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Impacto da pandemia na educação é maior em países sem inclusão digital, dizem analistas

Para participantes da Brazil Conference, crise sanitária foi ‘brutal’ para a educação de países que não investiram no setor

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 22h31

O fechamento de escolas durante a pandemia impactou a educação de todos os países, mas aqueles que já vinham investindo na inclusão digital conseguiram ao menos reduzir os danos – não foi o caso do Brasil e, por isso, por aqui foram brutas as perdas de aprendizagem. A avaliação é de especialistas que participaram nesta quinta-feira, 15, da Brazil Conference at Harvard & MIT 2021, evento organizado pela comunidade de estudantes brasileiros de Boston (EUA), em parceria com o Estadão.

“De 1997 até 2017 não tivemos nenhum investimento significativo em tecnologia das escolas”, disse Lucia Dellagnelo, diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira. Ela cita como exemplo o caso da Estônia, onde já havia um sistema educacional apoiado no uso da tecnologia e cujas perdas foram pequenas na pandemia. 

Professora da educação básica na Secretaria de Educação do Distrito Federal há 29 anos, Gina Vieira Ponte foi na mesma linha ao dizer que não é possível situar a atual conjuntura brasileira apenas com base nos dois últimos anos. Segundo ela, o Brasil sempre “pecou” em relação a suas políticas de inclusão digital de docentes e estudantes. “Temos um problema de descontinuidade e falta de consistência nas políticas publicas, além de dificuldade em investir os recursos de maneira adequada.”

Mesmo diante das dificuldades impostas na pandemia, que incluem a falta de acesso à internet por parte de muitos estudantes, ela avalia que os professores se saíram bem. “Felizmente, temos uma categoria muito engajada. E temos pesquisas mostrando que a maioria dos professores vieram das classes populares e tiveram suas histórias transformadas pela educação. Por isso mesmo há um compromisso muito sério com aquilo que eles fazem.” 

Fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, Claudia Costin avalia que as perdas de aprendizagem no País foram “brutais” e devem aprofundar as desigualdades educacionais. “É inegável que um ano letivo inteiro de escolas fechadas frente à necessidade de isolamento vai nos cobrar um preço.” Apesar do sofrimento, a crise traz o componente de aceleração de futuros que, na educação, deve ter um olhar para a inclusão digital, disse ela.

Empreendedorismo 

A Brazil Conference desta quinta-feira, 15, contou também com um painel para discutir o empreendedorismo social. A empresária Luiza Trajano, presidente do Conselho do Magazine Luiza, ressaltou que a pandemia da covid-19 escancarou as desigualdades sociais do País, mas, por outro lado, fez com que o empreendedorismo social e as empresas privadas dessem um "salto". O primeiro, diz Luiza, ganhou ainda mais relevância, e com isso precisou se aperfeiçoar. "As empresas sociais estão tendo que trabalhar organização, metodologia, porque quanto mais dinheiro entra, mais se exige essa estrutura." Já as empresas privadas, estão tendo que trabalhar com o social. "(A pandemia) fez com que todo mundo assumisse que a desigualdade social é uma doença, um tumor que prejudica a todos. E isso mexeu profundamente com o mercado." 

Também palestrante do painel, Ana FontesCEO da Rede Mulher Empreendedora, disse que o ano passado, apesar das dificuldades da pandemia, foi o ano de maior captação de recursos da história da Rede. "Captamos mais de R$ 45 milhões para projetos sociais dentro da nossa organização. Sentimos que as grandes empresas olharam para esse universo, principalmente para os pequenos negócios, e se prontificaram a ajudar de alguma forma."

Letícia Piccolotto, fundadora e CEO BrazilLAB, também enxerga um cenário positivo. "O empreendedorismo social vai tomar uma força muito grande na próxima década, porque precisamos resolver muitos desses problemas sociais", afirmou ela. "A gente vai ter de fato um elemento muito importante que é essa integração de um olhar do setor privado para um olhar empático, filantrópico, porque os dois mundos precisam cada vez mais dialogar."

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