Igreja quer influenciar programas de governo

Embora bispos e padres estejam proibidos de recomendar nomes aos fiéis para as eleições 2002, a Igreja estimulará a conscientização do eleitor e poderá até divulgar informações sobre candidatos, fora das missas. "O voto não tem preço, mas tem conseqüência", adverte o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, d. Raymundo Damasceno. A Igreja, que tradicionalmente tem assumido papel de oposição ao governo, não quer ser identificada com um partido ou um candidato específico, nas próximas eleições. Mas quer influenciar na construção de programas de governo. Por isso, a partir da próxima semana começará a distribuir a cartilha "Eleições 2002 - propostas para reflexão" a todos os congressistas, autoridades do Executivo e candidatos. O mesmo texto será traduzido em linguagem popular para ser distribuído pelo País afora. O documento, preparado pelo conselho permanente da entidade, já foi entregue ao candidato do PT, Luis Inácio Lula da Silva, que visitou a CNBB logo após a aprovação do texto, no final do ano passado. O secretário-geral diz que não entregou antes o trabalho aos demais candidatos por causa do período de férias. A cartilha traz críticas indiretas à política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, por estar mais voltada ao pagamento das dívidas, "em detrimento dos investimentos sociais".A CNBB quer a inversão dessa prioridade, não só no nível federal, mas também no estadual e municipal, para que "carências mais urgentes da população brasileira, como educação, saúde e segurança" sejam privilegiadas.A entidade lembra que a "fome continua sendo o maior flagelo", em parte porque "maus políticos a utilizam para se manter no poder". O documento ressalta ainda que pessoas em cargos públicos nem sempre exercem o mandato para benefício da comunidade, mas para o próprio bem ou de grupos. E conclui que a impunidade no País favorece a corrupção e a violência.Para alterar o quadro e conscientizar o eleitor de que seu voto tem valor, a Igreja quer promover debates, seminários e programas de rádio para discutir as propostas dos candidatos. Quer convencer os fiéis a escolherem seus representantes em todos os níveis de Poder a partir do programa de governo. Segundo d. Damasceno, a Igreja irá orientar o eleitor a avaliar os programas e conhecer a vida passada dos candidatos para votar em quem realmente preste serviço à comunidade, seja honesto e tenha compromisso com causas populares e as pessoas mais excluídas. A Igreja também quer que o eleitor opte por candidatos adeptos do pluralismo religioso, critério que atinge a candidatura do presidenciável Anthony Garotinho que se proclama abertamente evangélico.Para evitar a dispersão de votos, a Igreja irá sugerir aos eleitores católicos que participem de associaçõess de bairros e outras organizações populares. Além de estimular a instalação de comitês contra a corrupção eleitoral, para que se aplique a Lei 9.840, que proíbe o uso da máquina administrativa e a compra de votos.

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