Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

'Imortal', FHC fala em reinventar democracia

Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, ex-presidente faz autocrítica, lamenta a falta de 'alma democrática' no País e chama corporativismo de 'cupim'

Ampliado em 11.09 às 11h, Luciana Nunes Leal - O Estado de S. Paulo

10 de setembro de 2013 | 21h09

RIO - Em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), na noite desta terça-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apontou uma crise nas instituições, criticou o corporativismo e os partidos políticos e fez uma autocrítica ao citar os vícios da relação entre os poderes Executivo e Legislativo.

"Os partidos desdenham da relação direta com a comunidade. Abdicam da função fiscalizadora do Executivo, abrem espaço a ações do tipo rolo compressor do Executivo. Quantas vezes eu fiz isso", afirmou o ex-presidente para uma plateia que incluía companheiros tucanos como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o ex-governador José Serra e o senador e provável candidato à Presidência Aécio Neves (MG).

Eleito em junho, com 34 dos 39 votos possíveis, para o lugar de João Scantinburgo, Fernando Henrique criticou a "falta de alma democrática", o excesso de burocracia e os interesses fragmentados de sindicatos e outras instituições. "O corporativismo que renasce e passa do plano político ao social é o cupim da nossa democracia. Se somarmos impulsos populistas, temos um sistema político enfermo", discursou. Ele chamou atenção para as ondas de protesto que tomam conta do País e do mundo e para a incerteza de seus efeitos. "A agenda pública se encolhe e as ruas sequer são ouvidas (...). Ou reinventamos a democracia contemporânea ou poderá haver a manipulação por formas de autoritarismo".

Pouco antes da cerimônia, já vestido com o tradicional fardão dos imortais, Fernando Henrique afirmou que a situação do País ainda "é tensa" por causa dos protestos, e disse ser contra as máscaras e outros recursos usados pelos manifestantes. "Não vejo vantagem nenhuma em cobrir o rosto, estamos pedindo transparência para tudo e para todos", afirmou.

Em seu primeiro discurso como "imortal", Fernando Henrique condenou também o vandalismo, mas disse que também não concorda com atitudes radicais para evitar a presença de mascarados. "Não acho que seja o caso de fazer um carnaval. Na Europa houve tanta discussão por causa da burca, que não acho que ofenda nada. O que ofende é o vandalismo. Com ou sem máscara, o vandalismo não leva longe".

Aparato. Durante a cerimônia, a Polícia Militar montou forte aparato de segurança e fechou a rua em frente à sede da ABL, para prevenir eventuais manifestações. Um helicóptero sobrevoava a região e a polícia se manteve atenta à possibilidade de que um pequeno grupo que protestava na porta da Assembleia Legislativa.

Entre os convidados estava o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que viajou ao Rio na véspera de uma importante sessão do mensalão. "Convidei os ministros (do Supremo) que conheço", disse Fernando Henrique. O ex-presidente do Banco Central na gestão FHC Gustavo Franco e o cantor Gilberto Gil também estavam na plateia.

Em tom de brincadeira, Fernando Henrique disse que o fardão é "um pouco incômodo". Ele disse sentir constrangimento em ser candidato à Academia na condição de ex-presidente. "Não queria que confundissem meu status de presidente com minha qualidade de intelectual. Agora já passou tanto tempo, todo mundo sabe que não tenho e não quero ter poder, que estou em outra."

Políticos. Fernando Henrique é o terceiro presidente da República a vestir o fardão da Academia. Em 1941, Getúlio Vargas impôs sua presença no grupo. Em 1980, José Sarney foi acolhido. Entre os atuais colegas de Academia, ele terá a companhia, nas reuniões do grupo, de velhos companheiros de governo como o ex-vice-presidente Marco Maciel, o ex-chanceler Celso Lafer, e Rosiska Darcy de Oliveira, que presidiu o Conselho dos Direitos da mulher.

Além deles, os 40 imortais incluem figuras políticas de outros governos, como Eduardo Portela, que foi do gabinete de Juscelino Kubitschek e coordenou os assuntos de educação na Assembleia Constituinte - e ainda dois integrantes do governo Fernando Collor, Sérgio Rouanet, na Cultura, e Hélio Jaguaribe, na Ciência e Tecnologia.

Tucanos. Reunidos para prestigiar a posse, os principais líderes tucanos elogiaram o discurso do ex-presidente. "Ele retratou bem que vivemos uma crise de representatividade, de legitimidade partidária, institucional, que mostra necessidade de reformas mais profundas. É difícil ter democracia com mais de trinta partidos políticos. Essa fragmentação fragiliza as instituições. Há uma insatisfação com o modelo, um corporativismo exacerbado", afirmou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

"Foi um discurso extraordinário, me senti muito identificado na análise que ele fez", elogiou o ex-governador José Serra. Provável candidato tucano à Presidência em 2014, o senador mineiro Aécio Neves disse que Fernando Henrique chamou atenção "para o fosso que separa representantes de representados" e para a necessidade de garantia da democracia representativa. "Fernando Henrique é o mais contemporâneo dos pensadores brasileiros, a simbiose rara do intelectual, do pensador e do executor", disse Aécio.

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