Incra aposta em assentamento feminino

Responsáveis pelo gerenciamento do primeiro assentamento feminino brasileiro, o Engenho Gutiúba, em Itaquitinga, zona da mata norte de Pernambuco, as mulheres têm pela frente o desafio de atender a expectativas de melhor desempenho econômico e social da terra. Elas não se amedrontam. Coordenadora do Movimento dos Sem-Terra (MST) na zona da mata norte, Luíza Ferreira da Silva, é reconhecida pela capacidade de liderança e organização na região. O superintendente regional do Incra, Geraldo Eugênio, atesta que os 13 assentamentos do MST na área são melhor gerenciados que os da Mata Sul, comandado por um homem. "A aplicação dos recursos também é mais direta, não há desvio de função", afirmou ele. "E percebo que onde tem liderança feminina o nível de organização é superior". Geraldo Eugênio disse que o assentamento feminino servirá como um teste para comprovar se é verdadeira a hipótese de que nas mãos das mulheres a reforma agrária poderá ser um pouco diferente."Estou apostando nisso e disposto a repetir a iniciativa onde as mulheres tiverem atuação destacada", declarou.Terra, roça e filhos O assentamento feminino Engenho Gutiúba foi um reconhecimento à luta das mulheres que batalharam e capitanearam, durante dois anos, todos os esforços que levaram à conquista da terra. Os homens também estão presentes no assentamento, mas as mulheres receberão o título de posse e os créditos de instalação (R$ 1,4 mil por família, que deve sair em dois meses), habitação (R$ 2,5 mil por família) e investimento (até R$ 12 mil por família). O Incra recomendou o assentamento de 25 famílias na área de 282 hectares, mas esse número poderá chegar a 31 - total das famílias que já exploram a área, plantando produtos de subsistência. Para Luíza, a iniciativa foi "um ato de justiça". "As mulheres muitas vezes seguram a barra dos maridos desempregados, lutam e não são reconhecidas", afirmou. Tereza Cristina da Silva, eleita coordenadora do assentamento, trabalha na roça, luta pelo direito à terra e cria sete filhos. Ela frisou já ter passado o tempo em que a mulher só pilotava o fogão. Entre os planos das assentadas está o de construção de uma escola para as crianças e a luta por um posto de saúde na área. Geraldo Eugênio destacou que em Pernambuco somente 16% dos títulos de posse estão nas mãos das mulheres, sendo preciso mudar o quadro e criar um novo modelo. Ele confia que sob o comando feminino os recursos atenderão melhor às famílias como um todo. "As mulheres e os jovens não são ouvidos nas decisões, os homens costumam decidir".

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