Paulo Lopes/AFP
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Impeachment de Bolsonaro é apoiado por 76% em caso de descumprimento de ordem judicial, diz pesquisa

Durante protesto convocado no 7 de setembro, presidente chamou o ministro Alexandre de Moraes de 'canalha' e disse que não obedeceria nenhuma decisão que parta dele; de acordo com levantamento, 56% defendem o impedimento mesmo que ele não cumpra a ameaça

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 12h45
Atualizado 20 de setembro de 2021 | 11h16

O impeachment de Jair Bolsonaro é apoiado por 76% dos brasileiros, caso o presidente venha a descumprir ordens judiciais - como prometeu durante o protesto de 7 de setembro, na Avenida Paulista - revelou pesquisa do Datafolha divulgada neste sábado, 18. 

De acordo com o instituto, a maioria dos entrevistados se mostrou favorável ao impedimento de Bolsonaro caso ele cumpra a promessa de desacatar determinações da Justiça - o que configura crime de responsabilidade. Enquanto isso, 21% responderam que o presidente não deveria ser punido, e 3% não souberam opinar.

Pela pesquisa, os mais incisivos acerca do "golpismo" da fala são os jovens de 16 a 24 anos, sendo que 86% defendem o impeachment, os mais pobres (82%) e os que reprovam o presidente com (94%). Já os mais tolerantes com o desrespeito legal são os mais ricos, com 32% não vendo a necessidade de impeachment, empresários (39%) e os que aprovam Bolsonaro (59%).

Mesmo que Bolsonaro não descumpra as ordens judiciais, a pesquisa aponta que 56% dos brasileiros são favoráveis à abertura do processo de impeachment dele na Câmara dos Deputados. Outros 41% se disseram contrários à medida e 3% não souberam opinar. Os índices variaram dentro da margem de erro de dois pontos porcentuais do levantamento anterior, quando 54% dos entrevistados defenderam o impedimento.

O grupo pró-impeachment do presidente ganhou vantagem em relação aos contrários pela primeira vez em maio deste ano. Naquele mês, uma pesquisa do mesmo instituto aferiu que 49% dos entrevistados defendiam o processo, ante os 46% contrários.

Apoiadores do PT e homossexuais/bissexuais são os grupos em que a defesa do impeachment fica ainda maior, com índices de 86% e 83%, respectivamente. Já entre os que se opõem ao processo, os empresários (69%), quem prefere o PSDB e quem ganha mais de dez salários mínimos, empatados em 55%, são maioria.

Manifestações antidemocráticas

Em discurso na Avenida Paulista, durante protesto convocado no 7 de setembro, Bolsonaro atacou o Poder Judiciário. Aos milhares de apoiadores que lotaram a via, no entanto, o recado foi eleitoral e com um tom, mais uma vez, golpista. O presidente chamou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de "canalha", pediu para ele "sair" e disse que, a partir de agora, não vai obedecer nenhuma decisão que parta dele. Diante da resposta positiva dos apoiadores, ainda declarou que só deixa o cargo morto e que nunca será preso.

"Não temos qualquer crítica às instituições, respeitamos todas as instituições. Quando alguém do Poder Executivo começa a falhar, eu converso com ele. Se ele não se enquadra, eu demito. No Legislativo não é diferente. Quando um deputado ou senador começa a fazer algo que incomoda a todos nós, e que está fora das quatro linhas, geralmente se aciona o conselho de ética e ele pode perder o seu mandato. Já no nosso Supremo Tribunal Federal um ministro ousa continuar fazendo aquilo que nós não admitimos, um ministro que deveria zelar pela nossa liberdade, pela democracia, pela Constituição e faz exatamente o contrário. Ou esse ministro se enquadra ou ele pede pra sair", disse Bolsonaro, referindo-se a Moraes.

Na sequência, ao dizer que Moraes ainda tem "tempo para se redimir", Bolsonaro ouviu "vaias" da multidão que lotava 11 quarteirões da via e recuou. "Ou melhor, acabou o tempo dele. Sai, Alexandre de Moraes, deixe de ser canalha, deixe de oprimir o povo brasileiro, deixe de censurar o seu povo." E teve a resposta esperada. "Eu autorizo", gritavam os apoiadores, em coro.

Dois dias depois, no entanto, o presidente recuou e divulgou uma declaração à Nação, escrita com a ajuda do ex-presidente Michel Temer, na qual volta atrás do tom adotado nos discursos do 7 de setembro e até elogia Moraes.

Também segundo o Datafolha, 66% das pessoas ouvidas disseram que manifestações com bandeiras como o fechamento do STF e do Congresso representam um risco para a democracia brasileira. Para 31%, elas não ameaçam, enquanto outros 3% disseram não saber responder.

Os índices também estão dentro da margem de erro da pesquisa feita em junho de 2020, quando 68% afirmaram acreditar que atos do tipo ameaçam a democracia, 29% se posicionaram contra a ideia e 3% não souberam.

Em relação às manifestações que pedem o fechamento do STF e do Congresso feitas por meio das redes sociais, 65% acreditam que haja ameaça à democracia; 31% responderam que não existe o risco; 4% não souberam responder.

Já a percepção de que a divulgação de notícias falsas a respeito de políticos e membros da Corte ameaçam a democracia caiu entre o levantamento deste mês e o de junho de 2020. Agora, 77% acham que a disseminação de fake news contra estes públicos contribuem para balançar as instituições, ante 81% na última pesquisa. Outros 19% dos ouvidos responderam que não contribuem, e 3% não souberam responder.

A pesquisa do Datafolha ouviu 3.667 pessoas com 16 anos ou mais, em 190 cidades, entre 13 e 15 de setembro. A margem de erro é de dois pontos porcentuais para mais ou menos.

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