Andre Penner/AP Photo
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Impeachment de Bolsonaro movimenta partidos: veja como as siglas reagiram ao 7 de Setembro

Declarações e atos de caráter antidemocrático ampliam pressão nas legendas para afastar chefe do Executivo do cargo

Cássia Miranda, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2021 | 11h49

A maioria dos partidos com representantes no Congresso reagiu duramente contra os discursos feitos pelo presidente Jair Bolsonaro nos atos, em Brasília e São Paulo, de 7 de Setembro. Desde ontem, as siglas voltaram a se movimentar em torno da articulação pelo impeachment do chefe do Palácio do Planalto.

A subida de tom de Bolsonaro, que desafiou decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), provocou pressão por uma resposta mais dura no Legislativo. As atenções se voltam novamente para o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a quem cabe a decisão sobre a abertura de processo de impeachment. Sobre sua mesa, há 124 pedidos de cassação do mandato de Bolsonaro. 

Partidos que até aqui preferiam a cautela, como PSDB e PSD, passam a discutir abertamente a possibilidade de apresentar um novo pedido de impeachment do presidente. A posição das legendas é crucial, mas isso não significa que o tema tenha amplo apoio nas bancadas. De qualquer forma, a pressão de lideranças políticas e de setores da sociedade civil em torno da responsabilização de Bolsonaro é crescente. Nas redes sociais, a hashtag #impeachment esteve entre os assuntos mais comentados no Twitter, nesta manhã de quarta-feira, 8.

O Estadão listou abaixo as reações de todos os partidos com representantes no Congresso. Confira:

PSL - Em conjunto com o DEM, o partido liderado pelo deputado Luciano Bivar (PE), emitiu nota em que repudia “com veemência” o discurso feito pelo presidente Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL em 2018, contra as instituições democráticas.

“Hoje se torna imperativo darmos um basta nas tensões políticas, nos ódios, conflitos e desentendimentos que colocam em xeque a Democracia brasileira e nos impedem de darmos respostas efetivas aos milhões de pais e mães de família angustiados com a inflação dos alimentos, da energia, do gás de cozinha, com o desemprego e a inconstância da renda”, diz trecho do texto.

PT - O Partido dos Trabalhadores não anunciou nenhuma ação concreta após os atos de 7 de Setembro. A presidente nacional da sigla, deputada Gleisi Hoffmann (PR), no entanto, esteve presente no ato realizado pela oposição no Vale do Anhangabaú, que tinha como pauta o impeachment de Bolsonaro. Pelo Twitter, a petista avaliou que o chefe do Executivo sente “medo da Justiça”. O partido já é signatário do 'superpedido' de impeachment, protocolado no fim de junho e assinado por entidades e lideranças de espectro político variado. As siglas que apoiaram formalmente o 'superpedido' são PT, PCdoB, PSB, PDT, PSOL, Cidadania, Rede. Além destes, há legendas signatárias que não têm representação no Congresso: UP, PSTU e PCB.

“Os discursos de Bolsonaro escancaram o medo que ele tem da Justiça. Terá de explicar de onde veio o dinheiro para bancar seus atos de intimidação. E parabéns à militância que participou, de cabeça erguida, de mais um Grito dos Excluídos. Nossa causa é a pauta do povo!”, escreveu Gleisi nesta terça.

PL - O partido não se manifestou oficialmente e ocupa a pasta da Secretaria de Governo, com a deputada licenciada Flávia Arruda (DF), mas viu um de seus representantes de maior destaque, o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (AM), dizer que é “inevitável a abertura do processo de impeachment”.

Progressistas - O partido do novo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), faz parte da base do governo e teve como única publicação formal ao 7 de Setembro uma mensagem pelo Dia da Independência. Lira é o responsável direto por pautar na Câmara um eventual pedido de impeachment e mantém em suspenso, na gaveta, mais de uma centena de pedidos protocolados.    

PSD - O partido de Gilberto Kassab anunciou que formará uma comissão para acompanhar os desdobramentos das manifestações do governo neste 7 de Setembro e avaliar as reações às ameaças realizadas ao Estado democrático. 

"A cada dia vemos aumentar a instabilidade e o PSD está acompanhando essa situação com muita atenção. Temos avaliações de alguns importantes juristas apontando que apenas as falas, as manifestações, seriam razões suficientes para justificar o processo (de impeachment)", disse Kassab em nota. "Tivemos hoje a temperatura mais elevada, manifestações muito duras, acima do tom. Começam a surgir indicativos importantes, que podem justificar o impeachment. A fala de que o presidente não vai acatar decisões judiciais é muito preocupante."

MDB - O presidente do MDB, deputado Baleia Rossi (SP), publicou em suas redes sociais a posição oficial do partido e sugeriu uma resposta mais dura contra Bolsonaro, sem citar diretamente um pedido de impeachment. "O MDB respeita divergências programáticas, mas se aferra à Constituição que determina a independência harmônica entre os poderes. Contra isso, o próprio texto constitucional tem seus remédios em defesa da democracia, que é sinônimo da vontade do povo", escreveu.

Ao Estadão, o ex-ministro Carlos Marun, um dos integrantes da executiva do MDB, afirmou que a discussão dependerá do clima na bancada e das ruas. "Não podemos simplesmente avançar em um pedido de impeachment para jogar para a torcida. Deveríamos estabelecer desde já uma coalizão, um grupo de partidos para estar junto em uma terceira via. Estamos perdendo o momento de fazer essa definição", afirmou Marun.

PSDB - Pela primeira vez, a executiva nacional tucana foi convocada para discutir o impeachment de Bolsonaro. A reunião será realizada nesta quarta-feira, 8. Integrantes do partido dizem que é preciso interditar os avanços antidemocráticos do chefe do Executivo antes que seja tarde demais. Os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS), concorrentes entre si pela vaga de presidenciável do partido em 2022, declararam-se favoráveis ao processo de impedimento.

"Defendo a abertura do processo de impeachment por entender que até as eleições estão ameaçadas. Ontem foi o 7 de Setembro, amanhã é o Conselho da República e depois?", disse o ex-deputado Antonio Imbassahy. “O PSDB finalmente resolveu mostrar a cara. Precisa começar a discutir os temas que importam”, complementou o deputado Danilo Forte (PSDB-CE).

PSB - O presidente nacional da sigla, Carlos Siqueira, cobrou pelas redes sociais uma reação mais “intensa” contra Bolsonaro. Em seu site, o partido publicou uma nota intitulada “É Sete de Setembro: Viva o Brasil, fora Bolsonaro!”. “Esse presidente da República se dedica a criar crise institucional e a pregar soluções autoritárias. Isto é inaceitável! As instituições, Congresso, STF e a própria sociedade civil precisam reagir com maior intensidade!”. O partido é signatário do 'superpedido' de impeachment. 

DEM - Em conjunto com o PSL, o partido liderado pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto, emitiu nota em que repudia “com veemência” o discurso feito pelo presidente Jair Bolsonaro contra as instituições democráticas. O texto cita que os partidos entendem que a liberdade é o principal instrumento democrático e não pode ser usada para fins de “discórdia, disseminação de ódio, nem ameaças aos pilares da própria democracia”. 

“Hoje se torna imperativo darmos um basta nas tensões políticas, nos ódios, conflitos e desentendimentos que colocam em xeque a Democracia brasileira e nos impedem de darmos respostas efetivas aos milhões de pais e mães de família angustiados com a inflação dos alimentos, da energia, do gás de cozinha, com o desemprego e a inconstância da renda”, diz trecho do texto.

PDT - Presidente nacional do partido, Carlos Lupi foi às redes para chamar Bolsonaro de “profeta da ignorância”, que “tenta se agarrar ao público que lhe é fiel por sua pauta de direita, homofóbica e racista para desviar o foco da realidade de seu desgoverno em crise profunda de energia, inflação galopante e desemprego recorde. Com isso, consolida seus seguidores e faz a pauta que gosta, para esquecer a realidade de sua incompetência”, escreveu. O partido é outro signatário do "superpedido".

Solidariedade -  O presidente nacional do Solidariedade, deputado Paulinho da Força (SP), anunciou que o partido vai se reunir na próxima semana para debater seu posicionamento sobre a abertura de processo de impeachment de Bolsonaro. “Mais uma vez, o presidente afrontou a democracia e deu provas de que não vai parar com os ataques às instituições”, diz o deputado, que defendeu que este é o momento para “sair da neutralidade” e “conversar com diversos partidos” sobre a possibilidade de impedimento.

Podemos - O partido não emitiu nenhuma reação oficial. E parece não ter uma posição sólida sobre o assunto. De um lado, o líder do Podemos no Senado, Álvaro Dias (PR), afirmou que “Bolsonaro faz ameaça golpista ao STF em ato com milhares em Brasília” e faz “pregação da anarquia”. De outro, o também senador Eduardo Girão (CE) defende que é necessário refletir sobre o impacto da mobilização popular. "Participei em Brasília do gigante ato neste 7 de Setembro, no qual milhares clamaram por liberdade. Agora, é preciso refletir sobre o impacto das manifestações. Amanhã cedo tratarei no Senado de ações que atendam aos legítimos anseios do povo, pelo bem da democracia."

Psol - Signatária do "superpedido de impeachment", o partido não tomou nenhuma nova medida, mas reforçou sua posição favorável ao impeachment do presidente. “Bolsonaro ameaça descumprir decisões do STF e estimular Polícia Federal e Forças Armadas a fazer o mesmo. A resposta das instituições deve ser imediata: impeachment já! #ForaBolsonaro #7SForaBolsonaro #BolsonaroAcabou”. 

Novo - Pelo Twitter, o Partido Novo não só defendeu o impeachment de Bolsonaro como afirmou que estará nas ruas no próximo dia 12, quando estão marcados atos contrários ao governo. “O NOVO é oposição ao governo Bolsonaro. O NOVO defende o impeachment de Bolsonaro. O NOVO estará nas ruas 12/09 contra Bolsonaro”, diz a mensagem.

PCdoB - Para a presidente nacional do PCdoB e vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos, Bolsonaro mostrou “desespero” nas falas de 7 de Setembro. A sigla também aderiu ao "superpedido" de impeachment.

“Ele apela para um tudo ou nada porque sabe que o seu governo acabou”, avalia. “O povo quer vacina, comida e emprego. Não quer saber de arroubos autoritários. As instituições são maiores, e é preciso unidade das forças democráticas para superarmos esse momento. Vai passar! #ForaBolsonaro”, completa.

Cidadania - Como mostrou o Estadão, o presidente do Cidadania, Roberto Freire, reforçou em mensagem ao grupo de WhatsApp do partido que a sigla já aprovou a defesa do impeachment. “Outros partidos e atores políticos estão começando a enxergar igual caminho, mesmo os que sempre tiveram dificuldades de entender o processo em momentos como esse. Sabemos qual é o desenlace que queremos para o país. É preciso que a bancada na Câmara dos Deputados se integre a esse esforço”, escreveu. 

“Se tinha dúvida, Arthur Lira viu agora com o discurso na Paulista que não há acordo possível com golpista. Golpista não tem palavra. Bolsonaro deu um chapéu em Lira: atacou STF e urnas eletrônicas. Um comício delinquente bancado com dinheiro público. IMPEACHMENT JÁ, deputado!”, defendeu nesta quarta, no Twitter. O Cidadania está entre as siglas unidas em um só "superpedido" de impeachment.

Patriota - O partido, que abriga o filho mais velho de Bolsonaro, não comentou oficialmente os atos. Pelo Twitter, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) reagiu às críticas contra o presidente. “Só fala em impeachment quem não está ouvindo a voz das ruas!”, escreveu. 

PV - Até o fechamento desta matéria, o PV não comentou os atos de 7 de Setembro e as falas do presidente.

Rede - Pelo Twitter, a presidente da Rede, Marina Silva, citou indiretamente a possibilidade de impeachment. “Bolsonaro sempre demonstrou não ter limites, mas o Brasil o limitará, sem dúvida! Não vamos abrir mão da democracia por causa de um delírio ditatorial. Não adianta recorrer a uma suposta coragem para desafiar as instituições. Ele não passa de um autoritário irresponsável. Chega!”, escreveu.

Por meio de mensagem em rede social, o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (AP), anunciou que ingressou no STF com uma notícia-crime para que Bolsonaro seja investigado por: “1. Atentado contra a ordem constitucional, o Estado Democrático de Direito e a separação dos Poderes, conforme prevê a Constituição Federal. 2. Investigação sobre eventual financiamento destes atos de hoje. 3. Utilização indevida da máquina pública, do dinheiro público, helicópteros, em favor desses atos. Também solicitei ao STF a abertura de inquérito contra Bolsonaro, por sua grave ameaça ao livre funcionamento do Judiciário e pelo uso de recursos públicos p/ financiar seu carnaval golpista, na forma da (ainda vigente) Lei de Segurança Nacional (arts. 18 e 23, I)”, escreveu. A Rede também é proponente do "superpedido".

PROS, PSC, PTB, Republicanos e Avante - Até o fechamento desta matéria, os partidos, que são membros da base do governo no Congresso, não se manifestaram sobre os atos. O presidente licenciado da legenda, Roberto Jefferson, foi preso por ordem do ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das milícias digitais. 

 

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