Doria acirrou um vaivém de diferentes gestões estaduais e federais que se arrasta desde 2017. 

Para o secretário estadual de Agricultura e Abastecimento, Gustavo Junqueira, a saída da Ceagesp da Vila Leopoldina, área bastante valorizada da capital, é inevitável e vai acabar se impondo por causa do alto custo para manter as atividades ali.  “É como ter uma fábrica de linguiça na Avenida Paulista: ela pode estar lá, só que custa tão caro que não paga a linguiça”, disse Junqueira. “O que fazer com o terreno é uma decisão do governo federal. Aquilo lá é tudo dele. Todos os ônus e bônus são dele, não temos nada com isso. Mas que é um mal serviço que é prestado, é.”  A ideia original de Doria era implantar naquele local um centro de inovação e tecnologia.

Além do NESP, há um segundo entreposto em processo de aprovação pelo governo paulista, na rodovia Ayrton Senna. 

O governador fez uma revisão dos planos da gestão Geraldo Alckmin/Márcio França, e não pretende mais criar um novo entreposto concedido pelo Estado – a determinação agora é apenas analisar e aprovar os projetos apresentados pela iniciativa privada. 

Segundo o presidente do Sindicato dos Permissionários em Centrais de Abastecimento de Alimentos do Estado de São Paulo (Sincaesp), Claudio Furquim, que tem apoiado as iniciativas da nova gestão bolsonarista à frente da Ceagesp, a maioria dos permissionários prefere permanecer na Vila Leopoldina. Entretanto, ele diz que não se opõem à ideia de que São Paulo e a região metropolitana tenham vários entrepostos.

“Se tivéssemos gestão privada do nosso condomínio, ele teria um resultado muito melhor, num custo infinitamente menor”, diz o presidente do sindicato, que reclama de ingerência política. “Se isto aqui voltar a ser o que sempre foi, até meados do ano passado, uma ocupação política, pode ter certeza que não temos muito tempo de sobrevivência aqui. O que se deteriorou administrativamente, operacionalmente e da nossa infraestrutura, é um negócio pavoroso.” 

O presidente Bolsonaro indicou um novo diretor-presidente para a Ceagesp em outubro do ano passado: o coronel da reserva PM de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, ex-comandante da Rota. Conforme mostrou o Estadão, com práticas como oferecer descontos para policiais e unir a distribuição gratuita de alimentos a protestos contra o governo Doria, o Ceagesp desponta como reduto bolsonarista na capital.

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