Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Incentivo aos times de futebol de várzea é o novo ‘filão’ das candidaturas

Equipes ganham padrinhos políticos e campos na periferia são reformados; já existe até torneio com nome de vereador

Felipe Frazão e Diego Zanchetta, de O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2012 | 16h00

O vereador Senival Moura (PT), candidato à reeleição, empresta seu nome a um torneio de futebol de várzea que, às vésperas da votação, divulga a atuação do parlamentar no esporte amador pelos campinhos de terra batida da zona leste de São Paulo. Quem organiza a chamada Copa Senival, já na sexta edição, é um funcionário da Câmara Municipal lotado no gabinete do petista, com salário bruto de R$ 11.884,83 mil. Entre julho e setembro, o campeonato movimenta 320 times e mais de 5 mil atletas amadores, que disputam jogos em terrões e Clubes da Comunidade (CDCs) - equipamentos públicos esportivos da periferia, administrados por entidades privadas, mas cuja supervisão cabe à Prefeitura.

O responsável pela competição é Adilson Ramos Lacerda, conhecido como Pintinho. Ele trabalha na Câmara há cinco anos, empregado como assistente parlamentar da equipe de garagem e frota do gabinete de Senival, segundo informações do parlamento paulistano. Com desconto de impostos, o salário líquido de Lacerda gira em torno de R$ 9 mil - verba pública do orçamento do Legislativo.

Na prática, ele fica no escritório político de Senival em Guaianases - reduto eleitoral do petista. Contatado por telefone numa sexta-feira à tarde, Lacerda afirmou à reportagem que preside a Associação de Coordenadores de Clubes Esportivos (Acocesp), entidade que, segundo ele, funciona na Rua Andes, 991, Guaianases. O endereço coincide com o do comitê de Senival, apesar de o vereador contradizer o funcionário: "Não fica lá".

O assessor faz contato direto com times e gestores dos campos e CDCs. Também supervisiona pessoalmente as partidas aos fins de semana. E recolhe o pagamento de taxas de inscrição de R$ 100; e de R$ 35 para pagamento direto dos árbitros a cada jogo. Ao todo, o torneio arrecada R$ 32 mil por equipe e distribui R$ 5 mil em dinheiro - sem contar prêmios de patrocinadores e um jogo de camisas que leva o nome do vereador para o campeão.

Para mascarar a conotação política, Lacerda diz que o nome do torneio é Copa Acocesp e nega que Senival se envolva na coordenação. "O pessoal fala que é Copa Senival, porque, lá atrás, antes de o Senival ser vereador, ele me ajudava", explica Lacerda. Nesse quesito, o petista concorda: "Hoje não tem mais a copa. Tinha antigamente. A Copa Senival acabou. É Acocesp. Eu organizei no passado, em 2002 e 2004. E parei, não tem nada a ver comigo". Apesar disso, o site da competição (www.acocesp.com.br) exibia em julho, antes de o Estado procurar o vereador e seu assessor, uma mensagem de agradecimento do parlamentar e a inscrição "6.ª Copa Senival".

A reportagem acompanhou cinco jogos da competição em campos de quatro bairros da zona leste: Itaquera, Guaianases, São Miguel Paulista e Vila Prudente. Todos os jogadores ouvidos disseram que o torneio se chama Copa Senival. "É a copa-voto", reclamou, irônico, um dirigente que pediu anonimato.

As disputas começam pela manhã, sob sol fraco e temperatura amena. Mas chegam a ficar intensas. Em Itaquera, uma torcida organizada soltava rojões e arremessava bombas sem parar no campo, enquanto o jogo corria como se nada acontecesse. Na arquibancada, rapazes consumiam drogas e faziam batucada. Um dos times, o Sem Fofoca F.C., vestia uniforme com a frase "Campeão da 5.ª Copa Senival 2010" estampada nas costas. Além da inscrição "Apoio Luiz Moura" - em referência ao deputado estadual petista, irmão de Senival. Os jogadores do Escadão, de Guaianases, exibiam a frase "Apoio Senival" no local destinado ao patrocinador nas camisas. E a logomarca da cooperativa de ônibus CooperAlfa no lugar do escudo do time.

Ligado às cooperativas de transporte público, Senival também é conhecido por conseguir benesses para os times que apoia - e dos quais recebe apoio político de jogadores e familiares. Integrantes de equipes relatam que ele doa uniformes e consegue "fretar" peruas nos fins de semana para levá-los às partidas. O vereador nega: "Não ajudo em nada disso, não trabalho dessa forma".

O Estado flagrou um ônibus da linha 3919/10 , da Transcooper, levando jogadores após uma partida no campo da Associação Esportiva Brasil. O luminoso do ônibus indicava "Serviço Social". A São Paulo Transporte (SPTrans), empresa responsável pelos ônibus paulistanos, informou que não há previsão para tal uso particular dos ônibus e que os veículos não podem, sob pena de multa, fazer trajetos fora das linhas a que pertencem.

Em 2009, Senival conseguiu aprovar em primeira votação na Câmara um projeto de lei que obriga as empresas de ônibus a prestar "atendimento de cunho social aos fins de semana". Ele alega que moradores da periferia precisam "se deslocar por muitos quilômetros para usufruir de espaços públicos e às vezes não o fazem porque falta uma lei para garantir o deslocamento".

Proibição. O regulamento do torneio impede as equipes de vestirem camisas com nome de políticos que não o dos irmãos Senival e Luiz Moura. "Não será permitida a utilização de uniforme e demais peças que levam mensagem publicitária de políticos de empresas concorrentes do patrocinador da VI Copa Acocesp", rege a norma.

"Tenho participação no futebol varziano, mas você não me viu em nenhum dos campos", alegou Senival. De fato, a reportagem não o encontrou nos jogos de estreia. Tampouco flagrou qualquer peça de propaganda do candidato presa nos alambrados dos campos. "O vereador tem a agenda política dele. Às vezes aparece para tomar um café com a turma, de cotidiano. É livre para todo mundo aparecer", disse Lacerda. "Não colocamos propaganda, porque é público. Se puser placa aí, ele sabe que pode ser impugnado. E, vou te falar, ele já pediu para não por", diz o vice-presidente do CDC Baquirivu, em São Miguel Paulista, Rogério Pereira. "Mas todos eles trabalham por voto".

Verdinhos. Senival destinou seis de suas oito emendas parlamentares ao orçamento municipal de 2012 à reforma de CDCs. Enviou R$ 960 mil para construção de vestiários, academias, lanchonetes, parquinhos e colocação de alambrados. "O esporte para mim é uma forma de inclusão social. Se transforma em voto ou não, é outra história. A gente faz as emendas porque há precariedade", diz.

O petista não é caso isolado. Com a ajuda de emendas de 29 dos 55 vereadores, a Prefeitura aplicou R$ 204 milhões para acabar com o "areião"da periferia desde 2008. Campinhos precários de favelas receberam grama sintética e iluminação. O recordista em investimento é o vereador Antonio Goulart (PSD), "padrinho" de oito equipes da zona sul. Ele diz ser o "inventor" da emenda que pede grama sintética para campinhos de terra. "Não faço só o campinho. Também levo academia para terceira idade, quadra de bocha, pista de cooper. Eram locais abandonados."

Graças às propostas de parlamentares envolvidos com o futebol, como Dalton Silvano (PV), nos últimos quatro anos a Prefeitura reformou 415 dos 467 campos com dimensões oficiais. Só Goulart ajudou com R$ 14 milhões. O montante investido em reformas e competições esportivas é maior que o aplicado, neste mandato, na recuperação de postos de saúde (R$ 201 milhões), por exemplo.

A grama sintética foi abraçada por todos os partidos. Os campinhos reformados passaram a ser coordenados por diretorias formadas por líderes de bairro - em geral ligadas a vereadores. A aposta na grama sintética ganha explicações mais convincentes quando é analisado o eleitorado em potencial da várzea. São 480 equipes disputando o Campeonato de Futebol Amador promovido pela Prefeitura - quase 30 mil jogadores. E cerca de 100 mil crianças que disputam campeonatos e participam de escolinhas apadrinhadas.

Alguns líderes comunitários, contudo, reclamam que atualmente só conseguem melhorias quando se comprometem com parlamentares. Foi com o apoio do vereador Milton Leite (DEM), que organiza a Copa Família Milton Leite, que líderes comunitários do Jardim Iporanga conseguiram reformar o clube da comunidade mantido pela Prefeitura, que ficou abandonado entre 2001 e 2008.

O domínio de vereadores sobre os campos da Prefeitura é ilegal. Em abril de 2007, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) publicou o Decreto 48.267, determinando que a pasta de Esportes fiscalize e supervisione os 282 clubes da comunidade na capital. Pela norma, as atividades devem ser desenvolvidas com supervisão do governo, o que não ocorre na prática.

A Secretaria de Esportes afirma que as entidades têm de prestar contas à pasta sobre as atividades desenvolvidas nos clubes. Mas não existem relatórios com dados do que é feito dentro desses espaços. A Prefeitura, porém, defende a reforma dos campos como forma de dar opção de lazer à periferia. Ex-secretários de Esportes da gestão Kassab, Walter Feldman (PSDB) e Bebetto Haddad (ex-PMDB) reconhecem que os vereadores podem levar os votos por terem achado, em parceria com a pasta, o filão da grama sintética nos CDCs: "O benefício no equipamento melhora a imagem do vereador e isso se traduz em prestígio local", disse Bebetto. "Foi uma belíssima combinação entre o Executivo, o parlamento e a comunidade mobilizada para reformar os equipamentos esportivos", disse Feldman.

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