Rogerio Santana/Governo RJ
Rogerio Santana/Governo RJ

Impeachment não muda postura antipolítica de Witzel

Governador do Rio não tem líder na Assembleia Legislativa nem indicou parlamentar que faça interlocução com a Casa

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 05h00

RIO - Passado mais de um mês da abertura de processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), o governador Wilson Witzel (PSC) mantém uma postura distante dos deputados estaduais. Ele não tem líder na Casa nem indicou um parlamentar que faça a interlocução com a Alerj.

O governador está sendo questionado na Assembleia pela suspeita de estar envolvido nos escândalos de corrupção na Saúde em plena pandemia. Witzel afirma ser inocente. Na quarta-feira passada, em vídeo, disse que as acusações são “levianas” e feitas por pessoas “que não querem ver um juiz governar o Rio de Janeiro”. 

“Fui um juiz linha-dura e isso, infelizmente, está incomodando muita gente ligada ao crime organizado e às máfias que atuam no Estado. Por que será que alguns não querem um ex-juiz governando o Estado?”, afirmou Witzel, na gravação. Essa postura, de se apresentar como juiz, incomoda os deputados, que a interpretam como inaptidão para a política.

Ninguém quer assumir a liderança do governo na Alerj, função que está vaga desde 29 de maio. Além disso, já não há um interlocutor específico que tente reverter o prejuízo na Casa. O vice-governador, Cláudio Castro, o secretário de Casa Civil, Cleiton Rodrigues, e até o presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo, chegaram a ser enviados ao Palácio Tiradentes para conversar com os deputados, mas não houve avanços.

Um deputado ouvido pelo Estadão sob condição de anonimato disse que Witzel “já perdeu completamente a mão” e que a falta de diálogo leva a uma situação política “muito grave”. 

A defesa de Witzel tem até o dia 30 para apresentar seus argumentos à comissão especial do impeachment da Alerj. A tendência é de que o caso seja levado ao plenário em agosto.

Antes escalado para conversar com a Assembleia, Cláudio Castro tem mantido discrição. Ele é orientado por aliados a não se associar exageradamente ao governador, a fim de não ficar contaminado caso o impeachment seja aprovado. É ele quem assumiria o cargo se Witzel fosse afastado.

Aliados do governador afirmaram que o governador, se cair, não vai deixar o Palácio Guanabara de forma pacífica. A tendência é de que tente revelar fatos que possam comprometer tanto o próprio vice, que controla órgãos como o Departamento de Trânsito (Detran), quanto o presidente da Alerj.

Para evitar a possibilidade de ser afastado do cargo, Witzel tem apostado na via judiciária. Anteontem, um desembargador do Rio negou o pedido apresentado pela defesa do governador, que questionava pontos das acusações e do rito do impeachment. Após a decisão liminar desfavorável, a defesa pretende pedir para o caso ser julgado pelo colegiado do Órgão Especial do Tribunal de Justiça, composto por 25 desembargadores. Se também for derrotado lá, Witzel recorrerá às instâncias superiores, em Brasília.

O ex-secretário de Saúde Edmar Santos foi preso na semana passada pelo MP do Rio, o que só colaborou para a degradação política de Witzel. Sua detenção causou uma disputa entre a Promotoria fluminense e o Ministério Público Federal, a quem cabe investigar o governador. Segundo a revista Veja, Edmar havia feito um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República.

Na delação, ele entregaria provas do envolvimento de Witzel no suposto esquema. Por isso a PGR pediu a soltura do ex-secretário, o que vai contra o MP local. Os investigadores têm em mãos, além disso, três celulares e três computadores do governador apreendidos em maio, quando ele foi alvo de mandado de busca e apreensão.

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