‘Imagem de Chávez competirá com a de Fidel’, diz analista político

Para Rosendo Fraga, analista político argentino, o líder bolivariano nunca se transformará em um ícone universal, como ‘Che’ Guevara

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

05 de março de 2013 | 19h50

“O chavismo sem Hugo Chávez perdurará, já que tem fortes raízes sociais nos setores populares da Venezuela. No entanto, ele perderá influência regional”, acredita Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, da Argentina. Fraga disse ao Estado que, apesar da grande influência que o líder bolivariano teve na América do Sul, desde a virada do século até sua morte, nunca se transformará em um ícone universal como o líder guerrilheiro argentino-cubano Ernesto “Che” Guevara. Além disso, Fraga afirma que seu provável sucessor, Nicolás Maduro, não conta com o carisma de Chávez para tentar obter uma liderança regional.

 

Como Chávez será relembrado pela história?

Provavelmente, Chávez será lembrado como um personagem controvertido, como foi o argentino Juan Domingo Perón, com o qual ele tem algumas semelhanças, mas também algumas diferenças. Acho que, dificilmente, aconteceria com Chávez o que ocorreu com Che Guevara e Eva Perón, que se transformaram em ícones universais.

 

Qual o impacto da morte do presidente Chávez na estrutura de poder na Venezuela? O chavismo sem Chávez tem algum futuro?

Existem populismos latino-americanos, como o varguismo brasileiro, que não sobreviveram à morte de seu líder. Mas outros, como o peronismo na Argentina e o PRI mexicano, sim, souberam sobreviver. No entanto, acredito que o chavismo perdurará, já que tem raízes sociais muito fortes nos setores mais populares da Venezuela.

 

Nicolás Maduro poderia ocupar todos os espaços deixados por Chávez?

A sucessão de Chávez por Maduro não será fácil. Chávez é uma figura insubstituível. Provavelmente, será difícil impor sua liderança, se é que Maduro conseguirá. Existe um fator de carisma pessoal de Chávez que parece que Maduro não tem. No entanto, se ele conseguir manter o chavismo unido e vencer as próximas eleições, ele poderia se consolidar na Venezuela.

 

Fora da Venezuela, a morte de Chávez debilita o bolivarianismo e a influência de Caracas na América do Sul?

Chávez não é somente uma figura insubstituível na Venezuela, mas também em toda a América Latina. O presidente do Equador, Rafael Correa, é quem está dando os passos mais evidentes para ocupar o lugar regional que o líder venezuelano deixou. Entretanto, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, também poderia tentar um movimento nesse mesmo sentido.

 

A morte de Chávez significa o fim da incipiente presença iraniana na América do Sul?

A influência do Irã na América do Sul pode continuar sem Chávez, especialmente no Equador, na Bolívia, na Nicarágua e em Cuba. No entanto, ficará enfraquecida e não terá o mesmo apoio econômico que Chávez facilitou com créditos e petróleo barato.

 

A imagem de Chávez poderia ser usada como ícone revolucionário?

Chávez sempre pensou que, por razões de geração, ele substituiria Fidel Castro como líder da esquerda latino-americana. Agora, porém, pode ser o contrário. O regime cubano está moderando seu ímpeto revolucionário, assumindo o modelo chinês de autoritarismo na área política com a abertura ao capitalismo na área econômica. No entanto, Chávez foi na direção contrária e seu projeto de impor a propriedade comunitária é conceitualmente a nova forma de comunismo que teóricos da esquerda europeia como Toni Negri coloca. Chávez será reivindicado pela esquerda e sua imagem competirá com a de Fidel Castro.

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