"Inaceitável que Brasil conviva com a fome?

O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, disse, nesta sexta-feira, no Recife, ser inaceitável e absurdo que um país como o Brasil conviva com a fome. De acordo com o Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada (Ipea), 23 milhões de brasileiros passam fome."Isto não é uma fatalidade, já que o Brasil é um país rico, uma potência industrial, econômica e financeira". Para ele, a concentração de renda e de terra e a estrutura social arcaica, com a herança colonial da escravatura, são questões que levam à fome e representam problemas que precisam ser superados.?Fantástico laboratório?As soluções, ele acredita, surgirão do "fantástico laboratório" que é o País, com sua criatividade, idéias e contradições. Ziegler afirmou ter sido muito bem recebido em Brasília, onde passou uma semana. "Nenhuma pergunta ficou sem resposta, houve transparência", afirmou, frisando ter ficado impressionado com a competência do governo, dos ministros e com a clareza da estratégia do presidente Fernando Henrique, que considera um grande estadista. "Mas agora vamos ao campo, ver a realidade, que é sempre muito diferente".Nesta sexta-feira, Ziegler visitou o prefeito do Recife, João Paulo (PT), o amigo pessoal e ex-governador Miguel Arraes, presidente nacional do PSB, e o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB). Encontrou-se com representantes de entidades da sociedade civil, e, neste sábado, acompanhado de membros do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), vai ver de perto a situação da Usina Aliança, na Zona da Mata, onde 600 famílias de trabalhadores rurais reclamam terra e direitos trabalhistas.AssentamentosA usina faliu em 1996,e o processo de desapropriação dos 21 engenhos pertencentes à usina está emperrado por causa de uma decisão judicial impetrada pelos seus proprietários. No domingo, Ziegler vai conhecer acampamentos e assentamentos em Petrolina (PE) e Juazeiro do Norte (BA), no sertão do São Francisco. Na segunda-feira, segue para Salvador.Rio de Janeiro e São Paulo também estão no roteiro do relator, que em abril deve apresentar um resumo do relatório do que foi visto e observado na viagem, em reunião da Comissão dos Direitos Humanos, em Genebra, Suíça.Somente no fim do ano, o relatório final será formalmente apresentado à Assembléia-Geral da ONU, com recomendações e críticas a serem encaminhadas ao governo brasileiro com referência à alimentação. "Ter direito à alimentação não o direito à cesta básica, mas o direito a uma renda mínima, ao acesso à terra", reiterou ele.

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